O grande escolhido para representar o Brasil no Oscar 2021 possui todas as características que agradam a Academia: trama metalinguística, fotografia sofisticada e narrativa densa e apreciativa. ‘Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou’, documentário sobre a vida e morte do cineasta argentino naturalizado brasileiro Héctor Babenco, é um registro comovente de sua trajetória no cinema pelos olhos de sua esposa (e também diretora do filme) Bárbara Paz. O longa intercala imagens de suas obras, que foram importantes para a história do cinema brasileiro, como ‘Pixote, a Lei do Mais Fraco’ e ‘Carandiru’, além de ‘O Beijo da Mulher Aranha’, pelo qual recebeu a indicação ao Oscar de melhor direção em 1986, com os últimos momentos de sua vida. De forma íntima e sensível, a trama se torna um mergulho emocional nas memórias, não apenas do realizador, como também na arte e cultura nacional.

A trama e o contexto

O tom melancólico e saudosista, extraído de uma fotografia em preto e branco e um ritmo apreciativo, remonta parte da história do cinema nacional pela ótica de um sujeito que já nasceu artista e que não conseguia parar de criar nem mesmo quando estava doente. A montagem do documentário é sensacional em recolocar todas as peças em ordem e transformar a cinematografia de Babenco quase em um universo compartilhado. Todos os seus filmes dialogam entre si dentro da premissa do longa e, dessa maneira, é possível notar as características marcantes de cada um deles. Essa oportunidade de homenagear um conjunto de obras transporta o espectador para um limbo, como se entrássemos no purgatório particular de Babenco e ali fossemos convidados à assistir suas lembranças.

O ritmo não cansa, apesar de lento e imersivo, porém, se torna cada vez mais brando conforme a narrativa avança e culmina em um desfecho totalmente comovente. As lentes da produção captam não apenas suas qualidades, como também seus momentos de fragilidade e, independentemente de ser uma pessoa pública, faz um incrível e impactante trabalho em documentar o fim de uma vida, a fraqueza de um corpo humano e o vazio que sobra nas lacunas da perda.

Tanto a trilha sonora atmosférica quanto o preto e branco auxiliam nessa jornada de recordações, que utiliza bastante metalinguagem para ressaltar o valor de cada filme e, acima de tudo, a emergência de lembrar da nossa história, especialmente nesse Governo atual. Willem Dafoe (O Farol), além de produtor, faz parte da trama por ter estrelado o último filme de Babenco, ‘Meu Amigo Hindu’, uma espécie de autobiografia realizada durante o período que esteve doente antes de falecer.

A direção

A angústia e a dor servem de combustível para o trabalho de Bárbara Paz ser ressonante. Cada enquadramento, pensado em seus mínimos detalhes, expressa uma emoção absurda, afinal, é o olhar íntimo de alguém que amou e viveu com o cineasta até o seu desfecho. É visível, em cada plano, a química e a energia que existia entre o casal e isso repercute na narrativa e onde o filme deseja chegar. Paz expressa uma sensibilidade majestosa e sua direção, assim como seu trabalho de montagem, realmente é de impressionar. Não apenas a parte técnica enche os olhos, mas a diretora também conduz com a segurança de saber onde deve pisar e o que vai sensibilizar o público, pondo em prática todas as artimanhas que certamente observou e aprendeu com Babenco. De longe, minha direção favorita do ano com bastante facilidade.

Conclusão

Conforme Babenco morre aos poucos, sua trajetória e cinematografia se transformam em combustível para ‘Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou’ incendiar o cinema brasileiro com um documentário imersivo, sensível e, acima de tudo, sobre luto e legado, que explora e registra a vulnerabilidade de um ser humano diante do seu fim. Em momento algum a condução catártica de Bárbara Paz perde emoção e esse convite para entrar no seu íntimo, é como aquelas cenas da vida que passam diante de nossos olhos antes de partimos. Essa obra, de certa forma, é o universo compartilhado de Héctor Babenco e funciona como uma exposição artística dentro da cabeça de um gênio. Felizmente, deve ressoar.

Avaliação: 4 de 5.

Nota: 8

Share This