A popular série espanhola da Netflix não é a primeira (e nem será a última!) a ser espremida ao máximo para extrair até a última gota de conteúdo na tentativa de estender a história, que está gerando um lucro imenso, por mais alguns anos. O grande problema é que ‘La Casa de Papel’ nasceu de um projeto ambicioso, sim, porém simples, direto e feito pelo showrunner Álex Pina apenas para durar por um período curto de tempo na rede televisiva Antena 3. Após ter sua primeira temporada dividida em duas partes, com a compra da série pela Netflix, a história precisou ser reeditada para ser transformada em dois blocos sequenciais de um mesmo assalto, no entanto, quando a 3ª parte chegou, com uma história relativamente inédita e melhor produzida, já que explora novamente um assalto impossível, ficou evidente que o fôlego estava se esgotando a cada nova investida mirabolante do roteiro. Até aí, tudo bem, mas a ausência de um desfecho fez perceber que a 4ª parte seria então uma continuação direta dos eventos do final da 3ª e, com isso, a energia, que já estava se esvaindo, começa a dissipar rapidamente.

Um dos problemas desse tipo de série, que necessita ter plot twist atrás de plot twist, é a expectativa do publico em ser surpreendido, algo que se torna cada vez mais difícil de acontecer e faz com que os roteiristas quebrem a cabeça com ideias absurdas para poder, dessa forma, agradar. É essa corrida contra o tempo, seguindo o modelo “bomba-relógio”, que faz a série desperdiçar bons momentos de calmaria e preenchê-los com um plano ainda mais delirante que o anterior. E olha que a série nunca foi pé no chão mas, pelo menos, buscava criar justificativas plausíveis para todas as suas façanhas, algo que é deixado de lado dessa vez, em prol de criar ganchos no final de cada episódio. Por falar nos capítulos, como já citado, essa 4ª parte funciona como uma segunda metade da 3ª. Dessa forma, a história inicial precisa amarrar as pontas soltas deixadas, como o desfecho do tiro que a Nairóbi havia levado, e ainda apresentar alguma novidade no enredo que possa justificar um novo ano. É assertiva em dar sequência aos fatos, mas demora demasiadamente demais para entregar o rumo da nova trama.

E põe demasiadamente nisso, mesmo que cada capítulo tenha uma pista pequena do rumo, pelos menos 5 dos 8 novos episódios são desenvolvidos para amarrar as pontas soltas, mostrar mais flashbacks (apenas para trazer de volta personagens queridos que já morreram) e dilatar o tempo para fazer a temporada perdurar. A cada novo episódio, o roteiro tira uma carta da manga para tornar o plano do Professor (Álvaro Morte) e de Berlim (Pedro Alonso), de assaltar a protegida Casa da Moeda da Espanha, ainda mais inteligente e fantástico, porém, há um determinado momento em que se afasta da premissa de que tudo havia sido planejado, para algo definitivamente impossível de ser feito devido as inúmeras divergências e improvisos, elementos esses que acabam mostrando também algo novo na série até então: furos de roteiro, além do uso excessivo (ainda que já fosse feito) dos chamados “deus ex machina”, artifícios do roteiro desenvolvidos para dar uma solução inesperada, improvável e mirabolante para os “becos sem saída” da trama e dos personagens. É cansativo ver os esforços.

Ainda que a trama esteja se desgastando rapidamente, há dois elementos que seguem constantemente bons: o desenvolvimento dos personagens e química do elenco. O amor, presente em todas as subtramas, segue como o ponto falho do tal plano, o elemento imprevisível, que faz com que tudo possa mudar. Cada personagem tem sua função dramática e todos os principais possuem carisma de sobra, são repletos de camadas e crescem a cada nova parte, ainda que alguns ganhem mais destaque que outros em determinados momentos. Aliás, uma das melhores descobertas da Parte 3 foi o carisma de Nairóbi e a força que Alba Flores tem na atuação. Era de se esperar que ela ganhasse ainda mais espaço agora, porém, acontece exatamente o contrário. O roteiro a deixa de escanteio por mais da metade da temporada, assim como faz com Rachel/Lisboa (Itziar Ituño). Desperdício total de duas atrizes ótimas e alguns desfechos decepcionantes, ainda que, de certa forma, corajosos e chocantes, tendo em vista as inúmeras cenas em que os protagonistas estão em perigo e, um minuto depois, é como se nada tivesse acontecido. Até nas poucas cenas de ação os tiros nunca encontram corpos humanos e a direção apenas brinca com a falsa sensação de perigo.

Dos destaques, Tóquio (Úrsula Corberó) segue sendo a com maior espaço e justifica o trabalho dedicado da atriz, Denver (Jaime Lorente) perde força, assim como os demais, incluindo o Professor, que parece muito mais perdido e inseguro do que antes. Há um novo vilão raso e superficial, vivido pelo ator José Manuel Poga, apesar de ainda explorar levemente outros, como a inspetora Alicia Sierra (Najwa Nimri) e Arturo Román (Enrique Arce) que, aliás, tem uma das piores subtramas da temporada, completamente inserida sem contexto e que se perde no meio de tantas outras. Dessa vez, há sim uma tentativa de explorar os coadjuvantes para dar um pouco mais de força para a história, além de trazer uma personagem nova (Julia/Manila), com potencial de ser uma das melhores (vivida pela atriz Belén Cuesta), porém, não vai muito além disso e, de todas as partes, é a que mais parece ser um aglomerado de introduções, sem começo, meio e fim, para o tão necessário final da história (nas possíveis partes 5 e 6, esperamos!)

Com mais pontos baixos do que altos dessa vez, a 4ª Parte de ‘La Casa de Papel’ apresenta desgaste, desacelera a história, para que a mesma possa ser dilatada até a última gota de ideias mirabolantes, e desperdiça personagens carismáticos, enquanto foca nos coadjuvantes na tentativa de trazer fôlego para a trama. O roteiro fecha pontas soltas, como era de se esperar, mas gasta tempo demais na investida de unir os personagens em um mesmo lugar, se esquecendo de acrescentar alguma novidade relevante, que mostre a necessidade de estender por tantos anos uma história que, visivelmente, já deveria ter terminado enquanto estava por cima. Felizmente, na construção do suspense e plot twist, segue com vigor, algo que a torna a personificação de “série-maratona”, de tantos ganchos que possui. Por muito pouco não configura um total desperdício de tempo, seus personagens são carismáticos e, ainda que pequena, há uma chama de criatividade que permanece acesa. A questão é: por quanto tempo até decretar falência no plano mirabolante e começar a se repetir?

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