Crítica | ‘Rei Arthur: A Lenda da Espada’ acerta em agregar novidade ao gênero e boas lutas

O cinema e sua tendência de contar e recontar histórias por anos e anos. Assim como o conto de João e Maria, a lenda do Rei Arthur e Robin Hood são histórias tão presentes no imaginário do púbico, que persistem em existir mesmo quando já não há mais nenhuma novidade para ser extraída. Ou será que talvez existam formas de recontar essas histórias no cinema de uma maneira criativa? Bem, ao menos é isso que ‘Rei Arthur: A Lenda da Espada’ (King Arthur: Legend of The Sword), que estreou no topo do catálogo da Netflix, busca alcançar com uma pegada mais épica e sombria da clássica e previsível história do personagem. O roteiro enxuto e a dinâmica da direção com a montagem tornam a história mais interessante do que de costume. O filme ganha força em se apoiar mais na fantasia literária do que em uma versão realista do conto já batido.

Essa pegada fantástica, com monstros gigantes e batalhas épicas é, sem dúvida, a gasolina que faz a trama caminhar. Com um começo enérgico, que mostra a infância do personagem e o início da guerra pelo poder de Londonium, o roteiro possui uma passagem de tempo eficiente e divertida, que sabe aproveitar o espaço para introduzir apenas o essencial e já seguir para o que realmente importa: o retorno do menino, agora adulto, para retirar a lendária Excalibur de uma pedra e se tornar o Rei legítimo do lugar que havia sido tomado por seu tio, o tirano Vortigern, que destruiu sua família no passado. Se essa premissa lembra ‘O Rei Leão’, você está certo. A trama segue o clássico modelo shakespeariano, além de não conseguir fugir da jornada do herói, se tornando um grande prato de previsibilidade, servido quente na mesa para o espectador.

No entanto, a direção do astuto Guy Ritchie incorporada a mesma energia que utilizou em ‘Sherlock Holmes’ entrega ótimas sequências de ação e luta, realizadas com o mesmo desempenho de jogos de videogame. O uso excessivo de CGI também é forte, apesar dos efeitos digitais serem bons e servirem, de modo geral, para a construção do mundo fantástico que existe nesse universo. Como a história básica segue praticamente intacta, ao menos a origem da espada é contada, assim como de alguns objetos e personagens que poderiam vir a protagonizar os próximos filmes. É um típico filme de origem de herói e, com isso, não foge de ter que explicar cada elemento que compõe sua história, através disso, se torna expositivo demais e não dá margem para que o público possa ligar os pontos sozinho. Quando a intensidade inicial diminui, a trama perde força e possui momentos de puro tédio, seguidos por um clímax bom, mas que não foge do esperado e não surpreende.  

No elenco, Charlie Hunnam (Z: A Cidade Perdida) dá vida ao herói. O ator tem carisma e lida bem com ação corporal, mas seu forte é o humor. Quando o roteiro permite momentos cômicos, sem dúvida sua performance melhora. Por outro lado, Jude Law (Animais Fantásticos) vive o vilão estereotipado e perverso, uma versão perfeita em live-action de Scar. Ainda que sua performance seja intensa e o ator entregue o possível dentro do papel, as nuances de sua personalidade são rasas demais e acaba sendo um desperdício de talento. O restante do elenco também é mal aproveitado, especialmente Djimon Hounsou (Guardiões da Galáxia).

Dessa forma, ‘Rei Arthur: A Lenda da Espada’ segue o mesmo modelo de história que já conhecemos à exaustão, mas acerta em agregar novidade por seguir uma vertente carregada de fantasia e lutas estilizadas. Como começo de uma possível franquia, a intensidade é boa, especialmente por situar em um mundo que, assim como em ‘As Crônicas de Nárnia’, os humanos precisam coexistir com a magia, porém, isoladamente, o roteiro é bagunçado, o elenco mal explorado e só se salvam mesmo as cenas de ação, no melhor estilo videogame. Ainda assim, o entretenimento é bom e, dentro do possível, até surpreende pelo excesso de estilo.

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