A sensibilidade de contar uma história é quase um dom, que poucos realizadores possuem, especialmente pelo cinema ser o mais próximo de uma janela de observação que temos de outros mundos e outras personalidades distantes de nós e, como elemento de apreciação e observação, os filmes se tornam algo completamente voyeur. Para melhor exemplificar esse tipo de cinema cujo espectador é apenas uma “mosquinha” que acompanha a rotina de outra pessoa, ‘Ninguém Sabe Que Estou Aqui’ (Nadie Sabe Que Estoy Aquí), novo drama espanhol da Netflix, nos coloca secretamente para observar alguém que não deseja ser visto e o que essa pessoa, tão reclusa e tímida, faz quando está sozinha. Nesse contexto, somos levados, com a eficiência de um roteiro pontual e interessante, para um passeio melancólico pela vida de um jovem artista cuja voz foi silenciada.

Na trama, acompanhamos a rotina solitária de Memo (vivido por Jorge Garcia, o Hurley de LOST), um ex-cantor mirim que foi forçado a emprestar sua bela voz para outra criança, cujo visual era mais “vendável” que o seu e, com isso, passa sua vida adulta em silêncio e isolado em uma ilha com seu tio. Quando a cidade começa a descobrir quem Memo realmente é, as coisas viram de pernas para ar na sua vidinha pacata. A história, em si, é sobre solidão e sobre não perseguir sonhos, algo que poderia ter soado brega se a direção mergulhasse mais no emocional do que na normalidade de alguém que quer estar sozinho.

Felizmente, o diretor novato Gaspar Antillo sabe muito bem dosar momentos emocionais com um humor peculiar e uma fantasia que brinca com o imaginário de uma pessoa que sempre desejou ser artista. Como filme apreciativo, as longas tomadas e os momentos de silencio ressaltam essa melancolia da ilha que, aliás, o roteiro faz um ótimo comparativo com o fato de estar na lua, até mesmo os barquinhos atravessando o mar, filmados de muito alto, são parecidos com foguetes. É uma simplicidade genial.

Sensibilidade é uma boa palavra para descrever o ritmo lento que a narrativa se desenvolve. Ainda que possa cansar o público que espera mais ânimo ou momentos de comédia, é uma lentidão que faz sentido no contexto e que não poderia ser diferente. Como protagonista, Jorge Garcia rouba a cena e deixa o seu humor de lado, algo que se destaca em LOST, para entregar muita alma e tristeza com seus olhares vagos e o silêncio que faz o personagem ser como é. Porém, quando abre a boca, especialmente no desfecho belíssimo, é puro carisma. Inclusive, a cena em que finalmente pode confrontar seu passado é linda, doce e muito íntima por parte da direção, que enquadra apenas o protagonista durante seu tão esperado show.

Esse momento é uma explosão de intensidade, que mescla a fantasia e a realidade com muita perfeição, até mesmo a direção de fotografia utiliza a iluminação para dar ao filme um ar mais imaginativo e infantil, principalmente quando o personagem começa a viajar em suas próprias fantasias, no mundo que criou para escapar. Há uma cena em questão que Memo vomita Glitter, esse detalhe, acima de todos os outros, mostra como existem diversas camadas na história e como o roteiro sabe que o mergulho é denso e profundo.

Através disso, ‘Ninguém Sabe Que Estou Aqui’ é uma obra sobre solidão e sonhos interrompidos, que navega entre a fantasia e o drama para mostrar a jornada de uma pessoa que se tornou invisível até para si mesma. Seu ritmo lento e contemplativo precisa de um pouco mais de dedicação do público, mas a sensibilidade da direção e a atuação intensa de Jorge Garcia são ótimos diferenciais, que destacam esse filme do catálogo desanimado da Netflix atual. Um drama delicioso para quem quer se emocionar e, acima de tudo, trabalhar sua empatia pelo próximo.

Nota Geral
8

Resumo

‘Ninguém Sabe Que Estou Aqui’ é uma obra sobre solidão e sonhos interrompidos, que navega entre a fantasia e o drama para mostrar a jornada de uma pessoa que se tornou invisível até para si mesma.

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