Sem dúvida, a HQ O Perfuraneve tem uma história original e extremamente rica em conteúdo, que não apenas dialoga com o mundo atual, como também explora como os seres humanos agem em situações extremas. Seu universo é tão abundante, ainda que contido, que serviu de base para um filme excelente, chamado ‘Expresso do Amanhã’ (Snowpiercer), dirigido pelo ganhador do Oscar Bong Joon-ho (Parasita). Ainda que a história tenha suas próprias peculiaridades e regras, o filme de Joon-ho estabeleceu uma identidade visual para a trama, que se passa dentro de um trem que circula o planeta após uma espécie de Era Glacial ter devastado a grande maioria da humanidade.

Através dessa identidade marcante, a HQ ganha também uma série de TV, produzida pela TNT e que será disponibilizada no Brasil pela Netflix. Com base no primeiro capítulo, é possível analisar pontos interessantes da produção e como ela deverá se desvirtuar do material de base. Bem, pelo menos é esperado que os episódios estendidos, que devem contabilizar mais de 8 horas de produção, possam agregar alguma novidade que justifique sua existência, especialmente pelo fato do filme de Bong Joon-ho estar muito fresco na memória. Ainda assim, não é exatamente esse caminho que o piloto segue, já que, além de apresentar o contexto da história em uma animação estilosa, a trama replica fielmente a vibe do filme, inclusive, a forma acelerada como é filmado e montado.

Por um lado, esse espírito violento e sombrio da HQ e do filme é o que dá a atmosfera de ‘Expresso do Amanhã’ e seus dilemas morais, ao mostrar que o trem é divido em vagões e cada um deles faz parte de classes sociais diferentes, sendo que, quanto mais próximo da cauda do trem, mais pobre o personagem é e mais irá sofrer, já que, nesse sistema, não há possibilidade de ascensão. Porém, essas semelhanças entre as adaptações pode ser sim um elo fraco e sem inspiração da série, especialmente por decidir ser explicativa demais, sem deixar espaço para interpretações do público, como acontece com o filme espanhol O Poço, por exemplo, uma espécie de “trem da desigualdade” em formato vertical.

No time de frente do elenco temos Daveed Diggs (Extraordinário) como o protagonista (papel creditado à Chris Evans no filme) e Jennifer Connelly (Alita) em um papel cercado de mistérios. Ambos estão bem Ok em suas performances, sendo Connelly melhor. Ainda assim, a escolha do elenco também pesa negativamente, já que ambos não possuem tanto carisma para viver personagens profundos como estes. Nesse começo, Steven Ogg (The Walking Dead) demostra muito mais potência em atuação do que os próprios protagonistas. Um personagem para ficar de olho, com certeza. Agora, sobre a parte técnica, os efeitos digitais, que mostram o mundo congelado do lado de fora do trem (aliás, esse grande evento acontece cedo demais na trama, que desperdiça mais um mistério) também estão parecidos com os do filme. Não há nada de muito novo em relação a isso, ainda que seja esperado que esse mundo lá fora possa ser explorado mais para frente.

De forma geral, a série de ‘Expresso do Amanhã’ chega em alta velocidade na Netflix, mas parece não ter força para ir muito longe, especialmente pelo elenco fraco e por estar presa demais ao filme de Bong Joon-ho. Ainda que seja interessante se manter fiel ao material da base, isso a impede de explorar novas possibilidade e tudo que resta é uma sensação agridoce de que já vimos isso antes. Com base no episódio piloto, infelizmente, a série tem uma qualidade inferior ao esperado, porém, continua sendo uma história realmente valiosa e interessante, que pode vir a seguir caminhos criativos mais originais, especialmente após uma particular mudança de personagem no final. Resta esperar para ver a relação do público com a obra e ver se tem futuro mesmo ou vai ficar na geladeira para sempre.

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