Ainda que o gosto seja adocicado e o filme seja uma surpresa inesperada, ‘Feel the Beat’, novo original da Netflix, é a personificação da obra familiar, que não se arrisca e não tem interesse em descobrir a roda, apenas se mantém sólido em sua premissa previsível para construir uma história que puramente entretém. E nada mais que isso. Mas o roteiro é consciente da sua falta de inovação e, como diferencial, apenas mantém um nível bom no pouco que faz. Se de início a trama é vendida como uma comédia romântica, a história na verdade segue por um caminho bem mais infantil, quase Disney, ao mostrar uma jovem dançarina que é expulsa da Broadway e, ao retornar para sua cidade natal, precisa liderar um grupo de crianças que sonham em ser dançarinas de sucesso. A perfeita união de ‘Hannah Montana’ com ‘A Escolha Perfeita’ faz nascer esse bebê chamado ‘Feel the Beat’.

O ritmo é bom e a história já se inicia com energia, algo que, por incrível que possa parecer, se mantém forte até o final, ainda que tenha muitas subtramas no miolo. A protagonista, vivida pela atriz Sofia Carson, que inclusive já trabalhou em diversos projetos da Disney, como ‘Descendentes’, por exemplo, é durona e séria e a trama demora para mostrar seu lado mais sensível e se aprofundar nos motivos que a levou ser tão focada e perfeccionista. Essa demora afeta nossa empatia pela personagem e isso pode afastar o espectador. Ainda assim, sua jornada pela história segue o feijão com arroz de filmes do gênero – começa megera, descobre um mundo mais simples e tem sua grande redenção – nada além do esperado. Por esse lado, o roteiro, que tem um humor O.K e sabe trabalhar o drama de uma forma bem sensível, peca por não dar tantas nuances à personagem.

O humor inofensivo certamente foi criado para um público adulto e as crianças do elenco são puro charme, ainda que apenas duas são destacadas pela atuação: Lidya Jewett (Estrelas Além do Tempo) e Eva Hauge. As demais, funcionam como alívio cômico, como o pequeno talento Justin Caruso Alla, e não possuem palco para que possam brilhar. A diretora Elissa Down (Sei que Vou te Amar) consegue organizar a enorme bagunça que é ter tantos personagens e sabe estabelecer uma boa dinâmica entre todos eles. A química entre as crianças é boa, assim como todo o processo de treinamento, que diverte ao mesmo tempo que mostra as dificuldades de cada um e como a protagonista se desconstrói (até mesmo seu penteado muda para algo mais natural) e abaixa a guarda quando percebe que precisa levar aquelas crianças até a última competição de dança. Nesse processo, há mensagens reflexivas e frases de efeito, desenvolvidas para atingir direto no coração do espectador.

Na contramão do bom desenvolvimento dos personagens e da história, o desfecho entrega exatamente o que era previsto, sem tirar nem pôr. Não há reviravoltas ou surpresas. Inclusive, segue à risca o padrão brega e superficial das comédias românticas, com a protagonista mudando de decisão (o que já seria óbvio!) e correndo de volta para o novo mundo que acabou de descobrir. Sem dúvida, um pouco mais de sal deixaria essa farofa mais apetitosa. Aliás, as cenas de dança são boas, mas também poderiam ter sido melhores e mais instigantes, como as de ‘A Escolha Perfeita’, por exemplo, aqui a competição passa rápido demais e boa parte das apresentações do grupo são inferiores aos demais, mesmo as que os elegem campeões, já que o roteiro não está mesmo preocupado em ser imprevisível.

Através disso, ‘Feel the Beat’ pode até parecer uma comédia romântica genérica, mas, na realidade, é apenas um filme infantil inofensivo, repleto de clichês e previsibilidades, porém, que consegue divertir e entreter por realmente não desejar ser nada além disso. Se estiver disposto a mergulhar em sua premissa contagiante, certamente vai sair satisfeito e leve, como se tivesse acabado de assistir um musical convencional da Disney. Uma história de esperança, amor e redenção, que utiliza a fórmula básica do sucesso para conquistar o público pelo coração.

Nota Geral
6

Resumo

‘Feel the Beat’ pode até parecer uma comédia romântica genérica, mas, na realidade, é apenas um filme infantil inofensivo, repleto de clichês e previsibilidades, porém, que consegue divertir e entreter por realmente não desejar ser nada além disso.

Leave a comment

Share This