Após ter sido rejeitada por diversos serviços de streaming desde 2016, ‘Locke & Key’ encontrou na Netflix um lar e parece ter sido feita sob medida para o público alvo da plataforma. Baseada em uma série de revistas em quadrinhos lançadas uma década atrás, pelo ator Joe Hill (filho do Stepehn King), a série de TV quase virou uma trilogia de filmes, em 2015, até se encaminhar para outras vertentes e finalmente ser lançada. Esse atraso diz muito sobre o tom da obra, que segue uma vibe oitentista, facilmente brega e ultrapassada em alguns lugares, mas que se encaixa na Netflix perfeitamente, por acompanhar a proposta nostálgica da trama.

A fantasia, com fortes inspirações em ‘Harry Potter’, ‘As Crônicas de Nárnia’ e ‘Desventuras em Série’, adere um tom mais “terror” e mescla esse mundo mágico da literatura com o drama de outras obras bem sucedidas, como ‘A Maldição da Residência Hill’. Essa junção de referências tinha tudo para dar errado, mas, por incrível que pareça, funciona que é uma beleza aqui.

A trama segue a estrutura básica de roteiro de diversos outros produtos do gênero: uma família que se muda para uma casa nova e nela descobre que há coisas estranhas acontecendo, só que, nesse caso, a história é contada de forma não-linear, em uma estrutura semelhante a de ‘A Maldição da Residência Hill’, elemento que contribui para deixar a série mais sofisticada e complexa do que geralmente é. Ainda assim, a trama é feijão com arroz, apresenta seus personagens com dinamismo e não perde tempo em também mostrar o conflito que vai se arrastar por toda a temporada. Porém, os mistérios e a fantasia presentes no episódio piloto mostram que a produção está preocupada em fazer algo minimamente novo dentro do habitual, já que é uma história carismática, à moda antiga e que facilmente entretém o público mais jovem.

O roteiro, eficiente na maior parte dos episódios, desenvolve personagens inteligentes, que questionam as bizarrices do lugar como nós, espectadores, faríamos. Além de soltar as pistas para a resolução dos mistérios à conta-gotas, deixando ganchos irresistíveis no final de cada capítulo e utilizando referências da cultura pop para extrair humor, como uma visível homenagem ao filme da Pixar ‘Divertidamente’ e algumas falas que citam obras como ‘Harry Potter’ e ‘Nárnia’. As chaves mágicas, encontradas pelas crianças na casa, funcionam como ótimos “MacGuffins”, ou seja, dispositivos do enredo que guiam a história para frente, como as “Relíquias da Morte”, por exemplo e, dessa forma, cada novo episódio apresenta uma chave nova e um poder curioso e instigante para ser explorado, como manipulação, regeneração, acesso à mente e transfiguração.

No entanto, a trama, que começa excitante, perde a força gradativamente pelo excesso de subtramas desnecessárias pelo caminho, que poderiam ser enxugadas ou mesmo excluídas. O núcleo adolescente, comandado pelos irmãos mais velhos, que tenta fazer um filme de terror, é fraco comparada a jornada do caçula Bode (Jackson Robert Scott, de ‘It: A Coisa’) em busca das chaves, que aliás, também é colocado de escanteio da metade para o final da série. Porém, no 7º e último episódio, a trama ganha força e fecha pontas soltas do passado ao explorar a história triste do Sam (Thomas Mitchell Barnet), a melhor até então, sendo um final ideal, três episódios antes da real conclusão, ou seja, configura como um anticlímax. Outro defeito da série, além do vilão/vilã desinteressante, são os dez episódios. A história se arrasta para preencher tanto tempo, sendo que oito capítulos seriam ideais e não deixariam lacunas no ritmo.

De qualquer forma, ‘Locke & Key’ é promissora e resgata uma vibe nostálgica de fantasia literária pouco explorada hoje em dia. A série consegue divertir e entreter, com sua proposta curiosa entre o terror e a aventura juvenil. Estabelece uma sólida primeira temporada, que só peca pelo número de episódios, sendo que sua trama se desenvolveria perfeitamente em apenas oito. As boas atuações, os efeitos O.K e a premissa cercada de mistérios e reviravoltas, fazem dessa uma forte candidata a ser a próxima ‘Stranger Things’, isso caso haja alguns ajustes aqui e ali para tornar a experiência ainda mais mágica e descontraída.

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