Desde 28 de dezembro de 1895, quando os pioneiros irmãos Lumière projetaram publicamente a saída dos operários de uma fábrica francesa, o que muito em breve viria a se tornar a primeira sessão paga da história, o cinema sempre foi voltado para o público de massa e visto como entretenimento e distração, antes de assumir status de “7ª arte” e de conquistar um público intelectualizado, tido na época como “melhor preparado” para compreender os elementos narrativos vistos nos filmes, tais como cortes de planos, montagem e atuação.

Essa briga entre “cinema de entretenimento vs. cinema de arte” existe desde o momento em que o ato de sair do conforto de sua casa para assistir um filme se torna algo rotineiro na vida de todos nós. No entanto, há mesmo uma diferença assim tão visível entre um e outro? Para alguns cineastas sim. E certamente há, se levar em consideração o público alvo do projeto. ‘Transformers’, por exemplo, mira e acerta em um determinado tipo de público que busca distração e diversão, mais do que no público que paga para ir ver ‘O Sétimo Selo’ (1956), de Ingmar Bergman.

Acontece que o cinema nunca foi apenas uma fórmula e sua durabilidade se deve e muito pela maneira como é mutável e adaptável aos novos públicos e tecnologias. Nem mesmo o nascimento da TV (ou da Netflix depois!), por volta dos anos 50, quando se tornou febre mundial, incluindo no Brasil, fez o cinema enfraquecer. E sabe o motivo: a tecnologia. Que surpresa, não é mesmo? O uso do 3D era motivo suficiente para dividir os espectadores com os programas em casa. E dessa forma, novas histórias têm sido moldadas através da adaptação.

Mas ainda assim, alguns diretores renomados, que inclusive já experimentaram também fazer filmes “menos reflexivos”, não estão nada satisfeitos com os rumos que o cinema tem tomado, em especial, com a chamada Era de Ouro dos filmes de super-heróis, vistos por eles como “puro entretenimento” e/ou “isso não é cinema, é parque de diversões…”, como disse Martin Scorsese, diretor de blockbusters como ‘Hugo Cabret’. Já Francis Ford Coppola, outro grande nome na indústria, disse que os projetos da Marvel Studios são “desprezíveis”, já que ‘Vingadores: Ultimato’ é dono da maior bilheteria de todos os tempos.

Mas será mesmo que filmes de super-heróis são insignificantes e apenas visam lucrar, enquanto oferecem um passeio de montanha-russa aos espectadores? Ou estariam alguns cineastas, acostumados com passeios menores, se sentindo ameaçados com tamanho planejamento e demanda que esses filmes provocam? Esse debate é extenso. Obviamente, filmes como ‘Vingadores’ ocupam um número maior de salas em relação a outros filmes menores, principalmente nacionais, isso sim, de fato, precisa ser analisado e ter um equilíbrio, mas ainda pergunto: não há espaço para todos os tipos de filmes?

Pensando nesse debate acalorado, decidimos apontar 5 motivos que provam que talvez os blockbusters não sejam somente feitos para entretenimento barato. Basta olhar com mais atenção suas qualidades por trás de todo o CGI, para ter uma noção.

1 – Representatividade:

Em 2018, ‘Pantera Negra’ estreou e, para a surpresa de todos que não acreditaram no potencial de dar espaço de protagonismo para um herói negro, arrecadou mais de 1 bilhão e 300 milhões de dólares ao redor do mundo. Isso sendo um filme “menor” dentro da Marvel. O longa chegou tarde, sim, mas abriu inúmeras portas para debates e contribuiu para que as grandes produtoras pudessem perceber que os tempos são outros e que a inclusão é, mais do que nunca, uma obrigação.

Logo após veio ‘Capitã Marvel’, tendo a primeira protagonista de um filme solo do Universo Cinematográfico da Marvel. Sem esquecer, claro, de ‘Mulher-Maravilha’, de 2017, com sua forte e necessária pegada feminista. Essa discussão abriu caminho também para a chegada de heróis LGBTQI+ em ‘Os Eternos’ (que estreia no ano que vem), e com a Valquíria (Tessa Thompson), de ‘Thor: Ragnarok’.

