O amor na terceira idade é um tema ainda pouco explorado no cinema, mas que, se bem elaborado, pode trazer inúmeros debates interessantes que vão desde liberdade, solidão e companheirismo, até lições sobre a vida. E o cinema francês parece ter seu próprio público mais velho para deliciar, já que filmes como o drama ‘Amor’, indicado ao Oscar de Melhor Filme em 2012, e a comédia romântica ‘Quem Me Ama, Me Segue!’ (Qui m’aime me suive!), do diretor e roteirista José Alcala, mergulham nesse mundo repleto de melancolia e lembranças. Um, com sua dose de tristeza eventual, e outro com bom humor, ao mostrar um triângulo amoroso inusitado. Aliás, esse triangulo é a base da trama do filme, que também encontra espaço para debater para onde vai a vida após a aposentadoria.

Convenhamos que tramas como esta são focadas em um público específico e raramente atingem pessoas mais novas, tanto por se tratar de um romance à moda antiga quanto por ser estrelado por um elenco mais velho, porém, há sim formas de extrair boas risadas de situações rotineiras, como outro filme, o argentino ‘Um Amor Inesperado’ faz, no entanto, apesar de ter momentos divertidos e descontraídos, até mesmo fazendo piada com a velhice dos personagens, o roteiro se desenvolve seguindo vertentes mais complexas de se ter empatia, como por exemplo, o protagonista (vivido por Daniel Auteuil, de ‘As Confissões’) ser é um brutamontes grosseiro e racista. Ainda que o objetivo da trama seja “desconstruir” sua personalidade machista, sua abordagem é ultrapassada para o cinema atual e se encaixa perfeitamente no termo “Magical Negro”, criado por Spike Lee em 2001, que fala sobre a redenção de um homem branco através de um personagem negro, nesse caso, vivido pelo neto do protagonista.

Além disso, a comédia é um bom exemplo de representatividade mal utilizada e inserida apenas para gerar conflito para o protagonista. Porém, ao colocar essas questões de lado, fica visível que a direção de José Alcala não quer se envolver nos próprios dramas que cria e foge para uma zona de conforto mais simplória, ao rir do triângulo amoroso. Isso, por sinal, é interessante, já que o elemento é comum em filmes jovens e ainda pouco utilizado em tramas sobre a terceira idade, além disso, há uma subtrama construída em cima da personagem Simone (Catherine Frot) que, de longe, é o melhor caminho do roteiro, ao mostrar sua vida recheada de tédio e rotina e sua jornada de autodescoberta quando “foge” de casa para viver seus desejos reprimidos. A liberdade feminina explorada é doce, gentil e atual.

A ambientação também auxilia na construção da história por se passar em uma aldeia no sul da França, pequena e isolada, que é a personificação do tédio vivido pelos personagens no auge de suas aposentadorias. Até mesmo o clima quente, realçado pela boa direção de fotografia, que explora luz natural, ajuda nessa sensação de monotonia. O elenco faz bonito, em especial a dupla Daniel Auteuil e Catherine Frot, ambos estão perfeitos e seguros em seu papéis. Fora isso, há uma boa montagem e um ritmo convencional para a narrativa, nem tediosa e nem agitada, apenas comum nesse tipo de comédia romântica, porém, poderia ter uma trilha mais intensa e uma carga emocional mais bem trabalhada pelo roteiro.

Ainda que haja questões delicadas e elementos descaradamente racistas na trama, ‘Quem Me Ama, Me Segue!’ desenvolve bem seus personagens e cria situações divertidas do cotidiano da terceira idade. Não tem uma história forte o suficiente para aquecer o coração e fazer refletir sobre a vida, a rotina e os momentos que deixamos de viver, mas trata temas pertinentes na velhice e mostra um inusitado, porém, gracioso, triângulo amoroso. É uma pedida certa para o público mais velho que busca se identificar no cinema, mas dificilmente agradará os jovens e, por conta disso, tem seu alcance limitado.

Nota Geral
5

Resumo

‘Quem me ama, me segue!’ não tem uma história forte o suficiente para aquecer o coração e fazer refletir sobre a vida, a rotina e os momentos que deixamos de viver, mas trata temas pertinentes na velhice e mostra um inusitado, porém, gracioso, triângulo amoroso.

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