Quando ‘Convenção das Bruxas’ chegou aos cinemas, em 1990, o mundo ainda estava imerso na maré de fantasia sombria que marcou os anos 80, com filmes como ‘Beetlejuice – Os Fantasmas Se Divertem’, por exemplo. Nesse mesmo ano, ‘Esqueceram de Mim’ consagrava o começo da década como promissora para filmes que, hoje em dia, chamados de “Sessão da Tarde”, ou seja, histórias leves, carregadas de humor e com um toque infantil que agrada todas as famílias. Nesse contexto, a comédia de terror baseada no romance de mesmo título infantil de Roald Dahl (também criador de ‘Matilda’ e ‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’), arrancava suspiros de pavor do público e se mantinha como um clássico instantâneo, especialmente por se encaixar na curiosa zona entre ser assustador demais para as crianças e infantil demais para os adultos. Mas, como o cinema é um ciclo sem fim, ‘Convenção das Bruxas’ (The Witches) está de volta agora em 2020 com uma nova roupagem, 30 anos após o original. Uma aposta perigosa, sem dúvida.

A trama e o elenco

Diferente de filmes como Jovens Bruxas: Nova Irmandade e ‘Jurassic World’, que se passam no mesmo universo dos originais, o novo ‘Convenção das Bruxas’ é um mero remake, sem qualquer ligação com o filme de 1990 além, claro de seguir a mesmíssima estrutura narrativa, também adaptada do best-seller de Dahl. Porém, com um importante e talvez o único diferencial válido: a mudança de etnia dos protagonistas. Sai uma família branca tradicional e entra uma avó e um menino negros, dentro do contexto racial do final dos anos 1960. Sem dúvida, uma inclusão válida e condizente com as mudanças de Hollywood em relação a falta de representatividade e protagonismo negro em clássicos do cinema. Essa transição é natural e não faz a menor falta a família branca que deu vida a história passada, afinal, como bem disse, está no passado e os tempos agora são outros. Dito isso, é importante também salientar que o cinema do Tim Burton arreganhou as portas para esse tipo de obra de “terror infantil” e hoje, após estruturar esse possibilidade narrativa, o mundo está mais preparado para assistir um filme de bruxas asquerosas sem morrer de medo. Ou seja, o burburinho por ser macabro não cola mais.

Dessa forma, sendo bem menos assustador que o original, muito por conta do descompasso de Anne Hathaway que, apesar de seu carisma absurdo, entrega uma personagem muito mais cômica e irritante (com seu sotaque carregado) do que a icônica líder do coven, vivida pela escuridão em pessoa que é Anjelica Huston (John Wick 3), a trama, escrita por ninguém menos que Guillermo del Toro (A Forma da Água), é mais lúdica, mais Disney, e acompanha as aventuras de um garoto de sete anos (vivido pelo fofo Jahzir Bruno) e sua avô, interpretada pela hilária Octavia Spencer, em um hotel que está sediando uma famosa (bizarra!) convenção de bruxas que pretendem transformar todas as crianças do mundo em ratos.

Como podemos ver, a história segue a mesma e tem poucas diferenças, mas ok, deixando o original um pouco de lado de lado, há pontos bastante positivos nesse remake, alguns até melhores que os do original, sendo o principal deles, a direção fluida e equilibrada de Robert Zemeckis (De Volta Para o Futuro, O Expresso Polar, A Morte lhe Cai Bem), um diretor com um ótimo senso de fantasia e que agrega bastante sofisticação aos planos, ainda que, claro, peque no desenvolvimento. Outro destaque que precisa ser comentado é o fato do narrador ser Chris Rock (Todo Mundo Odeia o Chris), talvez uma das pessoas mais carismáticas de Hollywood. Sua voz traz bastante humor e, em alguns momentos, isso atrapalha a imersão no aspecto sombrio da obra. O humor, aliás, desequilibra bastante e o filme fica no limbo, sem saber se quer ser macabro ou totalmente de hilário.

A direção

Inegavelmente, com bastante estilo, Zemeckis corrige alguns problemas de ritmo do original, reflexo de um cinema atual que está mais ritmado e com crianças mais impacientes, e toma decisões plausíveis (seja para o bem ou para o mal), que se encaixam no momento contemporâneo, como por exemplo, o uso excessivo de efeitos digitais, tanto na criação dos ratinhos, quanto no visual macabro das bruxas, em especial, da líder. Enquanto as possibilidades de transformações bizarras são ampliadas com o CGI, o charme da maquiagem (algo que fez o original ser ainda mais singular) é deixado de lado e esse talvez seja o maior erro da produção. Nada é realmente assustador e o humor não funciona nas piadas. No fim, se torna apenas um produto genérico, como tantos outros.

Parte técnica

No entanto, as demais engrenagens da produção se movem muito bem, especialmente a direção de fotografia impecável, ainda mais criativa quando o filme reduz a escala dos protagonistas e começa a filmar com a câmera na altura do chão, e a trilha sonora intensa de uma orquestra perfeita e envolvente, que arrepia quando as bruxas entram em cena pela primeira vez. É impressionante o carinho da produção com a história e percebe-se que a receita desanda exatamente por esse excesso de medo de não estar à altura do original. O peso da expectativa, mais uma vez, leva a trama a sua ruína, afinal, se esse filme fosse isolado e não uma refilmagem, certamente teria funcionado melhor e conquistado mais pessoas, que ainda estão apegadas demais aos clássicos.

Conclusão

Com isso, às vezes é preciso admitir que, mesmo tendo marcado a infância de uma geração, um filme clássico possui inúmeros defeitos, porém, estamos apegados demais para notá-los. ‘Convenção das Bruxas’ original é um desses casos que envelheceu mal. Nesse aspecto, o remake, com direção de Robert Zemeckis, se sai bem melhor em desenvolver uma narrativa infantil que envolve e diverte, ainda que sem o charme das maquiagens bizarras, agora substituídas por efeitos digitais genéricos. Se por um lado perde seu ar assustador, o que é uma pena, por outro, acerta em ressignificar detalhes e abrir espaço para mais inclusão e protagonismo negro. Uma história simples e astuta, com ingredientes selecionados para enfeitiçar crianças e que só deve fracassar por conta da expectativa alta dos adultos, que esperam ver uma bruxa macabra, como Anjelica Huston, e ganham apenas uma Anne Hathaway cujo carisma rouba a maldade do seu olhar.

Nota: 7

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