O sabor amargo de um desfecho ruim consegue colocar a perder toda e qualquer boa construção de suspense que um filme possa desenvolver. Em Ponto Vermelho (Red Dot), novo original sueco da Netflix, é exatamente isso que acontece com seu roteiro que, apesar de seguir a fórmula básica do gênero, pega sua simplicidade e até constrói tensão através da promessa de que haverá uma reviravolta satisfatória, porém, o pote de ouro no fim do arco-íris era, na verdade, de feijão cozido e o desfecho anticlimático faz toda a jornada parecer uma ridícula perda de tempo.

A trama e o elenco

A premissa batida, semelhante a tantos outros filmes de sobrevivência, como o ótimo Eden Lake, acredita estar inventando a roda ao colocar um casal (sem habilidade alguma de sobrevivência) em uma situação de perigoso ao ser caçado por pessoas misteriosas durante uma viagem romântica para o interior. Nesse contexto, a trama gasta tempo demais no desenvolvimento precário dos protagonistas e utiliza o restante que sobra para criar a atmosfera de mistério sobre o real objetivo dos caçadores e como o casal esconde um segredo sombrio que pode mudar toda aquela dinâmica. No início, o jogo até parece ser divertido e instigante, mas o trem sai dos trilhos rapidamente quando o roteiro utiliza questões raciais importantes para manipular e despistar o espectador sobre o que está por vir. Esse golpe sujo é totalmente ignorante, puro desserviço, que expõe o desespero em surpreender e a falta de inteligência do roteirista.

E a sensação de “eu já vi isso antes” permanece até o fim, já que só falta o longa vir com um manual de instruções para guiar o espectador por aquela presepada toda. O elenco, por sua vez, não se esforça para entregar nada fora da caixinha e a ausência de carisma e química do casal pesa bastante, especialmente quando o drama assume o controle. Anastasios Soulis tem mais destaque e acaba, com isso, tendo uma performance melhorzinha que Nanna Blondell (Viúva Negra), que não consegue sair de sua zona de conforto, mesmo que o grande problema nem seja sua atuação em si, mas sim o material péssimo que lhe foi dado para criar uma personagem que, o tempo todo, é vítima de decisões alheias e que só existe para ser a comum personagem feminina frágil, que será usada como gatilho sentimental nas mãos dos homens da trama. Seu desenvolvimento é totalmente atrelado a jornada desses homens e sua existência só a coloca em situações de perigo para que o marido possa “aprende uma lição” no fim das contas. Ou seja, falta objetivo, já que mensagem de “fazer justiça com as próprias mãos” é o que dá tesão nos realizadores.

A direção

O suspense crescente, que começa bom e gradativamente se desfaz pela falta de maestria do diretor sueco Alain Darborg, se perde dentro de premissa rasa e superficial de Ponto Vermelho, que não explora as possibilidades e não surpreende em momento algum. Faltam-se nuances na narrativa, mesmo que o ritmo seja interessante. A história não perde tempo e entrega rapidamente seu plot central, algo que acaba sendo bom para o gênero e que mantém o espectador imerso, porém, em apenas meia hora de projeção, o roteiro começa a se prolongar e é perceptível que a trama não tem mais nada de divertido para oferecer. A partir desse ponto, o suspense já é calculável, o desenvolvimento dos personagens secundários é apressado e vazio e a direção encerra sua narrativa no momento mais intenso possível. Não há um final cabível e a reviravolta principal, tão aguardada, é vergonhosa e absurda, fora que joga no lixo a essência e a credibilidade dos personagens. Péssimo.

Conclusão

Com isso, através de um desfecho vergonhoso e incoerente, Ponto Vermelho joga descarga abaixo toda e qualquer boa construção de suspense e, com seu roteiro sem inspiração, entrega uma história preguiçosa, previsível e incrivelmente estúpida. Mais um filme da Netflix sem objetivo claro e que teve todas as oportunidades desperdiçadas.

Nota: 2/10

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