É corajoso subverter um argumento polêmico – como o consumo de álcool – que apenas é trabalhado na arte por seu lado mais negativo, no objeto de estudo que dá liga e alimenta a trama de Druk: Mais uma Rodada (Another Round), filme que chegou de surpresa e que marca presença forte no Oscar 2021. Com extrema sabedoria e consciência de seus atos, o roteiro da dramédia dinamarquesa se transforma em uma descrição extraordinária do que o álcool pode e não pode fazer. Como isso pode ajudá-lo e como pode falhar com você. A liberdade que estar alterado fornece à mente e ao corpo humano e como a crise da meia idade e o conformismo são pautas fortes o suficiente para manter uma história no topo, sem que o espectador perca o interesse. Esses são apenas alguns dos assuntos que o longa-metragem aborda com bastante senso de humor e um elenco espetacular.

A trama e o elenco

Com seu roteiro original realmente trabalhado nos detalhes minuciosos, a premissa de Druk: Mais uma Rodada coloca um grupo de professores em foco, com suas vidas normais, mergulhadas no conformismo das relações pessoais e da profissão. Por conta de tanto desânimo com o rumo que escolheram viver, decidem ajudar um dos amigos em crise existencial e começam a testar a ousada teoria de que serão bem mais felizes e bem-sucedidos vivendo com um pouco de álcool no sangue.

Na medida certa, eles começam a experimentar dar aula e tomar decisões importantes alcoolizados e percebem que a temida maldição pode também ser uma benção, já que a trama destaca a sensação de liberdade e autocontrole que a bebida alcoólica proporciona, porém, qual é o limite de sua personalidade e até onde é o álcool falando por você? Obviamente, com esse enredo ousado e mudança de ponto de vista de algo tão discutível, o humor ácido assume a direção e o drama abre espaço para reflexões mais tolerantes e menos problemáticas.

Como pilares de sustentação da narrativa, Thomas Bo Larsen (Festa de Família), Lars Ranthe (A Caça), Magnus Millang (A Comunidade) estão espetaculares em seus papeis, no entanto, é Mads Mikkelsen (Hannibal) que rouba a cena (mais uma vez!) e entrega uma das melhores e mais humanas performances de sua carreira. A amizade e a bebedeira dos amigos não apenas divertem, através de piadas ótimas e bastante humor físico do elenco, como também provoca um calor no coração ao nos instigar a lembrar da juventude e de como a vida parecia ser simples, como sair para beber era ser a solução para todos os nossos problemas.

O desenvolvimento da história cativa e fisga o espectador, especialmente pela curiosidade em saber qual serão os rumos daqueles personagens e como o álcool traz à tona o melhor e o pior lado de suas personalidades conflitantes. É interessante que poucos filmes abordam, com esse nível de sensibilidade e honestidade, o lado masculino de viver uma vida de fachada e a percepção de sentir que é agora ou nunca o momento de despertar e viver sua autenticidade e seus desejos reprimidos. Transformar a insatisfação em motivação. E, às vezes, é preciso estar fora de si para escapar dessa angústia.

A direção

Depois do ótimo A Caça, é visível que o diretor Thomas Vinterberg gosta de subverter assuntos controversos e colocá-los sobre uma nova perspectiva, algo que faz muito bem por sinal. Seu olhar sensível e condução instigante transformam narrativas densas em contemplações destemidas. Neste caso, diferente do sucesso já citado, é o humor que serve de entrada para que o prato principal não cause tanto frenesi no espectador que pode vir a acreditar que essa premissa defende – e incentiva – o alcoolismo. Na realidade, trata-se de um drama corajoso sobre que tipo de impacto que nossa vida está causando no mundo ao nosso redor. Seja na comédia ou nos momentos mais profundos, o cineasta conduz com maestria as tonalidades e equilibra os núcleos sem desconectar da ideia central, que culmina em uma cena de dança espetacular. O desfecho ideal para uma trajetória tão peculiar. Realmente um trabalho admirável, mesmo que venha a ser previsível aqui e ali.

Conclusão

Através disso, Druk: Mais uma Rodada, além de ser uma comédia adulta singular e excepcional, é um brinde audacioso à temida crise da meia-idade, cujo roteiro se destaca plenamente pela coragem de como lida com assuntos controversos em seu olhar entusiasmado sobre o consumo de álcool. Em um mundo de distanciamento social, esta obra nos lembra que a verdadeira felicidade só pode ser encontrada em relacionamentos humanos significativos. Certamente, um clássico instantâneo do gênero, que intensifica como a vida adulta nos obriga a beber.

Nota: 9/10

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