A mistura sábia de protagonista com antagonista é definitivamente uma construção criativa de personagem que, quando bem feita, dá ao roteiro um tom agridoce que envolve por completo o espectador. Explorar as nuances de personalidade de um personagem, que serve como nosso ponto de vista na trama, aproxima a ficção da realidade. Isso é algo que o cinema espanhol de suspense sabe fazer muito bem, como por exemplo, em Um Contratempo e A Casa. Porém, ao mesmo tempo que essa vertente criativa pode ser fantástica, seu desequilíbrio também provoca uma antipatia absurda que afasta, como acontece com o novo sucesso da Netflix, ‘Remédio Amargo’ (El Praticante), que está tão profundamente preocupado em mostrar um protagonista vilão e impiedoso, que acaba se esquecendo de humaniza-lo e, com isso, construir os caminhos gradativos de como ele pode ter se tornando tão perverso. A tentativa de chocar o espectador, aqui, ultrapassa todos os limites, ainda que haja uma intensidade na trama que realmente possui potencial e instiga.

A trama e o elenco

Com a proposta de explorar a maldade humana em sua essência mais pura e como o desvio de caráter se mantém, mesmo quando uma pessoa é obrigada a mudar, acompanhamos em Remédio Amargo, a rotina de Ángel (vivido pelo excelente Mario Casas), um paramédico psicopata e abusivo, que sofre um acidente grave, porém, ao invés desse fato mudar sua visão de mundo, na realidade, sua nova limitação apenas realça a tal maldade que existe dentro de si. Dessa premissa, o roteiro desenvolve um thriller ao modelo hitchoquiano com ótimas intenções e que bebe da fonte de outras boas histórias curiosas, porém, dá voltas e mais voltas em torno de uma narrativa sem ritmo, que se torna cada vez mais maçante conforme se desdobra.

Na teoria, Ángel é um personagem interessantíssimo, diferente e sombrio, mas na prática, sofre com o acúmulo exagerado de elementos desenvolvidos para ficar evidente o quanto malévolo pode ser. Parte desse charme obscuro se deve à performance de tirar o fôlego de Mario Casas (Um Contratempo), talvez um dos melhores atores espanhóis da atualidade, que novamente entrega uma atuação poderosa, honesta dentro da proposta e carregada de sentimentos ocultos. O olhar psicótico do personagem é quase um oceano de mistérios que jamais vamos compreender. Além disso, a forma como o roteiro explora e aborda um relacionamento extremamente abusivo entre Ángel e sua namorada, vivida pela atriz Déborah François (Never Grow Old), é provocativo e permite que o espectador faça uma reflexão pertinente, até mesmo sobre feminicídio. De longe, o ponto alto da trama.

Direção

Na contramão da atmosfera densa, a condução de Carles Torras só funciona por conta do uso da trilha constante, feita para criar expectativa no público, afinal, sabemos que tudo é possível, porém, seus planos repetitivos e a ausência de ritmo acabam ofuscando o suspense grande parte da jornada, especialmente da metade para o final. O diretor tem cartas na manga que funcionam, apesar de exageradas, mas esgota as reviravoltas muito rapidamente e termina previsível e vazio.

Fora isso, é importante perceber como o roteiro, sem a menor sensibilidade e cuidado, retrata deficientes físicos, já que usa e abusa desse fato apenas para gerar tensão. Ainda que o intuito seja mostrar algo como “o universo devolve o mal que você faz”, o famoso carma, a produção reduz a deficiência de alguém à algo que você só possui por ter merecido estar nessa situação ou que isso necessariamente sirva para causar impacto na vida das pessoas. Um direcionamento mais prudente teria feito toda a diferença e não perderia a mensagem principal.

Conclusão

Ainda que ‘Remédio Amargo’ consiga manter um suspense constante, o roteiro vazio se esgota rapidamente e erra ao usar a deficiência como justificativa de caráter. Falta prudência e sensibilidade da direção, já que a proposta é realmente boa. Se não fosse a atuação impecável e sombria de Mario Casas, um dos melhores atores de sua geração, o resultado realmente amargaria.

Avaliação: 3 de 5.

Nota: 6

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