A parcela da sociedade que vê problema no sensível Mignonnes, é possível que seja a mesma que aplaude e mantém em alta na Netflix filmes como ‘365 Dias’ e ‘Cinquenta Tons de Cinza’. Enquanto o drama francês faz uma crítica evidente à hiper sexualização precoce de crianças, especialmente do sexo feminino, os outros apenas romantizam estupro sem a menor sensibilidade ou intuito de fazer uma reflexão. O problema está no mais comum: as pessoas costumam enxergar apenas o que lhe convém. O mal entendido com esse filme está exatamente nessa linha tênue entre o que é visto em tela, com o intuito do roteiro e da direção. Mostrar demais é motivo de repulsa, pois a sociedade conservadora está acostumada em silenciar dilemas, mascarar realidades e dar razão para o homem que vê o corpo de uma menina de 11 anos, vestida com roupas curtas, como um objeto de desejo. As mesmas pessoas que culpam a vítima, sem entender que, Mignonnes, acima de tudo, é sobre a busca por pertencer, sobre libertação feminina, sobre bullying e sobre racismo, mas como sabemos, o submerso é invisível aos olhos do espectador preguiçoso.

Do que o filme se trata

De maneira delicada e sensível, a trama acompanha a rotina da jovem Amy (Fathia Youssouf), uma menina de 11 anos que vive em Paris com sua família de origem senegalesa. Quando, procurando compreender qual é o seu lugar no mundo e cada vez mais consciente de sua feminilidade em amadurecimento, ela entra para um grupo de dança da escola, porém, acaba entrando também em conflito com os valores tradicionais de sua família religiosa. Nesse contexto, dessa realidade sem máscaras, vemos outras meninas que são puro reflexo do conteúdo que consomem na internet, da forma como a sociedade machista objetifica o corpo de uma mulher e, desde muito nova, acaba sendo vítima de um padrão pré-estabelecido, já que é mais fácil culpar a menina do que educar os meninos, não é mesmo? Por exemplo, para motivo de reflexão, se pegarmos filmes como o clássico ‘Conta Comigo’, de 1986, que mostra um grupo de meninos (quase da mesma idade das jovens de ‘Mignonnes’) apenas “sendo meninos”. Vivendo de forma rebelde e, até mesmo, fumando em cena. Por qual motivo esse filme então, que nem ao menos tenta fazer uma crítica social nem nada, não é visto como “polêmico” ou que “incita a pedofilia”? A resposta está no que todos já sabemos: homens tem seus privilégios e sociedade é condizente.

Bem, após esse mergulho no que está debaixo das camadas do roteiro e sobre o que exatamente o filme trata, acho que já posso partir para sua narrativa fílmica e sim, há cenas que realmente incomodam, isso é um fato, muito por conta da forma como a diretora Maimouna Doucouré escolhe enquadrar o corpo das meninas e suas danças “sensuais”. Mas é importante lembrar que, ainda que mostre em excesso o corpo das crianças, há uma justificativa, uma proposta e um choque por trás, que é exatamente onde Doucouré quer e consegue chegar. São crianças vulneráveis ao meio em que vivem e isso vai muito além de roupas curtas e maquiagem. No mesmo patamar de honestidade de ‘Kids’, filme produzido por Gus Van Sant, o recorte da infância aqui é realista, puro e destemido.

O elenco

A jovem Fathia Youssouf é uma preciosidade. Sua performance vai de doce para rebelde em um piscar de olhos. Um verdadeiro encanto, muito bem conduzida pelo olhar sensível da direção, que deixa rolar planos longos e contemplativos em busca de comover o espectador. Já que não utiliza elementos do cinema para realçar as emoções, como uma trilha presente e uma fotografia marcante, a produção é simplista e foca mesmo em mostrar a jornada de amadurecimento e descobertas das meninas, sem desejar ser uma experiência cinematográfica inesquecível.

É um filme rico em momentos de silêncio e necessita que o espectador se envolva na premissa, respire fundo e encare o que está sendo exposto, mesmo que isso incomode. E se ainda há dúvidas sobre onde a trama quer chegar, o desfecho é ainda mais sentimental, especialmente o último plano sequência, realizado com tanto carinho, que fica mais do que evidente sobre o que este filme, tristemente boicotado pelo seu próprio marketing desajustado (o cartaz internacional e o título são péssimos), deseja alcançar.

 Conclusão

Se você, espectador, se permitir mergulhar nessa trama sem julgar antes de ver, vai descobrir que ‘Mignonnes’, da Netflix, não é condizente com a pedofilia, ainda que incomode com suas cenas cruas propositais, muito pelo contrário, é um filme sobre a forma como o corpo feminino é hiper sexualizado desde muito cedo e como a sociedade machista escolhe culpar a vítima. É importante distinguir o que se vê em tela do intuito que a premissa quer despertar. Com isso, Mignonnes é um filme sensível, delicado e explícito, que machuca o coração com força, mas não por “incitar o desejo de homens”, mas sim, por acharmos que esses mesmos homens são quem precisam ser poupados de assistir um drama humano brilhante sobre amadurecimento feminino. O resto é pura histeria da internet.

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