É comum ter a impressão de que o cinema blockbuster, em especial o de super-heróis, é vazio em conteúdo e só serve mesmo para proporcionar uma viagem de montanha-russa ao espectador. A arte cult dos homens brancos de Hollywood nos faz pensar que são apenas obras planejadas para as premiações as grandes portadoras de qualidade e relevância, quando, na realidade, é exatamente esse produto da indústria, com toda sua acessibilidade as massas, que carrega, muitas das vezes, as lições mais imediatas e que irão repercutir. O cinema, da forma como conhecemos, está em sua maior crise existencial em 125 anos de vida e não está sendo salvo pelo ‘O Irlandês’, Tenet ou outras obras pretenciosas, mas sim, pela simplicidade e eficácia da personificação do heroísmo nas telas. Engana-se profundamente quem acredita que filmes de super-heróis são apenas diversão sem culpa, digo isso pois é importante saber que Mulher-Maravilha 1984, com todo seu simbolismo, existe para provar isso.

A trama

É importante também destacar, inicialmente, os mártires desse gênero e como a personagem da DC carrega o fardo pesadíssimo de ser a grande heroína em destaque dentro de histórias majoritariamente masculinas. Quanto mais alta a expectativa por levantar bandeiras e tocar em feridas expostas na sociedade machista, mais forte é a queda quando isso não sai da forma como deveria. Não é mesmo?

Ainda que a Marvel tenha acordado um pouco tarde para o conceito de diversidade e agora esteja investindo pesado em algumas mulheres como líderes e donas de suas próprias histórias, é a DC Comics que possui a liderança nesse assunto e isso não tem sido uma trajetória fácil, especialmente pela bagunça em sua linha do tempo. O estúdio, quando está sob a pressão de superar expectativas, tende a entregar bem menos do que o potencial de suas histórias incríveis. E sequências são, especialmente, as obras que mais expõe suas falhas na construção de narrativas coerentes.

Felizmente, por um lado, Mulher-Maravilha 1984 corrige deslizes do primeiro filme, arruma seu terceiro ato como mais forte e utiliza uma nova estética para agregar valor de produção, porém, todo esse esplendor serve apenas para disfarçar um roteiro pateticamente raso e que sofre com a síndrome de ser um “filme do meio” de uma franquia.

Depois de algumas participações meia boca em filmes de outros heróis e um filme solo bastante promissor, a heroína máxima do cinema retorna repaginada, revigorada e mostra suas fraquezas nesse novo enredo, uma sequência direta do filme de 2017, mas que se passa na icônica e colorida década de 1980.

Após uma introdução espetacular, sobre os valores da personagem em sua terra-natal, a trama segue para mostrar a vida “pacata” de Diana em resolver pequenos crimes pela cidade e sentir falta de seu amado Steve Trevor (mesmo após anos de sua morte!). Nesse ponto, é perceptível como a produção aproveita a estética e a atmosfera dos anos 80 para reconfigurar seu estilo e transformar a franquia em algo muito mais colorido, leve e divertido, na vibe aventura de Indiana Jones e até mesmo dos filmes clássicos do Superman dos anos 1970, antes de Tim Burton entrar para fazer Batman e a DC seguir um caminho obscuro e denso. Aliás, essa mudança em tom não é de hoje e filmes como Aquaman e Shazam!, inevitavelmente aproveitaram a fórmula pronta da Marvel Studios para ver se o DCEU finalmente toma um rumo mais condizente. Afinal, não seria possível permitir lançar um filme de super-herói sombrio em um ano tão pesado como 2020, e Patty Jenkins tem plena consciência disso.

Dito isso, essa mudança então é bem-vinda e, sem dúvida, dá à franquia um gás extra e abre inúmeras possibilidades. Sem a mão pesada de Zack Snyder, a heroína está muito mais livre para ser a clássica salvadora, a que não acredita em armas de fogo e que não fere seus oponentes, ou seja, o símbolo ideal para levar a DC por um caminho bastante promissor nos cinemas, ainda que a graça, para muitos, tenha sido exatamente fazer o que a Marvel não estava fazendo.

As sequências de ação no primeiro ato do filme são super divertidas e enérgicas, assim como a enxurrada de referências da década em que a história irá se desenrolar. Caso você ainda não tenha notado pelo título, o filme certamente não vai te deixar esquecer sua ambientação. É exagero para todos os lados, ainda que a direção de arte seja, inegavelmente, uma das grandes qualidades do longa.

Atmosfera apresentada, agora resta o roteiro se aprofundar na protagonista e introduzir seus dois vilões, o político Maxwell Lord (Pedro Pascal), uma clara referência à Trump, e a ingênua Barbara Minerva (Kristen Wiig), que virá a se transformar na raivosa Mulher-Leopardo mais pra frente, tudo com base na inveja que sente de Diana e sua vida “perfeita”.

