Consumimos com tanta frequência animações dos estúdios convencionais que é extremamente bem-vindo quando uma produção é realizada fora do eixo-Disney e consegue, com o mesmo vigor, ser igualmente impecável em sua condução. Isso acontece, em partes, com ‘É o Bicho!’ (Animal Crackers), novo longa animado da Netflix (previsto para lançar lá em 2016 e foi adiado desde então) que conta com grande elenco de dubladores e busca explorar alguns aspectos com maior liberdade de criação, mas que, claro, utiliza a mesma fórmula de sucesso de sempre, especialmente pelo seu tom mais infantil que obras da Pixar, por exemplo.

Se por um lado o roteiro desenvolve uma história feijão-com-arroz fácil de ser assistida e digerida por crianças bem mais novas, por outro, há zero preocupação de que os adultos possam ser cativados ou mesmo envolvidos na premissa. Essa falta de equilíbrio transforma a animação em uma ida ao parque que, após algumas horas, se dissipa sem deixar grandes lembranças na cabeça dos pais.

Ao seguir a convencional tendência de animações 3D, não agrega grande novidade no traço e nem explora seu potencial máximo, com uma história ambientada em um circo familiar, que atravessa algumas gerações e mostra o relacionamento de um casal que foi criado nesse contexto cênico. Certo dia, descobrem que possuem biscoitos mágicos em formato de bichos, que transformam pessoas em animais de verdade e isso os coloca em uma importante jornada para salvar o circo e as memórias que foram construídas naquele lugar.

Colorido e agitado, o longa entregas alguns bons momentos de humor e também fracassa com piadas extremamente fracas e mal desenvolvidas, feitas realmente para um público sem muitos critérios. Mas é em seus números musicais que se mostra ainda mais genérico. As canções são rasas, apesar das interpretações serem boas, mas falta energia e, quem sabe, letras mais envolventes, já que as músicas servem para contar partes da história e, principalmente, se aprofundar na personalidade dos personagens.

Curiosamente, enquanto a direção do trio Jaime Maestro, Scott Christian Sava e Tony Bancroft dá a história movimentos rápidos e agilidade em um roteiro extremamente “jardim de infância”, a multiplicidade de personagens e tramas paralelas acabam confundindo o espectador. Há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e se torna difícil encontrar um foco central. Essa complexidade de histórias não combina com a simplicidade do tom do filme e destoa do tipo de público alvo que desejam atingir e agradar.

Obviamente há arquétipos de personagens, feitos com todos os conceitos básicos dos estereótipos de desenhos animados, como o vilão malvado e inescrupuloso, seu capanga desajeitado e o palhaço alívio cômico do circo, vivido pelo ator Danny DeVito (Dumbo), que repete seu papel circense pela terceira vez nos cinemas. Emily Blunt (Um Lugar Silencioso), John Krasinski (Um Lugar Silencioso) e Ian McKellen (Cats) também estão presentes e, apesar dos nomes serem um chamariz e tanto, não fazem muito além do habitual.

Através disso, como um livro escolar do jardim de infância ganhando vida, ‘É o Bicho!’ certamente diverte com sua multiplicidade de cores e uma história agitada, ambientada em um circo tradicional, porém, ainda que seja genuinamente voltado para o público infantil, seu roteiro é raso, superficial e extremante infantilizado, fato que limita seu alcance e sua intensidade em outras idades. Um filme distrativo, sem emoções ou personalidade, que funciona para ser assistido em família e que deve ser esquecido na mesma veemência.

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