A maior fraqueza de Christopher Nolan sempre foi o desenvolvimento humano e emocional nos seus filmes. É inegável o sucesso que ele fez durante a última década, com lançamentos que conquistam o público e a crítica especializada, mas ele nunca foi um especialista nesse quesito emocional. Até mesmo no momento mais sentimental de Interestelar, por exemplo, ele insiste em tentar explicar o conceito de amor – em uma tendência que ele repete em todo filme, tentando explicar tudo por meio da ciência. O seu sucesso estrondoso se deve muito mais à grandiosidade de discussões acerca da verdade, conceitos do tempo e mistérios. É uma pena que em Tenet nada disso esteja presente. 

O filme segue um modelo de longas de espionagem e começa com uma missão de extração em uma casa de ópera. O protagonista sem nome, vivido por John David Washington decide tomar uma pílula com veneno em vez de entregar seus companheiros. Ele acorda em um hospital, cheio de pessoas misteriosas que explicam para ele que essa lealdade mostrada é o que eles buscam para uma missão especial. Essa missão consiste, em termos básicos, em parar com a terceira guerra mundial. 

Tenet tem uma proposta interessante de inversão do tempo, o que coloca o filme em uma estrutura narrativa diferente. Isso não só impacta a história, mas todos os efeitos visuais, porque com isso as pessoas aprenderam a enviar coisas de volta ao passado. Por exemplo, o disparo de uma pistola não vai mais para frente, mas voa de volta para a arma. A trajetória do tempo é toda reversa. Durante as mais de duas horas, o espectador fica se perguntando que tipo de manobra temporal está acontecendo em tela – o que vai agradar quem gosta de se sentir confuso em um filme do Nolan. 

TENETRobert Pattinson

Agora vamos falar do principal problema de tudo isso. 

Por mais que todo esse recurso visual – e narrativo – seja interessante à primeira vista, ele é completamente vazio. Tenet parece mais uma tentativa de Nolan de se aventurar pelo gênero espião sem se envolver por completo com isso. É como se fosse um filme do James Bond sem todo o carisma, bom humor e sensualidade que acompanham os longas de espionagem. Na verdade, parece mais uma tentativa de Nolan de se apropriar do gênero apenas para justificar as cenas de ação desenfreadas, o que, em alguns momentos, remete Tenet a um filme do Michael Bay. A diferença fica por esse recurso de inversão, que é divertido, mas nada demais. Parece um filme derivado de O Procurado (2008). 

Tem até mesmo uma explicação no meio do filme em que um personagem diz para o protagonista – que é literalmente o nome dado ao personagem do protagonista – que a inversão do tempo não deve ser entendida, mas sentida. Nolan, direta ou indiretamente, transmitiu nesse diálogo muito do que ele acredita serem os seus filmes: uma experiência que não deve ser compreendida. Chame isso de megalomaníaco ou genial, não importa. Isso mostra bastante das prioridades do diretor como um contador de histórias. 

Essa tendência dele de deixar seus personagens de canto, servindo apenas como complementos e meios para um fim de uma história, já não é de agora. Dunkirk faz a mesma coisa, mas funciona melhor porque é uma história real que não foca na individualidade de alguém, mas no coletivo e como um coletivo transforma a guerra. Em Tenet, não existe nem mesmo isso. A metalinguagem que Nolan utiliza é vazia e a forma como ele conta sua história, ainda que use dessa inversão temporal, não importa muito. Chega um momento em que quem está assistindo não se importa mais como aquelas inversões acontecem e, como consequência, também não se importa muito com o que acontece no filme, porque faltam personagens profundos, uma história que tenha o mínimo de peso emocional. 

Tenet Elizabeth Debecki and John David Washington

Para piorar ainda mais, a mixagem de som do filme é terrível. As explosões e gritarias são altas demais, enquanto todos os diálogos são baixos. Foi uma alegria ter assistido legendado, porque é impossível imaginar entender qualquer coisa deste filme sem legendas. E isso também não é de agora, não. Em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, a mesma coisa aconteceu com as falas de Bane. Era impossível entender qualquer coisa. 

No fim da jornada, quando o filme acaba, você sai como entrou no cinema: porque o mistério de Tenet, sua complexidade e seu enigma não tem importância alguma. Não é como Interestelar ou A Origem, filmes que se utilizam dessa mesma complexidade, mas que apresentam uma verdade, um sentido e um peso emocional – ainda que do jeitão Nolan. Tenet é bonito e explosivo, mas é vazio. Como um filme de ação, ele é uma boa pedida para quem quer ver algumas explosões à lá Michael Bay. Como um filme de espionagem e que se propõe a introduzir elementos extremamente complexos, ele é terrível. Não é carismático, divertido ou sensual como um longa de espionagem deveria ser. E também não consegue se sustentar nas suas complexidades vazias. 

Avaliação: 2.5 de 5.

Nota: 5

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