Na década de 1960, a peça de teatro ‘The Boys in the Band’ se tornou um marco histórico e, carregada de reflexões poderosas para uma época extremamente preconceituosa e sombria, a obra derrubou barreiras ao dar protagonismo, voz e espaço para nove homens gays em um conto amargo e triste sobre aceitação. Por conta disso, é interessante ver essa trama ser desenvolvida nos dias atuais que, mesmo com todas as modificações que a sociedade vivenciou, ainda funciona e promove uma conversa honesta sobre ser “diferente” do normal imposto.

Como a pauta está em alta desde sempre, o autor Mart Crowley, responsável pela peça, também escreveu o roteiro da adaptação da Netflix, produzida por ninguém menos que Ryan Murphy (Pose, Glee), nome importantíssimo da indústria do entretenimento que faz questão de inserir personagens da comunidade LGBTQ+ em seus filmes e séries. Dessa união de forças, nasce um filme extremamente cativante, sensível e marcado por um humor ácido, que faz a receita ficar ainda mais agridoce e turbulenta.

A trama e o elenco

Como o longa tem como base uma peça, a narrativa é muito semelhante e a pegada teatral, especialmente por conta da trama se passar em apenas uma única noite, durante o aniversário de um dos amigos, coloca o espectador imerso nas relações de amor e ódio do grupo. Durante a comemoração, os amigos se reúnem e conversam sobre os diferentes aspectos de ser gay e as paixões que já tiveram durante a vida. Nesse contexto, o roteiro explora questões como homofobia, racismo e a solidão de um homem gay numa sociedade retrógrada.

O talentoso Jim Parsons, cada vez mais distante de seu personagem caricato de ‘The Big Bang Theory’, vive Michael, o amigo mais amargurado do grupo, que propõe um jogo intenso, que força todos a terem que reviver traumas do passado e sentimentos abafados. Além dele, o elenco está espetacular, destaque para Matt Bomer, Robin de Jesús e Zachary Quinto, também conhecido como o queridinho de Murphy. Suas performances vão da alegria para a melancolia com facilidade, servindo ao espectador diferentes tipos de vivência gay.

A direção

A direção de Joe Mantello (Entre Amigos) é pura sofisticação e coloca o público dentro do apartamento onde a trama se desenvolve, exatamente como uma peça teatral. Com longos e verborrágicos diálogos, as tomadas estendidas também funcionam como objeto de observação e a passagem de tempo decorre conforme a noite avança e as intrigas se tornam cada vez mais profundas, assim como o sentimentalismo do roteiro. Porém, a narrativa demora para envolver e fisgar, essa lentidão certamente deve afastar alguns espectadores que esperam uma trama mais direta.

A direção de arte, por sua vez, assim como os figurinos, que recriam com perfeição a época retratada, são de encher os olhos. Mantello também extrai sensualidade dos atores em planos mais íntimos, feitos com o cuidado para não hipersexualizar e criar fetiche em cima de relações homossexuais. Apesar de ser um conto gay, sobre homens gays em sua crise de meia idade e protagonizado por atores gays, a trama dialoga muito bem com todo tipo de público, já que, assim como a peça nos anos 1960, tem o objetivo de propor reflexão sobre a complexidade das relações humanas e os escudos que criamos para nos proteger do julgamento alheio.

Conclusão

Ainda que, inevitavelmente, reforce estereótipos, ‘The Boys in The Band’ consegue ser uma hipnotizante e deliciosa comédia agridoce sobre ser um homem gay em uma sociedade conservadora. O filme de Ryan Murphy utiliza uma noite de bebedeira entre amigos para explorar diferentes aspectos das relações humanas e propõe uma reflexão honesta e divertida sobre amor, solidão e desejo. Uma festa íntima que vale a pena participar.

Avaliação: 4 de 5.

Nota: 8

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