Crítica | O Bosque Selvagem – Uma declaração de amor ao cinema artesanal

A gente sabe que fazer cinema é uma tarefa para loucos e sonhadores. Em um mundo cada vez mais automatizado, dominado pela inteligência artificial e pela produção em escala industrial, existe algo profundamente doce e maluco em acompanhar uma animação feita à mão, quadro a quadro, ao longo de anos. É justamente aí que o estúdio Laika, responsável por obras marcantes como Coraline e ParaNorman, reafirma sua importância para a história do cinema contemporâneo.

Com o recente O Bosque Selvagem (Wildwood), que chega ao Brasil pela Imagem Filmes, o estúdio entrega seu projeto mais ambicioso até aqui, uma obra de mais de 2 horas de duração que celebra não apenas a fantasia, mas o próprio ato de fazer filmes. Dirigido pelo animador Travis Knight (Kubo e as Cordas Mágicas) e baseado na saga literária infantojuvenil de Colin Meloy, o longa é uma declaração de amor ao cinema artesanal e uma aventura colossal que resgata o espírito das grandes fantasias épicas. Se um dia a Pixar ocupou esse lugar especial no imaginário de quem cresceu acompanhando animações capazes de emocionar diferentes gerações, a Laika vem construindo, com personalidade própria, um espaço igualmente precioso, e que agora culmina em um dos filmes mais importantes já feitos. Fato!

Os acertos e erros do filme

A história acompanha Prue McKeel (dublada por Peyton Elizabeth Lee), uma adolescente que parte em busca do irmão mais novo depois que ele é levado por uma revoada de corvos para dentro de uma floresta proibida. Ao lado do colega de classe Curtis (Jacob Tremblay arrasa), ela atravessa a fronteira entre o mundo conhecido e um universo mágico habitado por animais falantes, criaturas extraordinárias, governos corruptos e figuras misteriosas. A premissa deixa claras as referências a obras icônicas como As Crônicas de Nárnia, Jack e a Mecânica do Coração e ao rico mundo literário de Tolkien, além de outras histórias clássicas de fantasia.

Não há muita originalidade na estrutura narrativa: a jornada por um reino desconhecido, as disputas políticas, as bruxas e as batalhas épicas são elementos que o gênero já explorou inúmeras vezes. Ainda assim, o filme encontra personalidade ao incorporar reflexões sobre a preservação da natureza, a união familiar e as consequências das escolhas humanas. A fantasia funciona não apenas como um convite à aventura, mas também como uma maneira de discutir questões que ultrapassam a infância e adolescência.

É, porém, na construção desse universo que O Bosque Selvagem realmente se transforma em um espetáculo. A Laika já é conhecida pela atenção quase obsessiva aos detalhes, mas aqui parece levar essa dedicação a outro patamar. Fios de tecido, penas, texturas, reflexos de luz nas folhas e pequenas particularidades dos cenários naturais compõem imagens de uma beleza impressionante. A fluidez dos movimentos e os avanços tecnológicos empregados na produção ampliam as possibilidades do stop-motion sem apagar aquilo que o torna tão especial: a sensação de que existe uma mão humana por trás de cada imagem.

É difícil não se deixar levar por essa experiência e esquecer, por alguns instantes, que tudo foi construído fisicamente e animado quadro a quadro durante mais de cinco anos. A grandiosidade visual também carrega um significado afetivo, já que o filme presta homenagem a Portland, no Oregon, cidade que abriga o estúdio e cuja atmosfera de florestas, lendas e mistérios parece alimentar tanto o imaginário fantástico quanto o terror associado a nomes como Stephen King. Com mais de duas horas de duração, o longa ainda estabelece uma marca impressionante para uma produção em stop-motion.

Mas a beleza não significa que estamos diante de uma fantasia infantil convencional. O filme abraça uma atmosfera surpreendentemente sombria, com violência gráfica, perdas dolorosas, reflexões sobre o luto e até a abordagem do suicídio. São escolhas ousadas para uma animação desse perfil, mas que ajudam a conferir peso dramático à jornada e a lembrar que histórias destinadas aos mais jovens também podem tratar de temas difíceis sem subestimar seu público.

