Na busca por se reinventar, alguns gêneros do cinema acabam trilhando caminhos inesperados e bem-vindos, exatamente por saber a necessidade de atualizar suas estruturas e aproximar o público de algo que tenha maior relação com o mundo em que vivemos nesse instante. Por esse lado, Alma de Cowboy (Concrete Cowboy), novo Original da Netflix, moderniza com maestria os clássicos filmes de faroeste e ainda agrega um debate racial bastante pertinente ao questionar o whitewashing de Hollywood em cima de tramas que nunca abrangeram a comunidade afro-americana. Porém, seu desenvolvimento lento deve afastar grande parte do público atraído pelo título e que espera um longa de ação mais intenso.

A trama e o elenco

O enredo de Alma de Cowboy tem como base o romance Ghetto Cowboy, do autor Greg Neri, e narra uma espécie de jornada do herói de um jovem negro que, após se envolver em diversos problemas com a polícia, passa a morar com seu pai e aprende as lições da vida em um mundo completamente oposto ao que estava acostumado a ter. Dessa premissa bastante interessante, o roteiro proporciona boas reflexões sobre a miscigenação dos EUA e sobre o “branqueamento” da história americana, que exclui a comunidade negra de narrativas que uma vez fizeram parte. Essa união criativa de mundos tão distintos acaba que proporciona uma trama original, mas que, ao mesmo tempo, segue à risca modelos existentes para não fugir muito do comum. A previsibilidade infelizmente impede que o roteiro alcance voo com maior intensidade e, no fim das contas, desemboca no desfecho esperado e sem ápices dramáticos marcantes.

Com todo o seu carisma, Idris Elba (Velozes e Furiosos: Hobbs e Shaw) entrega um caubói durão e ao mesmo tempo sensível, que funciona ao lado do talentoso Caleb McLaughlin (Stranger Things). A dupla tem boa química e a relação conturbada entre pai e filho, ainda que comova o espectador, poderia ter sido melhor trabalhada. A energia está ali, só falta profundidade. Por outro lado, Jharrel Jerome (Moonlight) rouba a cena e prova, mais uma vez, que é um dos melhores atores de sua geração. O elenco, como um todo, funciona bem e passa veracidade, ainda que boa parte dos personagens não tenham tantas camadas para serem exploradas. Talvez esse excesso de coadjuvantes seja o grande responsável pela dilatação da trama e por sua narrativa arrastada e cansativa. Certamente, se mantivesse o núcleo principal em foco, a trajetória teria sido mais prazerosa e emotiva.

A direção

Apesar da rasa experiência, o diretor Ricky Staub se sai bem no drama, mas peca bastante na ação e na forma como conduz o emocional do público. Poucas cenas são realmente comoventes e as que são, acabam pesando para o lado ensaiado. Não há nenhuma sofisticação estética que chame atenção e a direção de fotografia erra a mão e deixa grande parte dos cenários mal iluminados e pouco cativantes, com exceção das cenas externas, em que o sol paira sobre as ruas da Filadélfia de maneira elegante. Com um roteiro previsível como este, é realmente complicado surpreender, mas notasse que o diretor dá o melhor de si e dosa os clichês de filmes sobre rebeldia adolescente com mais maturidade e sensibilidade, detalhes esses que deixam a obra em um patamar menos estereotipado como de costume. O cineasta gasta muito tempo e esforço criando um senso de lugar, comunidade e caráter que, no fim das contas, conquista.

Conclusão

Através disso, Alma de Cowboy é um interessante faroeste moderno que alfineta o whitewashing hollywoodiano, ao mesmo tempo que entrega uma trama de amadurecimento previsível, porém, comovente. Um filme acima da média, tanto em atuações quanto em seu conteúdo relevante, mas que deve afastar quem foi atraído pelo título e esperava um longa de ação convencional. Está longe de ser perfeito, mas seu tema atemporal merece ser assistido.

Nota: 7/10

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