O Homem Invisível, escrito e dirigido pelo Leigh Whannell, diretor também do segundo Sobrenatural, e além de mais um remake de um clássico do cinema, o filme de 1933 que integra aí o universo de monstros e filmes de terror clássicos da Universal, é também uma nova adaptação do livro homônimo do HG Wells publicado em 1897. Mas será que depois de tanto tempo a história ainda tem força pra fazer sucesso no cinema?

Confira a resposta no vídeo abaixo ou no texto:

O novo O Homem Invisível já começa com a protagonista Cecilia Kass executando um plano milimetricamente pensado pra conseguir fugir da casa do seu companheiro Adrian. A gente pode até se perguntar o que aconteceu com ela pra chegar nesse ponto, mas a verdade é só uma: se você tá vendo uma mulher desesperada pra fugir e um homem que até então tava dormindo abraçado com ela, é certo que ela está vivendo um relacionamento abusivo. Aí eu vou logo dizer que eu já tinha mencionado isso quando falei aqui dos livros que vão virar filmes esse ano, e digo novamente que o grande motivo pra esse filme existir é a atualização da história. A ficção científica já tem isso de ser sempre uma alegoria pra falar sobre os grandes problemas da humanidade, só que a gente tem que entender que os problemas do começo do século passado já não são mais os mesmos de agora, e é pra isso que os remakes e reboots servem. Não existe necessidade nenhuma de refazer um filme clássico do mesmo jeito, se for pra ser assim é muito melhor simplesmente ver o filme clássico e pronto. E não é o caso desse novo O Homem Invisível, aqui a gente vê muito do espírito do livro original, só que com uma camada totalmente nova envolvendo um tema tão em voga atualmente que são os relacionamentos abusivos.

Seguindo com a história, a Cecilia depois de conseguir fugir, ela descobre que o Adrian, companheiro abusivo dela, se matou e deixou uma herança pra ela na condição de que ela não cometesse nenhum crime e nem fosse declarada incapaz mentalmente falando. Só que quando ela começa a superar o trauma, muitas coisas estranhas vão acontecendo na vida dela até que ela descobre (não é spoiler gente, não só ta nos trailers como é o nome do filme) que o Adrian descobriu uma forma de ficar invisível e continua atormentando ela sem parar. Essa extrapolação de um homem chegar ao ponto de se tornar invisível não só não é estranha dentro da história, mas também é necessária pra passar a mensagem de como um abusador é capaz de qualquer coisa. O próprio título do filme faz uma referência a isso, se foi proposital ou não eu num sei, mas você pensar na quantidade de homens que agridem suas parceiras e acabam tratados como invisíveis por uma sociedade que é capaz até de culpar uma mulher pelo próprio estupro, então acho que essa extrapolação toda é até pouco pra o quanto a nossa sociedade precisa aprender a lidar com esse tipo de comportamento.

O roteiro não é a única qualidade do filme pra abordar essa questão do relacionamento abusivo. A gente tem ainda várias técnicas de filmagem que também fortalecem esse ponto, inclusive técnicas que subvertem o que a gente costuma ver nesse gênero e dá ainda mais valor de produção pro filme. Um exemplo são os planos bem abertos em sua maioria mas mesmo assim sendo capazes de mostrar o quanto a Cecilia se sente acanhada, reprimida, e o quanto a gente também se sente assim quando a visão dela passa a ser a nossa visão em alguns momentos. Isso fica ainda mais forte quando ela da aquela olhada ao redor de onde ela tá e fica sempre aquela sensação de que tem alguém ali, tem alguma coisa errada, sendo que a gente ta olhando pra um espaço vazio e mesmo assim o clima leva a gente a crer no que ela diz, que ela ta vendo alguém ali de fato. Isso sem falar, claro, na atuação visceral da Elizabeth Moss, que carrega o filme nas costas e se não fosse essa grande atuação o filme ia perder muito da qualidade, porque querendo ou não na grande maioria das cenas ela ta contracenando sozinha, e não é todo mundo capaz de fazer isso no nível que a Elizabeth Moss foi capaz de apresentar aqui, então méritos totais pra ela também.

O único problema do filme acredito que seja o terceiro ato, porque ele deixa de lado todo esse clima de sufocamento e de inquietação pra apostar num thriller, numa ação de fato, o que eu acho um erro porque o clímax do filme podia ter sido atingido de uma forma muito mais psicológica do que necessariamente física. Isso não fica de todo ruim mas quando você tem toda essa atmosfera tão bem construída e ela acaba sendo abandonada por uma coisa mais clichê é um pouco decepcionante, mas nada que tire os méritos de O Homem Invisível, que como uma atualização de um filme de monstro, teve a coragem e a consciência de retratar um monstro tão atual e que tanto aflige a sociedade quanto um relacionamento abusivo. Recomendo demais esse filme pra vocês!

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