Representar uma família contemporânea sem cair nos tão temidos estereótipos e clichês é definitivamente um dos grandes méritos dessa que, de longe, se torna uma das melhores animações da década com bastante facilidade. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (The Mitchells vs. the Machines) não apenas demostra coragem em abordar assuntos sensíveis com naturalidade e responsabilidade, como também proporciona uma aventura espetacular, que diverte crianças e adultos na mesma proporção. Mas o que faz a nova obra do mesmo estúdio de Homem-Aranha no Aranhaverso ser tão singular, já que o tema – família – é algo bastante comum nesse gênero? Vamos lá, tem traço marcante? Demais! Tem uma narrativa instigante? Sim! Tem personagens carismáticos? Muitos! Proporciona uma reflexão poderosa? Com certeza! E não é um filme da Pixar? Para surpresa de muitos, não.

A trama e o elenco

De fato, essa nova leva de animações da Sony Pictures Animation está sendo um deleite aos olhos e um abraço caloroso aos fãs de obras que sabem mesclar a diversão infantil com reflexões deliciosas aos adultos. Além de, claro, proporcionar traços singulares, supercoloridos e diferentes de tudo que estamos acostumados a ver em animações 3D convencionais. Após abrir portas com o Aranhaverso – e vencer o Oscar em 2019 – o estúdio consegue encabeçar novamente um projeto praticamente perfeito em todos os aspectos: a luta da tradicional, porém moderna família Mitchell contra a tecnologia que está afastando as pessoas umas das outras e modificando o mundo como conhecemos. Na premissa, simples e eficaz, acompanhamos os personagens em um road movie bem no meio de uma revolução digital. Essa viagem, além de servir para reconectar as relações humanas entre um pai e sua filha, ainda funciona como uma saborosa jornada de descoberta para o grupo que, após a aventura que visa salvar o mundo, nunca mais será o mesmo.

Dessa premissa, o roteiro elabora divertidas cenas de ação (incluindo uma fuga desesperada de um Furby assassino gigante) e diálogos bastante emotivos, que atingem em cheio nosso coração, especialmente pelo fato de que a protagonista, a jovem Katie (dublada por Abbi Jacobson), está em fase de descoberta da vida e percebe que não se encaixa em sua família tradicional. Mas sem se apegar ao clichê da adolescente rebelde e aborrecida, a trama subverte essa narrativa óbvia para desenvolver uma personagem doce, gentil e que, de fato, necessita trilhar seu caminho longe do ninho seguro que cresceu e ir cursar cinema na faculdade, sua grande paixão.

Por consequência, também precisa descobrir sua orientação sexual e refletir como a relação com seu amoroso pai (dublado por Danny McBride) se tornou tão fria ao longo dos anos. Sem forçação de barra, o enredo mescla a química excelente que vemos em filmes como Os Incríveis, com premissas de obras mais densas, como a de Eu, Robô, e mergulha no melhor desses dois mundos, encontrando espaço para trabalhar personagens com camadas que vão além da superfície. Aliás, a atriz Olivia Colman (Meu Pai, The Crown) como a voz de uma Inteligência Artificial demoníaca foi uma jogada de mestre.

A direção

A condução enérgica de Mike Rianda (Gravity Falls), somada ao trabalho dos produtores Phil Lord e Christopher Miller (Homem-Aranha no Aranhaverso) definitivamente é uma carta de amor ao cinema e a arte de fazer filmes animados. O trio observa cada minuciosidade das relações humanas e da nossa relação desenfreada com a tecnologia e pega essa perspectiva para pincelar todas as decisões dramáticas do longa. Cada diálogo é inteligentíssimo e coerente.

Mesmo que haja elementos fantasiosos para ilustrar a aventura – afinal, trata-se de um filme sobre robôs que desejam dominar o planeta -, o sentimento extraído de cada momento de dinâmica familiar do grupo e de suas personalidades conflitantes é genuíno e deliciosamente envolvente. Fora as cores vivas, o design de produção consegue ser bastante original ao inserir a técnica de rotoscopia em 2D dentro de uma animação 3D, fato esse que torna aquele universo ainda mais real e palpável. Definitivamente, o gráfico é ultrarrealista combina com a linguagem despretensiosa da internet que a direção escolhe aderir, utilizando memes e filtros atuais para ilustrar o humor.

Conclusão

Com isso, A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas eleva os filmes de família a um novo patamar e consegue ser colírio para os olhos entusiasmados. Uma carta aberta de amor ao cinema e que proporciona uma trama singular, enérgica e deslumbrantemente divertida e colorida para todas as idades. O roteiro afiado, a linguagem Tik Tok e o humor excepcional fazem desse road movie tecnológico não apenas um dos melhores filmes do ano até o momento, como também se torna – facilmente – uma das animações mais criativas da década. Aquela obra doce para aquecer o coração, nos fazer refletir sobre o consumo exagerado do mundo digital, com suas relações rasas, e lembrar com carinho de quem está off-line percorrendo a caminhada da vida ao nosso lado.

Nota: 10/10

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