É absurdo o impacto que uma mensagem pode causar nos cinemas e um filme, estruturado e desenvolvido como forma de manifesto social, ecoa sua reflexão por um longo período. Sempre bom lembrar que filmes, além de entretenimento e diversão, são também uma ferramenta simples e direta de tirar seu eixo de rotação do público e, por algumas horas, fazer você enxergar um mundo que talvez não pertença, mas que clama pela sua atenção e que necessita de suas lágrimas e sorrisos para fazer valer a proposta. Importante também salientar sobre lugar de fala e, como homem branco, certamente jamais saberei o teor da dor do racismo, mas como alguém nascido e criado a vida toda na baixada fluminense, o mundo de ‘M-8: Quando a Morte Socorre a Vida’ não é tão distante assim do meu.

Digo isso pois irei, nessa crítica, expressar o que senti e como o longa me atropelou e me arrastou por 20 metros até tomar fôlego para seguir em frente. Prosseguindo, o drama, que está chegando agora aos cinemas após uma longa estadia em festivais, nasce de um movimento antirracista poderosíssimo, que têm dominado a indústria desde o ano passado e, assim como as obras mais marcantes, mais uma vez a ficção é tão vívida quanto a vida real.

A trama e o elenco

Na premissa, interessantíssima e criativa, baseado no livro homônimo de Salomão Polakiewicz, Maurício (Juan Paiva) é um calouro da prestigiada Universidade Federal de Medicina, filho de Cida (Mariana Nunes), uma auxiliar de enfermagem que dá duro para ver seu filho entrar para faculdade. Em sua primeira aula de anatomia, Maurício é apresentado a M-8 (Raphael Logam), corpo que servirá para estudo dele e dos amigos durante o primeiro semestre. No entanto, desenvolve uma conexão espiritual com o cadáver e decide desvendar a identidade do desconhecido.

Dentro dessa proposta, facilmente encaixada em um filme de terror convencional, o protagonista entra em uma inesperada e angustiante jornada quando começa a perceber o impacto do racismo estrutural em sua vida e como corpos pretos são descartados com facilidade. Como ele, também sendo preto, necessita lutar duas vezes mais para ter sua voz ouvida e para ser reconhecido como merecedor da faculdade elitista em que estuda. A narrativa explora, uma a uma, as consequências da cor da sua pele e traz à tona debates profundos sobre cotas raciais, violência policial, luto e o caos da saúde pública em um Rio de Janeiro de fachada, que só é a tal “cidade maravilhosa” para quem quem já nasceu com a vida ganha.

Juan Paiva (Sem Seu Sangue), um dos melhores atores de sua geração, evoca toda a essência do protagonismo preto do cinema brasileiro e compõe um personagem jovem em sua fase de descobertas, repleto de camadas a serem exploradas, que sabe ser denso e carismático na mesma dosagem. Já o fenômeno da natureza Mariana Nunes (Um Dia Qualquer), por sua vez, vive uma mãe que é a pura personificação de tantas outras em uma só. A relação da dupla é doce e, ao mesmo tempo, carregada de cautela a aprendizado.

Nas entranhas do roteiro, entre outros temas, aborda com bastante profundidade a questão da maternidade e a dor das mães cariocas cujos filhos desapareceram ou foram mortos pela polícia em alguma ocasião “misteriosa”. Sem vilanizar e focado em expor uma realidade que cai no esquecimento popular, a trama deixa fluir as mensagens de forma evidente e, em algumas vezes, discreta, como a presença constante de um mural da ex-vereadora Marielle Franco, assassinada no Rio em 2018, no fundo de algumas cenas. Conforme a história avança e Maurício é atormentado pelo fantasma do falecido, mais as mensagens se tornam didáticas.

A direção

Com a história sendo ambientada em diferentes pontos do Rio De Janeiro, a localização já estabelece, de início, a situação da cidade e os extremos que são abordados: as favelas, com a luta do povo preto, e a Zona Sul privilegiada. Situações racistas, nascidas através dessa polaridade, são mostradas com bastante veemência e, propositalmente, causam desconforto no espectador (ou pelo menos deveriam causar!). Mas, apesar de ter sua atmosfera centrada na cidade mais estereotipada do cinema nacional, o longa vai além e valoriza as sutilezas e quebra algumas expectativas, porém, deixa bem claro que a “parte bonita” do lugar é dedicada aqueles cuja cor da pele não é seu documento de identificação. O trabalho de Jeferson De (Bróder) em ‘M-8: Quando a Morte Socorre a Vida’ é de uma sensibilidade fora do normal. Sua condução, curiosamente, bombardeia de reflexões a cada sequência, mas também entrega um entretenimento delicioso de assistir, algo muito parecido com o que o cineasta Jordan Peele (Corra!) consegue fazer. Aliás, quando a trama mergulha mais a fundo no gênero, há momentos de puro terror sobrenatural.

No entanto, se há um deslize significante, está na forma como o texto soa didático em excesso, sem deixar espaço para interpretação do espectador. Algumas cenas são forçadas para que determinado assunto possa ser abordado e essa falta de naturalidade pesa negativamente na fluidez.

Conclusão

Sendo a semente de um movimento antirracista em ascensão no cinema mundial, de forma brilhante, ‘M-8: Quando a Morte Socorre a Vida’ é um manifesto potente em sua reflexão, revigora o cinema carioca de favela e ainda brinca com gêneros. A direção é dedicada, o elenco emociona e uma das últimas e impactantes cenas desse filme prova, de uma vez por todas, que sua mensagem ultrapassa qualquer barreira da ficção e ecoa majestosamente em nossa consciência. Uma história ciente de onde quer chegar e que representa o melhor das narrativas brasileiras que o Governo atual tanto deseja inibir.

Avaliação: 5 de 5.

Nota: 9

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