Tem sido um verdadeiro passeio de montanha-russa acompanhar o desenvolvimento do Invocaverso. Em apenas 8 anos desde o começo desse universo compartilhado de demônios, espíritos, assassinos e criaturas, que surgiu a partir de Invocação do Mal – na época, um filme bastante despretensioso – a jornada possui seus pontos altos e baixos, com o diferencial de que, quando a produção acerta, Invocação do Mal 3 se transforma em um verdadeiro fenômeno, no entanto, quando passa o topo da diversão, a queda livre é sem dó nem piedade em direção ao fracasso.

E esse sentimento de repetição da fórmula já se mantém faz algum tempo, culminando em obras derivadas da franquia principal que são absolutamente péssimas (e desnecessárias), como A Freira e A Maldição da Chorona, perdidas dentro de alguns respiros de criatividade, como aconteceu – surpreendentemente – com Annabelle 3: De Volta Para Casa, que proporciona uma divertida aventura pelo museu dos horrores do casal Warren.

Curiosamente, o baixo investimento dessas obras é desproporcional ao tamanho da expectativa criada em torno da franquia e como esses filmes se tornaram os novos clássicos do terror, confrontando filmes gigantes de super-heróis e blockbusters milionários. Porém, a grande mente pensante por trás do respiro de genialidade, o criador James Wan (Aquaman, Jogos Mortais), acabou se afastando da linha principal da franquia e esse peso se reflete no terceiro e mais realista capítulo até então.

Talvez, por conta disso, o aguardado Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio (The Conjuring: The Devil Made Me Do It) tenha esse gosto amargo da decepção, de desperdício de potencial e de um roteiro frágil, fruto de puro repeteco de outro diretor que tenta recriar a estética de Wan, mas que, no fim, entrega um capítulo totalmente arruinado, algo que poderia se esperar dos filmes derivados, mas não da sequência de dois filmes que são verdadeiras obras primas do horror pop moderno.

A trama e o elenco

Sob nova direção, a franquia promete caminhar para seu eventual desfecho, ao mesmo tempo que vende o capítulo três como um filme mais “sombrio”, “realista” e que irá explorar os aspectos mais “humanos” do sobrenatural. Algo que, de fato, se concretiza, já que é sim uma aventura mais obscura, especialmente por explorar seitas satânicas e crimes reais, porém, o roteiro tenta enganar o público ao colocar os tão marcantes momentos que fizeram a franquia ser adorada pelos fãs – como o romance doce entre os protagonistas e aquela boa e velha sensação de perigo crescente que pode pôr um fim na vida de um deles a qualquer momento, mesmo a gente sabendo que isso não vai acontecer.

Com isso, a trama explora o emblemático e mórbido caso real de Arne Cheyenne Johnson, o primeiro réu a se defender de uma acusação de homicídio sob a justificativa de ter sido possuído pelo demônio. Ocorrido em 1981, todo o julgamento teve bastante atenção midiática, e a família de Johnson inclusive buscou ajuda com o casal Ed e Lorraine Warren para que pudessem ajudar a provar a existência das forças do mal e, através disso, a inocência do jovem.

Dessa premissa, bastante promissora até, espera-se um filme tribunal intenso, no estilo O Exorcismo de Emily Rose, porém, o resultado é uma obra arrastada, sem muita inspiração e, de longe, a menos assustadora desse universo até então.

As cenas de terror, antes desenvolvidas de forma sofisticada, através dos ambientes escuros e da criação de expectativa do público no eventual susto, agora, são apressadas, carregadas de efeitos especiais ruins e claramente extraídas da fórmula que um dia havido dado certo. Os momentos de ação são escuros demais – problema de uma fotografia bastante precária – e passam longe de ser memoráveis, ou pelo menos emocionantes, como são as cenas aterradoras dos dois filmes anteriores.

A sensação é que o roteiro pega o modelo pré-estabelecido, coloca mais realismo, extrai a diversão genuína e aposta todas as fichas no carisma do casal protagonista.

Patrick Wilson e Vera Farmiga são perfeitos juntos e o trabalho em Invocação do Mal 3 segue decente, já que o romance é aprofundado e o passado do casal é novamente explorado com o intuito de comover o público, já que, mais uma vez, Ed está em perigo e Lorraine precisa usar seus dons para deter o mal e salvar seu marido das garras do capiroto.

Após alguns bons momentos de horror, como a cena inicial de exorcismo, e outros sustos eventuais, a narrativa se prolonga no mistério, mas entrega muito rápido sua grande vilã e a motivação por trás dos feitos satânicos, algo que distância do prometido drama tribunal, do jovem que foi vendido como a alma da obra e do horror atmosférico, tão minuciosamente trabalhado por Wan no passado.

Dessa vez, nada é sutil, o suspense não fisga e, no fim, resta apenas uma conclusão previsível, jogada de qualquer jeito e que introduz uma possível e desinteressante nova personagem para assombrar um filme solo futuro. Apesar disso, a direção de arte e figurino conseguem recriar o começo dos anos 80 com vigor e o clima dessa época, que proporciona nostalgia, segue presente do começo ao fim.

A direção

Ao passar longe do horror atmosférico da franquia, o diretor Michael Chaves (do péssimo A Maldição da Chorona) se perde na tentativa de replicar o estilo de Wan e acaba por entregar uma condução desequilibrada entre sua própria visão e a busca por deixar esse capítulo mais “parecido” com os anteriores.

A narrativa é lenta, mal apresentada e não mantém conexão emocional com o espectador. Os personagens secundários são rasos e pouco nos importamos com suas vidas em perigo, especialmente o jovem Ruairi O’Connor, que vive o assassino possuído.

Tudo é genérico, desde o trabalho frenético da câmera nas cenas mais intensas, até as luzes e os rugidos típicos. Felizmente, como legado da saga, os sustos não testam a inteligência do público, como vemos em diversos outros filmes, mas também não atingem seu potencial máximo de nos fazer dormir de luz acesa. Entre um jump scare e outro, o clima de medo se dissipa antes que possa provocar qualquer arrepio.

Conclusão

Com isso, sendo o elo mais fraco até então, Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio consegue ser também o capítulo mais sombrio e “realista”, no entanto, o sacrifício é um preço alto a se pagar e o longa perde seu charme pelo caminho, junto com a criatividade e o horror genuíno que fez essa franquia ser tão apaixonante e superior.

Felizmente, mantém o carisma dos protagonistas em evidência e, apenas por isso, habita a zona de ser uma obra mediana, quando poderia ter sido o grande diamante, um gás ao universo de monstros que já apresenta desgaste. Esse meio termo, essa linha média, é que mais dói ao comprovar que as alternativas estão se esgotando para uma franquia que antes sabia muito bem trabalhar os clichês do gênero e que, agora, os replica por não saber mais o que fazer para arrancar medo da plateia. E o que vem a seguir pode – e deve – ser o prego que falta para selar o caixão e manter a terrível maldição da perda de criatividade invocável por algum tempo.

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