Alguns temas abordados pelo cinema conduzem o espectador à uma jornada interessante de sentimentos. Enquanto o roteiro se presta em ser o mais comovente possível, mais o público se envolve emocionalmente e esse efeito cascata funciona como um perfeito disfarce para os problemas da produção, tais como falta de ritmo e trama sem desenvolvimento, como ocorre em partes no denso ‘O Caderno de Tomy’ (El Cuaderno de Tomy), drama argentino da Netflix que têm feito sucesso no catálogo. No entanto, o mergulho profundo no oceano de tristeza da premissa tem sim qualidades, especialmente pela presença de um senso de humor que equilibra o tom sensível e melancólico e pela forma como vai curto e direto ao assunto.

Conheça também a emocionante história real por trás do filme!

A trama e o elenco

O drama ganha ainda mais intensidade por ser baseado na história real de María Vásquez, uma argentina que vinha lutando contra um câncer de ovário, mas descobre que seu estado era irreversível. Com sessões de quimioterapia que não estavam funcionando bem, María sentia que a morte estava cada vez mais próxima. Em meio aos cuidados paliativos, ela decidiu usar o Twitter para contar sua história de uma forma particular, mas também optou por escrever um livro para seu filho pequeno, Nippur, que tinha apenas 3 anos na época. Esse enredo, por si só, já provoca nossas emoções e a condução da história prende e tortura o espectador por quase uma hora e meia dentro desse universo de morte assistida, que dilata o sentimentalismo e extrai até a última gota de comoção que possa existir.

Valeria Bertuccelli (A Rainha do Medo), que dá vida e espírito à protagonista, faz um trabalho excelente. O carisma e humor da personagem conquistam com facilidade, algo que ajuda na imersão de sua inevitável morte. O desempenho da atriz é doce, singelo e sagaz. Muito do drama familiar é extraído de sua atuação e o roteiro, preso em apenas uma narrativa, necessita que essa fonte de lágrimas não seque, algo que, para a felicidade da trama, acontece. Curiosamente, mesmo que explore com vigor os clássicos filmes sobre câncer e despedida, esse, por sua vez, não dá muitas voltas ou disfarça termos. A proposta é direta, incisiva e dolorosa. Assistir os momentos mais difíceis e se envolver com a vida daquele ser humano que está partindo, equivale a dor de arrancar um curativo de um machucado recém criado.

A direção

O roteiro de ‘O Caderno de Tomy’, vazio no quesito nuances, afinal, a narrativa segue lenta e se constrói em seu próprio ritmo, é rico em mensagens sobre dar valor a vida e ser feliz, mas também falta clímax e conflitos. Subverte alguns clichês, por ser direto, mas inevitavelmente cai nas armadilhas do gênero, assim como o público cai em todas as sequências emocionais, fruto de um trabalho certeiro do diretor Carlos Sorin (Histórias Mínimas), que tem grande carreira voltada para dramas familiares. Sua condução brinca com o espectador e funciona, já que dá tempo ao tempo de cada cena e cada ator. Nas camadas mais profundas, o roteiro ainda põe em debate uma questão sensível: a eutanásia. Semelhante ao que o ótimo O Escafandro e a Borboleta faz.

Conclusão

Através disso, ‘O Caderno de Tomy’ é corajoso em construir um drama humano e sincero, mas prende o espectador em um instrumento de tortura onde se torna observador de uma comovente morte assistida. Boas atuações e um inesperado humor ácido, que equilibra a tristeza excessiva, conseguem ofuscar e até mesmo subverter alguns clichês do gênero, ainda que a proposta de levar o público às lágrimas a cada nova cena seja a mesma. Felizmente, não é mais um romance teen sobre morte, mas sim, uma história enternecedora sobre a infinitude do amor materno.

Nota: 7

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