Essa escuridão, aliás, combina com a própria natureza do universo apresentado: por trás de paisagens encantadoras e criaturas mágicas, existe uma sociedade atravessada por conflitos, ambições e injustiças. A ação acompanha essa proposta e cresce até um clímax grandioso, com batalhas de grandes proporções, numerosos personagens em cena e sequências que exigem precisão visual e ritmo. Knight demonstra segurança na condução dos momentos mais intensos, construindo suspense e emoção com o apoio de uma trilha sonora orquestral que evoca a grandiosidade das grandes sagas, como O Senhor dos Anéis. Há momentos em que o filme parece querer provar que o stop-motion também pode ocupar a escala dos blockbusters. E consegue.

Nem todos os elementos, entretanto, acompanham o mesmo nível de excelência. Prue, que deveria ser o coração emocional da aventura, nem sempre recebe o desenvolvimento necessário para sustentar a dimensão de sua jornada. Em determinados momentos, a protagonista parece deslocada, pouco expressiva diante dos acontecimentos ou simplesmente apagada pelo próprio universo que deveria conduzir. A trama oferece situações capazes de transformá-la profundamente, mas nem sempre encontra espaço para explorar essas mudanças com a delicadeza que a personagem merece.

Felizmente, outras figuras ajudam a compensar essa fragilidade. Alexandra, a governanta da Floresta, interpretada vocalmente por Carey Mulligan, surge como uma das presenças mais interessantes. Suas motivações podem soar exageradas, mas são atravessadas por uma dor genuína, tornando-a uma antagonista que vai além da simples oposição entre bem e mal. Já as criaturas que acompanham os protagonistas, incluindo um pássaro gigante e a ágil ratinha Septima (Awkwafina), acrescentam humor, carisma e dinamismo à aventura. São personagens que ajudam a manter o interesse mesmo quando o roteiro se torna previsível ou perde um pouco de força.

O maior triunfo de O Bosque Selvagem está justamente naquilo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir de maneira automática: a impressão de que cada imagem carrega tempo, esforço e intenção. Isso não torna a inteligência artificial, por si só, inimiga da criação artística, mas evidencia o valor de uma produção que escolhe o caminho mais trabalhoso para alcançar um resultado tão singular. A Laika transforma limitações técnicas em identidade estética e mostra que o artesanal não precisa ser pequeno, lento ou menos espetacular.

Mesmo com uma narrativa familiar demais para quem já percorreu muitos reinos fantásticos e uma protagonista que poderia ser mais bem trabalhada, o filme encontra força na construção de seu mundo, na ousadia de seus temas e na ambição de suas sequências de ação. É uma obra que entende a fantasia como ferramenta de encantamento, mas também como espaço para falar sobre luto, natureza, poder e pertencimento, sem perder o entreteniemnto necessário.

Veredito

O Bosque Selvagem é um deslumbre técnico e artístico, uma fantasia épica que devolve ao cinema a magia de construir mundos com paciência, imaginação e afeto. A narrativa nem sempre escapa dos clichês do gênero, e Prue não ganha a profundidade que merecia, mas nada disso apaga a força de uma produção que eleva o stop-motion a dimensões impressionantes. Sombrio, grandioso e visualmente arrebatador, o longa representa o trabalho mais ambicioso da história da Laika e uma celebração apaixonada do cinema em sua forma mais pura de arte.

E em uma indústria cada vez mais pressionada pela velocidade e pela automatização, assistir a um filme como esse é lembrar que algumas coisas ainda precisam e devem ser feitas com as mãos, um quadro de cada vez. Se a Laika queria eternizar seu amor pelo ato de fazer filmes, encontrou em O Bosque Selvagem um manifesto à altura dessa paixão.

NOTA: 9

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