Esses três filmes, em especial, são os responsáveis por fazer muitas crianças e adolescentes se sentirem inclusas em um mundo onde podem ser o que desejarem ser. É o tipo de mensagem direta, rápida e atual que alguns filmes, de diretores como Scorsese, talvez não sejam capazes de passar por estarem apenas interessados em agradar a crítica especializada e levar alguns Oscars para casa.

2 – Inovação e tecnologia:

Como disse mais cedo neste artigo, o uso do 3D começou lá trás na história do cinema e, até hoje, é utilizado por mais de 80% dos filmes. Essa tecnologia contribui, claro, para se cobrar valores mais altos de ingressos e para dar um motivo a mais ao público que não quer deixar o conforto do seu lar. Apesar de hoje o 3D já ter evoluído para 3D+ (em ‘Projeto Gemini’) e 4D em algumas salas, seu uso ajudou que o CGI e os efeitos especiais fossem aperfeiçoados, transformando o ato de ver um filme, uma experiência ainda mais imersiva.

E como falar de filmes de super-heróis sem citar as inovações tecnológicas que trouxeram, tanto para as salas de cinema, quanto para a forma como fazer um filme. ‘Vingadores: Guerra Infinita’ é praticamente inteiro feito através de computação gráfica e captura de movimentos. Das 3.000 tomadas presentes no longa, 2.900 tem algum tipo de efeito digital, afirmou a própria Marvel.

Além disso, está cada vez mais rápida a corrida para ser o filme mais tecnológico do seu tempo. Isso movimenta a indústria, apresenta novos ares à arte e prova que todos os tipos de filmes são bem-vindos, inclusive os filmes feitos no digital. O cinema não é mais apenas uma câmera desenvolvida por Thomas Edison.

3 – Variedade e versatilidade:

Há quem diga que os filmes com super-heróis são todos iguais, mas sabemos que não é bem assim. Apesar de muitos até tratarem temas similares, há variedade e cada vez mais liberdade criativa para expandir essas características para outros gêneros. Ou seja, justificar que falta versatilidade é negar a existência de obras como ‘Logan’, que segue para uma distopia com uma pegada mais adulta e violenta, ou ‘Deadpool’ e sua comédia pontual, assim como ‘Shazam!’.

Há fantasia em ‘Doutor Estranho’, drama de espionagem em ‘Capitão América: Soldado Invernal’ e thriller sobrenatural com ‘Blade’. Aliás, após o adiamento de ‘Novos Mutantes’ por tempo indeterminado, o primeiro terror propriamente dito está vindo por com ‘Doutor Estranho 2’, em 2021.

4 – Reflexo da sociedade:

Cada super-herói surgiu em um contexto social onde sua imagem nos quadrinhos representava a personificação de sua época. Assim como o Capitão América nasceu como símbolo de luta e nacionalismo dos EUA contra Nazismo, os X-Mens nada mais são do que metáforas sobre intolerância e aceitação, ou a frase icônica da franquia “Mutantes e com Orgulho!” não diz nada para você?

Dessa forma, os super-heróis nos cinemas de hoje atualizaram seus contextos para se encaixarem nesse novo mundo onde alguns assuntos são inevitáveis de serem ignorados e sua mera existência já provoca reflexão, em especial, no público mais jovem, cuja consciência está em formação.

Mesmo que possa parecer clichê para alguns, esse duelo entre “o que é certo e o que é errado” existe em todos os filmes onde os personagens são seres com super poderes e isso, quer alguns goste ou não, tem a função de educar, mesmo que indiretamente, o indivíduo. Grandes poderes trazem grandes responsabilidades!

5 – Adapte-se ou morra?

É exagero dizer que o realizador que não estiver dentro desse novo cinema não conseguirá fazer mais filmes. No entanto, cinema é uma luta constante contra o tempo e estar consciente das mudanças que as novas gerações provocam, faz parte de continuar produzindo obras relevantes, talvez mais que focar apenas em agradar a crítica ou mesmo se reconhecido em Festivais.  

Grandes diretores, que já conquistaram seu público alvo, precisam compreender que há espaço para todos, como sempre ouve e sempre haverá. Seja fazendo filmes para a Netflix ou dirigindo um blockbuster da Marvel Studios, o cinema vai sobreviver e prova disse são as enormes bilheterias, inclusive de filmes independentes, que não param de crescer a cada ano.

Depois de tudo isso você ainda acredita que os filmes de super-heróis são desprezíveis?

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