Algumas ideias são tão insanas que acabam dando muito certo. Quem poderia prever que uma história sobre freiras guerreiras conseguiria sair do trash e se tornar uma aventura extremamente divertida e promissora para a Netflix? Bem, sabe aquela falta de originalidade e identidade que tanto se fala em produções da gigante do streaming? Então, isso não acontece aqui, já que ‘Warrior Nun’, nova série da plataforma, inova bastante dentro da premissa que possui e entrega uma jornada diferente, que segue séries como ‘Supernatural’ e ‘Riverdale’ e, ainda assim, se sobressai, tanto pela ótima construção de mundo e personagens, quanto pelo brilhantismo da adaptação, que consegue abranger diversos questionamentos válidos, enquanto diverte com lutas insanas de freiras ninjas.

É realmente curioso como a série, criada por Simon Barry, funciona, mas a resposta está no roteiro equilibrado, que sabe de suas peculiaridades e não tem o menor medo de arriscar ou soar brega, especialmente por ter a religião (e seus aspectos) como base para a construção da história, já que começa de forma enérgica e misteriosa, quando a protagonista Ava (interpretada pela atriz portuguesa Alba Baptista) ressuscita dos mortos graças ao poder de uma auréola mística de um anjo. Como portadora do artefato, seu destino é ser a próxima Freira Guerreira, uma heroína lendária e superpoderosa dedicada a combater demônios na Terra. Dessa premissa, nasce uma jornada do herói bem estruturada e emocionante, especialmente guiada pela performance de tirar o fôlego de Alba Baptista. A atriz realmente é um achado e consegue dar à personagem humor e melancolia ao mesmo tempo.

A série tem base nos quadrinhos ‘Warrior Nun Areala’ de Ben Dunn, com seu primeiro volume lançado em 1994 e tido como “uma aventura surreal sobre freiras lutadoras”, ou seja, é preciso ter bastante suspensão da descrença para mergulhar, mas isso não é um problema. Como a trama foi trazida para o contexto de 2020, a história tem ótimas nuances e trata assuntos pertinentes, como feminismo, a visão da igreja católica sobre a homossexualidade e como as mulheres são excluídas das lentes e histórias da religião, que só dão espaço para contar e recontar jornadas masculinas. Dessa forma, a série coloca personagens femininas fortes e poderosas em papeis de destaque e desenvolve humor com a falta de inclusão da Igreja. Além disso, parte da trama é a eterna guerra entre a fé e a ciência. Qual é o lado bom e qual apenas usa seus “seguidores”? Esse debate inverte lados e surpreende com reviravoltas inteligentes. Além da protagonista, o elenco também está ótimo e cada personagem tem seu momento de brilhar ao longo dos 10 episódios.

Aliás, é exatamente essa duração estendida a única parte que desagrada. São muitos capítulos, de quase uma hora de duração cada um, com isso, após o 4º episódio a série perde força e ritmo e dedica tempo de sobra para apresentar e mergulhar na vida de seus personagens. Apesar da energia voltar com força total no desfecho, esse miolo cansa o espectador. Se fossem apenas 8 episódios, sem dúvida o ritmo teria sido perfeito. Por outro lado, há bastante espaço para que a protagonista tenha seu passado contado e para que ela possa treinar para ser a líder.

Na vibe X-Men, seu treinamento é bem divertido e plausível dentro da proposta, já que ela fracassa tanto quanto acerta, ou seja, não está “blindada” pelo roteiro. Inclusive, as cenas de violência e lutas acrobáticas são ótimas e destoam de clima “divino e bonzinho” que se espera de um convento. Os efeitos especiais são bons, especialmente na criação dos demônios. Essa parte fantástica também funciona, mas é pouco explorada, algo que deve mudar na segunda temporada. Outra qualidade também fica para o senso de humor perverso e irônico da protagonista, que combina com o fato da história não se levar tão à sério.

Como uma boa série teen de qualidade, a trilha sonora é ótima, assim como a relação entre os personagens. Há espaço para lidar com personagens lésbicas e até mesmo uma atriz trans, que vive uma das amigas de Ava fora do convento. Ainda que seja uma premissa pautada pela religião, o roteiro é aberto e tenta, ao máximo, fugir das limitações provocadas e não se encaixar em algo que a Igreja possa aprovar. Até mesmo explodir o Vaticano elas explodem, ou seja, é polêmica e destemida e, por conta disso, é tão boa e diferente. Como há diversos núcleos, o grupo que a Ava convive fora do convento e seu relacionamento amoroso com JC (Emilio Osorio) acabam ficando sem desfecho, mesmo com os mistérios deixados para serem explorados em uma possível segunda temporada, essa falta de conclusão deixa a história estranha e sem final. Fora isso, o futuro é extremamente promissor.

Dessa forma, ‘Warrior Nun’ é uma das melhores surpresas do ano e entrega exatamente tudo que podemos esperar de uma série insana com freiras guerreiras. A produção de qualidade não poupa esforços para deixar a história ainda mais interessante e divertida, sem o menor medo de soar brega ou ridícula e, com isso, acerta no humor irônico e nas cenas de ação elaboradas, que agregam à aventura uma energia promissora e uma originalidade curiosa. É uma produção “ame ou odeie”, mas uma coisa é certa: se comprar a premissa e pular de cabeça na jornada das freiras ninjas contra os demônios enfurecidos, o entretenimento é de qualidade.

Nota Geral
8

Resumo

A série é polêmica e destemida e, por conta disso, é tão boa e diferente. Uma das melhores surpresas do ano e entrega exatamente tudo que podemos esperar de uma série insana com freiras guerreiras.

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