O cinema de super-heróis, ainda que forte entre o público alvo, tem mostrado desgaste. Isso é um fato. Não na qualidade dos filmes em si, já que a tecnologia ampliou as possibilidades, mas nas histórias, que seguem sempre o mesmíssimo padrão pré-estabelecido. Por conta disso, ‘Os Novos Mutantes’ (The New Mutants) se vendeu tão rápido, afinal, a promessa da Fox era fazer um filme de gênero dentro de outro filme de gênero e ver o que dá quando se mistura X-Men com terror inspirado nas obras de Stephen King e John Hughes. Bem, o resultado não poderia ter sido pior, especialmente por conta da demora para esse filme ganhar vida.

Antes programado para lançar em 2018 (sendo que foi idealizado lá em 2015), que relativamente pode parecer perto, mas para o mundo do entretenimento, que nunca para, aconteceu tanta coisa, incluindo a compra da Fox pela Disney, o desfecho da saga X-Men com ‘Fênix Negra’ e o lançamento do filme-evento ‘Vingadores: Ultimato’, o longa perdeu seu timing e, após uma série de adiamentos, refilmagens e pandemia, se tornou apenas uma lembrança esquecida na gaveta do cinema e que não dialoga com o momento. Um projeto promissor que, a cada dia que passou sem sair, se tornou cada vez menos relevante e interessante.

A trama e o elenco

É até difícil chamar esse filme de algo que tenha alguma relação com os quadrinhos da Marvel ou que possa servir para conduzir a franquia X-Men para outra vertente, já que a produção é tão tímida em se assumir fazer parte desse contexto. Se algum produtor de Hollywood, algum dia, acreditou que após ‘Fênix Negra’ (que também é desastroso) esse filme seria um caminho promissor para desenvolver uma nova franquia, mais jovem e contemporânea, sem dúvida, houve um grande equívoco. ‘Os Novos Mutantes’ não faz sentido. É pessimista, superficial, sombrio sem nenhum equilíbrio e teen além da conta para chegar aos pés de qualquer filme que já tenha levado o título de X-Men no passado, ou seja, já nasceu fadado ao fracasso por conta de sua pretensão. Mas ok, na trama, acompanhamos a jornada da Dani (Blu Hunt), uma nova mutante que possui a habilidade de controlar e manipular o medo das pessoas à sua volta.

Após um incidente com seu pai, ela acorda em uma espécie de Mansão X gótica, sem funcionários (é sério, não tem figurantes nesse filme!) e sombria, uma verdadeira casa do terror, que promete tratar os mutantes e ensiná-los a controlar seus poderes, mas que, desde o início, fica bem claro as segundas intenções da doutora Cecilia Reyes, vivida pela maravilhosa Alice Braga. Nesse contexto de histórias de terror dos anos 80, Dani conhece o quarteto Roberto (ou Mancha Solar), Sam Guthrie (ou Míssil), Illyana Rasputin (ou Magia) e seu interesse amoroso, a jovem Rahne Sinclair (ou Lupina), que possui a bizarra habilidade de se transformar em uma loba. Sim, uma loba. Aos poucos, os jovens descobrem que estão correndo risco ali dentro e precisam unir forças para sair com vida, enquanto enfrentam seus piores pesadelos.

Apesar de um trabalho decente, Braga também não se destaca, assim como o restante do elenco, que está bem abaixo da média, com exceção apenas para a talentosa Anya Taylor-Joy (A Bruxa), já que Maisie Williams (Game of Thrones) e a protagonista, vivida pela novata Blu Hunt, estão péssimas. De modo geral, todos os personagens são rasos e insuportáveis, assim como suas histórias tediosas de traumas do passado. O roteiro, arrastado e que demora para engrenar, desenvolve tão porcamente suas relações, que até mesmo o envolvimento amoroso entre Dani e Rahne é corrido e sem a menor química. A trama gasta tempo demais na apresentação do mundo sombrio previsível e na atmosfera de terror que não assusta e nem diverte, que corre apressadamente para resolver os dilemas na metade e entrega um clímax bem meia boca, de uma batalha com o tal Urso Místico, já que nenhum vilão decente dá as caras nessa história, que até medo de citar o nome de Charles Xavier tem.

O terror

A condução de Josh Boone (A Culpa É das Estrelas) é terrivelmente precária em todos os aspectos, mas quando tenta fazer terror, é aí que a vergonha cresce exorbitantemente. O diretor acredita estar fazendo um ‘Invocação do Mal’, quando, na realidade, está mais para um primo próximo de ‘Slender Man: Pesadelo sem Rosto’. É tanto clichê do gênero sendo replicado sem contexto algum, que a vontade é de rir dos efeitos digitais bizarros que tornam os monstros reais em cena ou os poderes dos jovens. A construção de medo e a atmosfera obscura, por sua vez, é tão fraca e vazia, que se ninguém avisasse que se trata de um filme da Marvel, seria apenas um terror bem ruim, com uma fantasia mal feita, ainda que seja mesmo assim. Com exceção de algumas boas sequências de ação no desfecho, nada mais se sobressai.

Conclusão

A sensação é que ‘Os Novos Mutantes’ se perdeu tanto e chegou tão depois da festa acabar, que chega ser difícil chamar essa obra precária, rasa e pessimista de um filme da franquia X-Men. Não serve para a nova geração, não se encaixa ou homenageia a antiga e nem funciona dentro do mundo pós-Vingadores: Ultimato. Vive apenas em um limbo, sem graça, sem ânimo, sem futuro e que fracassa plenamente em seu único diferencial: ser um filme de terror. Se a franquia X-Men havia morrido de vez com ‘Fênix Negra’, ‘Os Novos Mutantes’ é o prego que estava faltando no caixão. Infelizmente, a espera de tantos anos não vale nada a pena. Agora é hora de virar a página de deixar a Marvel Studios trabalhar com os mutantes de uma vez por todas.

Avaliação: 1 de 5.

Nota: 2

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