O cinema, muito além de entretenimento, serve também como uma poderosa ferramenta de observação para que assuntos imprescindíveis, como racismo, homofobia e xenofobia possam ser abordados de forma direta, crua e didática. Afinal, nada melhor do que gerar conflito na cabeça de alguém sobre seus comportamentos do que fazer isso através da manipulação de sentimentos. E é isso que Minari – Em Busca da Felicidade, drama norte-americano forte candidato ao Oscar 2021 e ganhador do Globo de Ouro de Filme Estrangeiro, faz tão bem dentro de sua autenticidade narrativa.

Na realidade, o drama falado 90% em coreano instiga o espectador a se colocar na pele e na mente de imigrantes esperançosos dentro um enorme e complexo país hostil, disfarçado de acolhedor e que vende sonhos engarrafados, na tentativa de mostrar que o popular estilo de vida americano é o único modelo civilizado possível. Através de alfinetadas poderosas a esse sistema opressor, um humor incisivo e bastante sensibilidade no texto, o roteiro proporciona um dos filmes mais penetrantes dos últimos anos, com a simplicidade de uma história que, por si só, já parte nosso coração de imediato.

A trama e o elenco

Com isso, ambientado nos anos 1980, no abafado e conservador sul dos Estados Unidos, a trama acompanha uma família de imigrantes coreanos que busca na América uma vida mais digna, no entanto, precisam lidar não apenas com o preconceito diário por parte da comunidade sulista local, como também com seus próprios conflitos internos, especialmente após a chegada da avó, que traz consigo todas as tradições coreanas de volta ao ambiente familiar. Com o casal se despedaçando lentamente e um complexo e interessante conflito entre gerações, o roteiro explora todas as nuances daquele convívio íntimo em relação a busca pela felicidade, disponível no tal “sonho americano” que tanto almejam. Porém, muito além de abordar apenas essa mudança de vida e as falsas promessas do ocidente desenvolvido, há camadas muito mais profundas sendo trabalhadas e que tornam o longa uma jornada emocional cativante, um excelente exemplo de roteiro bem escrito, que conhece plenamente as personalidades de seus personagens e o amor que nasce da química entre eles.

A já citada avó recém-chegada, por exemplo, parece trazer consigo o conflito que vai dividir a família em duas metades: tradição vs. modernidade, mas o roteiro de Minari subverte o ar vilanesco inicial para mostrar a imensidão de amor que habita seu coração, ainda que sim, tenha sido criada em uma nação totalmente oposta ao mundo despretensioso que ela se depara nos EUA. A personagem, juntamente com o filho mais novo, forma esse pilar poderosíssimo de compaixão, amor e importância de existir um núcleo familiar sólido, que permeia toda a história e que conquista o espectador com a facilidade, mesmo quando outras subtramas são postas no holofote, como as questões religiosas da família.

O jovem Alan S. Kim, que dá vida ao doce e divertido David, tem uma performance absolutamente comovente e imersiva e não apenas por ser uma “criança fofa”, ele consegue ir do riso às lagrimas com facilidade. Já Youn Yuh-jung, a avó caretona, entrega tanta veracidade com sua composição sensível de uma personagem realmente profunda, que conquista o posto das melhores atuações do ano. Steven Yeun (The Walking Dead) e Han Ye-ri não estão muito atrás. Sem dúvida, a força deste elenco é a grande preciosidade do longa e contribui e muito para essa imensidão de sentimentos que passa por nossos corpo.

A direção

A relação pessoal do roteirista e diretor Lee Isaac Chung (Lucky Life) com a trama de Minari, já que têm base em sua própria história de vida, agrega um olhar ainda mais íntimo e honesto ao enredo. Com planos longos e diálogos acentuados, o diretor trabalha com maestria a imersão do público, especialmente através da trilha sonora sublime e constantemente presente e a fotografia lavada, quase em tom de lembrança. Chung opta por contar sua história de maneira leve e lenta, cuja intensidade ganha forma em seu próprio tempo e, mesmo com ritmo dilatado, o roteiro tem um clímax espetacular e um desfecho adequado, que deve permanecer na cabeça do espectador por bastante tempo.

Fora isso, a excelente analogia que faz com a planta minari, um tipo de verdura coreana que habita a mesa de todas as famílias, desde as mais ricas até as mais humildes, se encaixa perfeitamente nessa trama sobre o valor de nossa essência, nossas raízes e como a simplicidade acaba sendo invisível aos olhos de quem só enxerga a grandeza. Como um círculo primoroso, a premissa se fecha no objeto que melhor reflete essa mensagem harmoniosa e dolorida sobre a relevância da família.

Conclusão

Sendo um dos melhores e mais doces dramas familiares dos últimos anos, por conta de sua potência emocional e sensibilidade narrativa, Minari – Em Busca da Felicidade entrega um conto pessoal, comovente e sincero sobre a ruína do sonho americano. Sua mensagem encorajadora e envolvente reverbera em todas as paredes do nosso coração. Apesar de ganhar forma em seu próprio ritmo lento, a direção possui a energia sublime de trabalhar todas as camadas de seus personagens, subverter expectativas e colocar risos singelos no meio de lágrimas genuínas. Uma daquelas poucas histórias que vai ficar com você para sempre.

Nota: 9/10

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