Por um lado, Diana tem pouquíssima profundidade e sabemos bem superficialmente sobre sua vida atual e como voltou à ação, algo que não se altera ao longo do filme. Ela é a heroína da cidade e é isso, a trama não deseja explicar como isso funciona, como ela possui apoio e como esconde sua identidade secreta.

O elenco

Gal Gadot, obviamente, é um deleite para os nossos olhos e ela brilha com requinte, beleza e excelente atuação quando se trata de ação física, já que entrega bem pouco nas cenas mais profundas e emotivas. Por sorte, seu carisma e seu comprometimento com a personagem preenchem essas lacunas dramáticas que a atriz não consegue alcançar. E, além disso, tanto Pedro Pascal (The Mandalorian), quanto Kristen Wiig (Missão Madrinha de Casamento), estão ótimos. Pascal brilha e rouba a cena como o vilão principal e megalomaníaco, mas que, felizmente, possui profundidade e algumas camada além de querer apenas “dominar o mundo”, já Wiig merecia mais tempo de tela, especialmente após se transformar na Mulher-Leopardo (e seu CGI meia-boca). Seu humor é excelente e a personagem tem bastante a vibe atrapalhada e inocente da Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer.

Se por um lado o roteiro de Mulher-Maravilha 1984 trabalha bastante o desenvolvimento dos novos personagens, por outro, peca em trazer de volta Steve Trevor (Chris Pine), mesmo que a solução para isso tenha sido Ok. A presença do personagem enfraquece o protagonismo de Diana e serve apenas para mostrar que até mesmo os super-heróis precisam renunciar ao que amam em prol de fazer a “coisa certa”. A mensagem é boa para a criançada, sim, mas não havia necessidade de trazer o personagem de volta apenas para explorar, ainda mais, a dor da perda de Diana, que é reforçada como a dona de si, mas em partes, pois ela ainda se mantém atrelada ao sentimento de necessidade de ser feliz com um homem. Não há um momento nessa nova trama em que, ou não esteja pensando no seu amado falecido ou não esteja ao lado dele em cena.

Fora isso, o plot central é terrivelmente péssimo e previsível, sobre a tal pedra mágica ancestral que concede desejos sombrios à quem a possui e como a cobiça destrói a humanidade. Brega ao nível máximo. Um “MacGuffin” preguiçoso e repleto de coincidências tolas para o patamar que a história deseja alcançar. Então sai o “raio azul” do primeiro filme, entra um desfecho catatônico, carregado de ação, mas que se resolve muito apressadamente.

A direção se esforça

É visível que Patty Jenkins anotou o que fez de errado no passado, buscou remendar essas pontas soltas e agradar os fãs. Sua condução é boa, sendo uma das poucas coisas nessa sequência que realmente evoluíram para melhor, mas ainda não se sustenta por si só.

As cenas de ação em Mulher-Maravilha 1984 são mais imersivas e carregadas de tensão, especialmente pelo fato de Diana estar perdendo seus poderes para a pedra mágica, algo que deixa sua vulnerabilidade exposta e nos faz temer por sua vida (mesmo sabendo que ela jamais ficará em perigo de verdade). Além disso, todos os personagens masculinos apresentados são perigosos, interesseiros e Jenkins se diverte ao explorar essa liberdade criativa para mostrar a visão feminina de como é o mundo para as mulheres, que são expostas, a todo tempo, a malícia, a violência e ao assédio dos homens. Ainda assim, mesmo mirando no acerto, a diretora tem dificuldade de manter o público conectado com a trama por conta de uma narrativa que cresce lenta e gradativamente, mas leva tempo demais até que seu clímax explosivo chegue. Até lá, o romance com pouca química entre Diana e Trevor já tomou espaço demais e o CGI tosco ofuscou alguns momentos que eram para ser emocionantes, como o voo de Diana e a tão aguardada armadura dourada, por exemplo.

Conclusão

Através disso, enquanto o primeiro filme segue como um dos melhores da DC, mesmo tendo um vilão péssimo e um desfecho superficial, esse é o oposto. Mulher-Maravilha 1984 oferece boa diversão escapista e uma história leve para os padrões, mas puramente enfadonha e mal resolvida com seu roteiro patético, que corrige alguns erros do passado, mas não atinge a magnitude do primeiro filme. É muita propaganda para pouca entrega e nem mesmo as cenas de ação compensam. Muito se fala em como sua mensagem positiva, e carregada de esperança, está sendo perfeita para os dias de hoje, porém, o filme está bem mais para evidenciar o quão desastroso foi 2020 para o cinema, já que, nem mesmo a maior heroína de todos os tempos e todo seu potencial de ser o futuro da DC, saíram ilesos desse caos.

OBS: A cena pós-créditos de Mulher-Maravilha 1984, com seu easter egg, é interessante, mas não agrega nenhuma novidade para o futuro da franquia. Leia a descrição dela clicando aqui!

Nota: 6

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