Se tem algo que o novo thriller de vingança da Netflix, Eu Sou Todas as Meninas (I Am All Girls), faz bem é manter o público atraído e apreensivo na poltrona, enquanto uma história quase inacreditável – baseada em fatos – se desenrola com uma direção precisa em mostrar toda a intensidade dessa premissa violenta. Desde os minutos iniciais, o espectador é adornado com um roteiro corajoso em abordar assuntos complexos e densos, com uma trilha sonora pessimista, que murmura sob as cenas, desde as mais gráficas e sanguinolentas, até os diálogos simplistas. Há, definitivamente, um valor inesperado aqui, que surpreende pela audácia.

A trama e o elenco

Situado em 1994, em Joanesburgo, na África do Sul, a trama acompanha Jodie (vivida por Erica Wessels), uma investigadora de crimes especiais que, depois de uma sequência de mortes, suspeita que um temido assassino em série está dando dicas para ajudar as autoridades a derrubar uma quadrilha global de tráfico sexual infantil. Dessa premissa, o suspense se constrói em torno desse mistério central, no entanto, o roteiro perspicaz consegue contornar a típica história de investigação para fazer uma reflexão bem-vinda sobre o quão corrupto é o sistema – e até mesmo as autoridades – que está tentando capturar predadores sexuais.

Ao longo da jornada de angústia da protagonista por um mundo majoritariamente masculino, que a oprime diante das suas convicções, torcemos por Jodie enquanto ela desenterra uma tonelada de crimes horríveis, hediondos e cobertos de ganância. No entanto, é uma pena que a trama perca seu foco e deixe claro quem é o serial killer muito cedo, assim como sua motivação. Esse fato atrapalha o desenvolvimento do mistério (ponto alto do filme) e acaba por cair na boa e velha caçada de “gato e rato” que já estamos exaustos de assistir e já sabemos onde vai dar. Ainda assim, o elenco é ótimo em sua totalidade e consegue muito bem manter o nível de emoção sempre no topo, especialmente Masasa Mbangeni e seu olhar penetrante, que passa veracidade. Uma pessoa para ficar atento nos próximos anos.

A direção

Com bastante maestria, o diretor Donovan Marsh (que não se saiu assim tão bem no longa de ação Fúria em Alto Mar), propositalmente torna toda a narrativa de Eu Sou todas as Meninas mais obscura possível, com o intuito da mensagem central fixar no fundo da mente do público e ganhar vida à partir disso. Sua condução é corrida quando necessário, mas também desacelera para mergulhar em momentos cujo drama pessoal necessita se sobrepor a ação. O equilíbrio está bom. Vale também destacar o trabalho satisfatório da edição e montagem, que conectam todas essas qualidades e tornam esse projeto bastante simples e eficiente no que se propõe.

Conclusão

Através disso, Eu Sou Todas as Meninas surpreende com um roteiro corajoso e perspicaz, que soma atuações excelentes à uma direção satisfatória, que sabe o teor de importância do assunto proposto e que promove uma necessária reflexão sobre o sistema que acoberta crimes sexuais e tráfico humano. Infelizmente, o mistério e o drama dão lugar à um suspense genérico, mas não o suficiente para abafar o som terrível de impunidade que ecoa em nossas consciências.

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