O humor nacional possuí suas peculiaridades e, em muitos casos, acaba repetindo a fórmula de sucesso, tanto por conta do uso do mesmo elenco tradicional, quanto pelo fato de que boa parte das tramas de comédias escrachadas lembram stand-up ou sitcoms que fazem sucesso na TV. A diversão, apesar de sempre presente, não é garantia de sucesso e isso se torna evidente em obras como Os Salafrários, novo longa original da Netflix que traz em seu elenco a dupla Marcus Majella e Samantha Schmütz no papel de dois golpistas de sucesso. Apesar do magnetismo de ambos e da naturalidade do humor, a ausência de um roteiro com mais substância pesa e as piadas não se provam fortes o suficiente para sustentar tanta presepada implausível.

A trama e o elenco

Sem grandes introduções ou justificativas, a premissa explora dois irmãos que acabam no mundo dos golpes por conta da vida injusta que levam em um país que, não importa o quanto você se esforce, sempre está disposto a tirar tudo que um dia foi conquistado. Clóvis é artista especializado em falsificar famosos quadros de arte e revendê-los a preço de banana para poderosos homens da política. Com bastante bom humor, o roteiro alfineta a desigualdade do Brasil e a corrupção, mas se perde ao desenvolver precariamente uma narrativa instigante, já que Os Salafrários parece uma sucessão de cenas cômicas de um stand-up feito para a televisão, sem que a aventura da dupla tenha alguma conexão emocional ou faça sentido dentro da proposta. Porém, é realmente difícil ter Majella e Schmütz em cena sem que haja boas gargalhadas. A naturalidade deles perante as situações apresentadas e química em cena definitivamente conquista e, de certa forma, envolve o espectador, mesmo com buracos terríveis na história, já que são dois dos nossos maiores comediantes brasileiros.

No entanto, apesar de boas piadas sobre como dinheiro pode mudar a vida de uma pessoa pobre, após meia hora de trama o ritmo perde força e começa a se repetir. E não apenas isso, já essa premissa de “suburbano que cresce na vida e deixa o lado mais humilde do Rio de Janeiro para trás”, já está mais do que batida, não é mesmo? A sensação é de estamos assistindo um episódio qualquer de Vai que Cola ou qualquer outro filme protagonizado por Schmütz, cuja trama ganha força através do humor do cotidiano da classe trabalhadora de um Rio tropical e conflitante. Não que essa ambientação não seja divertida e se conecte diretamente com o público-alvo, mas a falta de empenho dos realizadores em fazer um pouquinho que seja a mais, é desesperadora. No fim das contas, a jornada de Clóvis e Lohane é tão genérica e previsível, que restam poucas surpresas.

A direção

Apesar dos esforços do diretor Pedro Antônio (Tô Ryca!) na condução da comédia e na visível liberdade que dá ao elenco para improvisar quando for necessário, o ritmo se apressa do meio para o final e a trama de Os Salafrários pula etapas importantes – que serviriam para trabalhar melhor o desenvolvimento emocional da dupla – para entregar um desfecho com reviravoltas fracas. Mas, ao menos na construção da narrativa e no equilíbrio que exerce entre os dois pilares da história, o cineasta faz um ótimo trabalho. Falta, talvez, uma trilha sonora mais pontual para preencher os hilários momentos de ação e um trabalho mais minucioso na fotografia e na montagem, detalhes esses que teriam feito total diferença no resultado. O produto está cru demais para ser um longa-metragem feito para os cinemas e, posteriormente, vendido para a Netflix.

Conclusão

Através disso, Os Salafrários até proporciona uma comédia divertida e escapista na Netflix devido à ótima dupla de comediantes protagonistas, mas se prova vazia demais em conteúdo para sustentar um longa-metragem, sendo muito mais eficiente caso fosse um episódio de alguma série sitcom na TV. O humor exagerado e as situações implausíveis provocam riso instantâneo, mas a alegria é momentânea, já que a aventura dá voltas e mais voltas em torno de uma trama bastante rasa, precária e ineficiente. Não chega a ser um total desperdício de tempo por conta da crítica social presente, mas um pouco mais de criatividade e empenho da produção em subverter certos clichês, certamente teria feito dessa uma das comédias mais animadas do ano até agora.

Nota: 6/10

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