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A metalinguagem no cinema é uma solução interessante para se reinventar. Falar sobre o ato de fazer filmes dentro de um filme é divertido, eficiente e, quando bem realizado, funciona como uma luva para resgatar algumas carreiras já desgastadas, como a de Eddie Murphy, grande ator, mas que tem entrado em decadência com o passar dos anos. O que melhor então do que fazer um filme sobre um comediante em declínio e utilizar os dramas de Hollywood como propulsor para se reerguer? É assim que nasce ‘Meu Nome é Dolemite’ (Dolemite Is My Name), comédia biográfica da Netflix que coloca Murphy no pedestal de bom ator que tanto merece.

A trama segue a vida de Rudy Ray Moore (Eddie Murphy), um ator, comediante, produtor e cantor americano, pioneiro do gênero blaxploitation e altamente criticado pelo seu humor ácido, repleto de palavrões e sexo. Apesar desse lado irreverente, Moore precisou passar por muitas dificuldades na vida pessoal, especialmente por ser um homem negro que buscava espaço na arte americana, para conseguir o estrelato com seu filme de baixo orçamento intitulado ‘Dolemite’, sucesso de público, apesar das críticas negativas. O longa, dirigido brilhantemente por Craig Brewer (e certamente seu melhor trabalho até então!), busca mostrar toda a loucura que foi a vida do personagem e sua determinação para ter um lugar na fama, ao melhor estilo ‘Ed Woody’, de Tim Burton.

E a escolha de Murphy se encaixa com perfeição no contexto, já que a carreira do ator também tem seus altos e baixos e seus filmes geralmente agradam mais o público que a crítica especializada. Dentro dessa proposta, o ator encontra sua verdade e se identifica com a importância que Moore teve para a história do cinema, mesmo sendo ridicularizado, e entrega uma atuação perfeita, equilibrada entre seu porto seguro que é a comédia e o caminho tortuoso do drama. Certamente, o papel de sua vida. Sem os exageros de ‘Norbit – Uma Comédia de Peso’ ou o humor debiloide de ‘O Grande Dave’, é Murphy de cara limpa e emoções evidentes.

Aliás, mesmo sendo a biografia de outra pessoa, há inúmeros easter eggs sobre a carreira de Murphy que valem a pena serem descobertos, desde uma referência sutil à roupa extravagante que usa em ‘Um Príncipe em Nova York’, até um fala com “I Feel Good”, referente a uma cena icônica de ‘O Professor Aloprado’. Ou seja, o papel foi pensado para ser dele e o filme para ser uma homenagem a sua própria história na comédia. Dito isso, a trama faz sentido ao mixar ambos os personagens e mundos, e o roteiro perspicaz desenvolve com maestria seus personagens e sua jornada até chegar ao estrelato, mesmo que se torne óbvio em determinados momentos. Além disso, o clima dos anos 70 trabalha a fotografia amarela e os figurinos extravagantes da época com perfeição.

O humor, diferente de muitas obras com o nome de Murphy envolvido, é eficiente. Os diálogos são bem construídos, inteligentes e irônicos, como o ator branco que é contratado para “interpretar brancos malvados”, entre outras piadas condizentes com os tempos de hoje. Aliás, todo o filme, mesmo sendo um recorte específico de época, dialoga diretamente com a diversidade e o espaço do negro nos filmes da atualidade, sendo extremamente bem-vindo por ter seu elenco majoritariamente negro e que certamente agradará as premiações, mesmo sendo triste que seja um protagonista tão presente em Hollywood e tão pouco valorizado, sendo necessário se encaixar dentro de um movimento para, enfim, ganhar seu destaque.

Mesmo com a presença forte do protagonista, no elenco se destacam Da’Vine Joy Randolph (A Última Ressaca do Ano) e Wesley Snipes (Blade, O Caçador de Vampiros), que rouba a cena e desenvolve uma química perfeita com Murphy. As demais participações, como a do cantor Snoop Dogg, de Keegan-Michael Key, de Chris Rock e de Tituss Burgess só agregam valor ao elenco sem provocar grande diferença na trama. Aliás, como já citado, o roteiro segue caminhos óbvios e falta conflito na trama, em especial, com o morador de rua cujas piadas foram plagiadas e aperfeiçoadas por Moore. O desfecho não entrega um diálogo entre os dois e deixa apenas uma sensação de que o assunto foi completamente esquecido.

Dessa forma, ‘Meu Nome é Dolemite’ funciona tanto como uma homenagem apaixonada aos filmes blaxploitations, quanto à carreira imbatível e injustiçada de Eddie Murphy, aqui vivendo seu melhor personagem em muitos anos. O humor irreverente, a metalinguagem e as piadas inteligentes dialogam diretamente com o atual momento do cinema. Um filme realmente indispensável e que deve ser lembrado nas grandes premiações.

Nota Geral
9

Resumo

Sem os exageros de ‘Norbit – Uma Comédia de Peso’ ou o humor debiloide de ‘O Grande Dave’, é Murphy de cara limpa e emoções evidentes. Um filme realmente indispensável e que deve ser lembrado nas grandes premiações.

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