Diego Freitas (O Segredo de Davi) vem construindo uma trajetória bastante interessante dentro do cinema brasileiro ao apostar em histórias jovens, emotivas e carregadas de sensibilidade. Depois de trabalhos ótimos para a Netflix, como Depois do Universo e Caramelo, o diretor retorna às telonas com As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você, adaptação do livro da autora Fernanda de Castro Lima, distribuída pela Paris Filmes.
Aqui, Freitas reencontra um território que conhece muito bem, em que o riso e as lágrimas caminham lado a lado, e as relações humanas são o verdadeiro motor da narrativa. A trama acompanha Gabriela, uma adolescente que precisa enfrentar a perda repentina da melhor amiga, Júlia, vítima de um acidente. Antes de partir, porém, Júlia deixa uma lista com dez experiências que Gabi precisa realizar para voltar a encontrar a felicidade. O que começa como uma despedida se transforma em uma jornada de luto, culpa e redescoberta. Às vezes, aprender a viver também significa deixar ir.
Os acertos e erros do filme
O grande mérito do roteiro deste filme está na maneira como aborda a dor de perder alguém. Em vez de tratar o luto como uma etapa simples, com começo, meio e fim, a narrativa explora suas contradições, recaídas e pequenos avanços, compreendendo que seguir em frente não significa esquecer. Conforme Gabi cumpre as tarefas deixadas pela amiga, a lista se torna mais do que uma homenagem: é uma tentativa de reconstruir a própria vida e lidar com a culpa de continuar existindo quando alguém tão importante já não está mais aqui.
Há ecos de obras pops como A Culpa é das Estrelas, especialmente na combinação entre juventude e tragédia. Ainda assim, a produção encontra espaço para desenvolver uma identidade quase própria. A proposta é sentimental, sim, mas também revela coragem ao explorar sentimentos complexos sem tentar simplificá-los para o público adolescente. Essa jornada encontra sua principal força na dupla Any Gabrielly e Giulia Be. Any carrega boa parte do peso dramático da produção e entrega uma protagonista vulnerável, atravessada por sentimentos que não consegue compreender ou expressar.

Seu desempenho é ótimo e sustenta a evolução emocional que a trama precisa. Giulia Be, por sua vez, embora tenha uma presença bem mais limitada, imprime magnetismo às cenas em que aparece, fazendo com que Júlia permaneça viva na narrativa mesmo depois de sua ausência física – vibe Edward Cullen em Lua Nova.
Essa dinâmica é fundamental para o funcionamento da história, porque a amizade das duas precisa parecer real. E funciona: os flashbacks não servem apenas para provocar lágrimas forçadas, mas também para construir a intimidade entre as personagens e mostrar por que a ausência de Júlia deixa um vazio colossal na vida da amiga mais introvertida. Nem todas as atuações ao redor alcançam a mesma intensidade, mas a dupla central sustenta o coração emocional disso tudo. Claro, Pamela Germano como a nova amiga rebelde de Gabi também se entrega e lembra bastante a personagem de Lizzy Caplan no clássico Meninas Malvadas.
Visualmente, entretanto, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você nem sempre consegue escapar da estética familiar das produções pensadas para o streaming. Existem boas escolhas de fotografia e momentos em que a direção encontra delicadeza para traduzir os sentimentos da protagonista, mas a encenação poderia ser mais inventiva e explorar com maior ousadia as possibilidades da linguagem cinematográfica.

Em alguns trechos, o filme parece confiar demais na força da própria premissa, recorrendo a situações previsíveis e soluções dramáticas que antecipamos com facilidade. O roteiro também não está livre de clichês, e certas passagens seguem caminhos bastante conhecidos dentro do melodrama juvenil. Ainda assim, Freitas demonstra saber conduzir o público por essa montanha-russa emocional sem transformar cada cena em uma tentativa desesperada de arrancar choro. As músicas originais e as canções populares ajudam exatamente a criar essa conexão, especialmente quando acompanham as lembranças das amigas e as pequenas descobertas de Gabi. Há, sem dúvida, uma manipulação emocional inerente à proposta, mas ela raramente se torna cansativa ou excessivamente forçada, mérito da direção.
Outro acerto está nos personagens secundários e, sobretudo, em uma subtrama envolvendo um casal gay mais velho, que acrescenta camadas à discussão sobre amor, tempo, perda e permanência. É nesse espaço que a sensibilidade de Freitas se revela de maneira especialmente bonita. O diretor entende que o afeto não pertence a uma única geração e que as relações humanas carregam histórias, fragilidades e formas distintas de resistência.

Essa dimensão amplia o alcance da narrativa e impede que o filme fique restrito aos dilemas adolescentes de sua protagonista quebrada pela dor. A lista deixada por Júlia também permite que a trama fique progressivamente mais lúdica e inventiva, à medida que Gabi se arrisca, ultrapassa os próprios limites e começa a compreender que honrar alguém não significa viver eternamente presa à ausência dessa pessoa. Mesmo quando a história se aproxima de lições de moral mais evidentes e cafona, existe um carinho genuíno na maneira como o filme olha para suas personagens incompletas.
No fim, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você é menos sobre a morte do que sobre tudo aquilo que continua existindo depois dela. É sobre a saudade de quem não volta, os planos interrompidos, a culpa de seguir em frente e a descoberta de que estar vivo também exige força. Diogo Freitas trabalha com elementos conhecidos do melodrama e nem sempre encontra soluções visuais ou narrativas capazes de surpreender, mas compensa essas limitações com uma direção afetuosa e uma compreensão sincera das relações humanas que a gente só encontra em seus filmes mais doces.
O longa alterna momentos dolorosos com passagens bem divertidas, leves e esperançosas, sem perder de vista a complexidade das fases do luto. Seu sentimentalismo não é exatamente uma novidade, mas encontra força na honestidade com que abraça os sentimentos de seus personagens. Há algo reconfortante em uma história que permite chorar sem vergonha como vemos nesta aqui.
Veredito
As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você é um melodrama juvenil doce, sensível e eficiente no que se propõe. Transforma uma história de perda em uma celebração da amizade e da coragem de continuar vivendo. Any Gabrielly sustenta a narrativa com uma atuação comovente, enquanto Giulia Be deixa sua marca mesmo com menos tempo em cena. A estética por vezes convencional, os clichês e algumas escolhas previsíveis impedem o filme de alcançar todo o seu potencial, mas não apagam a força de sua mensagem sobre saudade.
Diogo Freitas reafirma todo o seu talento para contar histórias que aproximam o público de sentimentos universais, sem transformar a emoção em um exercício exaustivo de sofrimento o tempo todo. Segue sendo um cineasta promissor e ambicioso. É aquele tipo de filme que dói assistir, mas também cura onde dói. Faz a gente chorar por quem se foi e, depois, lembrar de quem ainda está aqui. E, em épocas sombrias como a que vivemos, isso é precioso demais para deixar passar.
