Eu me Importo, novo longa-metragem estrelado por Rosamund Pike e distribuído pela Netflix se vale de clichês para enaltecer uma personagem empoderada e gananciosa. Na primeira sequência do filme, Marla Grayson declara a falência da meritocracia, e por isso, toda ascensão ao topo depende de estratégias alternativas. A partir daí, a história passa a detalhar seu cotidiano como guardiã de incapazes ao lado da companheira e suas estratégias para aplicar golpes em idosos. Entretanto, o que parecia ser a garantia do sucesso é abalado quando Jennifer Petterson, um alvo em potencial, se revela muito à frente do esquema desonesto. Apesar da representatividade feminina e a montagem dinâmica, o diretor J. Blakeson faz escolhas desgastadas e previsíveis, as quais ao invés de conferir destaque à produção como um todo, limitam a história ao desempenho da protagonista. 

Eu Me Importo tem uma edição ágil, algumas frases de efeito e uma fotografia saturada ao longo de toda a exibição, mas nenhum desses elementos representa um diferencial dentro do subgênero “trapaça”. Histórias sobre indivíduos corruptos dispostos a tudo por dinheiro foram eternizadas em produções como Prenda-me se for Capaz, de Steven Spielberg, a franquia Onze Homens e um Segredo e mais recentemente, Golpe Duplo. Esse último, lançado em 2015, exemplifica como o tema, apesar de batido, ainda pode ser reinventado por meio da linguagem cinematográfica. Enquanto na produção dirigida por Glenn Ficarra e John Requa, a manipulação do tempo e a trilha sonora enriquecem o desenrolar da narrativa, no longa de Blakeson, esses recursos carecem de impacto e originalidade.

O esforço do cineasta gira em torno de Marla Graysom e sua personalidade calculista. Esse aspecto está em todo lugar, desde a atuação compenetrada de Pike até a construção minimalista do figurino e a montagem tão rápida quanto uma percepção ardilosa. Somado a isso, a premissa deixa claro que o sucesso da trapaça não só depende de clientes inaptos, mas também da capacidade de Graysom de se impor perante os homens. Diante disso, o elenco masculino, inclusive o antagonista interpretado por Peter Dinklage, é caricato e até ridicularizado. Por outro lado, as coadjuvantes femininas, embora tenham pouco desenvolvimento, reforçam o ideal feminista do roteiro. Dianne Wiest encarna uma senhora bem sucedida e resistente, conforme Eiza González transforma sensualidade em frescor ao viver o par romântico da vez. 

No caminho traçado entre esforço e redenção, o ritmo oscila e com isso, a resolução de alguns acontecimentos parece arrastada. Apesar de controversa, Marla é a única responsável pelo interesse do público na trama. O carisma balanceado com empatia e repulsa fazem dela uma figura magnética, mas fora isso, a produção se reduz a uma comédia, cuja direção repetitiva e presunçosa falha em proporcionar experiências além do humor obscuro. Entretanto, mesmo limitado ao entretenimento superficial, Eu me Importo acerta ao destacar uma personagem autônoma e embora ela também seja ambígua, sua presença é válida apenas por desafiar um universo dominado por homens os quais nunca seriam nada sem uma mulher. 

Nota: 5/10

Texto de Nathalie Moreira

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