O cinema sul-coreano já provou inúmeras vezes que consegue transformar gêneros conhecidos em experiências completamente imprevisíveis. E Hope: O Primeiro Impacto, que chega ao Brasil pela MUBI e pela Imagem Filmes, talvez seja um dos exemplos mais delirantes disso em 2026. Dirigido por Na Hong-jin, do inesquecível O Lamento, o filme passou pelo Festival de Cannes com indicação à Palma de Ouro e rapidamente chamou atenção também pela recepção comercial nos Estados Unidos.
E não é difícil entender o motivo dessa aclamação toda: estamos diante de um épico de ação alienígena que começa como um thriller de suspense e, pouco a pouco, se transforma em uma avalanche de monstros, tiros, perseguições e destruição. É uma superprodução ambiciosa, divertida e absolutamente sem freio.
Os acertos e erros do filme
Com mais de duas horas e meia, Hope sabe que precisa conquistar o público antes de entregar todas as suas cartas. Por isso, sua primeira hora funciona quase como um grande jogo de esconde-esconde, começando inclusive em meio a uma situação de clímax e escondendo seus monstros o máximo possível. Na Hong-jin brinca com aquilo que não vemos e deixa a imaginação completar as lacunas.
Quando finalmente começa a revelar suas criaturas, o filme muda completamente de marcha e mergulha em sequências de ação cada vez maiores. É uma estrutura peculiar para um blockbuster, porque gasta pouco tempo explicando seu universo e muito tempo colocando seus personagens em situações cada vez mais absurdas. E funciona justamente por isso.

A história se passa em Hope Harbor, uma vila rural próxima à Zona Desmilitarizada da Coreia do Sul, onde o chefe de polícia Bum-seok, vivido por um elétrico Hwang Jung-min, precisa enfrentar uma ameaça que ninguém parece compreender. O cenário interiorano dá ao filme uma identidade própria e cria um contraste delicioso entre a tranquilidade das paisagens e o caos que toma conta da região.
Conforme a ameaça cresce, a escala também aumenta: os humanos estão completamente despreparados diante de criaturas alienígenas gigantes, tecnológicas e aparentemente indestrutíveis, que não estão necessariamente interessadas em conquistar a Terra, mas simplesmente em sobreviver e voltar para casa. E é justamente nesse momento que Hope revela uma mitologia muito maior do que aquela apresentada inicialmente, inclusive com algumas criaturas ganhando vozes de nomes de peso do cinema hollywoodiano, como Alicia Vikander e Michael Fassbender.
Eles ajudam a dar personalidade a esses seres macabros e reforçam uma das características mais interessantes do filme: Hong-jin não está tão interessado em criar apenas monstros genéricos para serem abatidos. Cada criatura possui uma identidade visual, um comportamento e uma presença própria, fazendo com que o público descubra aos poucos quem são esses seres e perceba que estamos apenas conhecendo a superfície de um universo alienígena muito mais complexo.

Hong-jin também parece beber diretamente da fonte de O Hospedeiro, de Bong Joon-ho, especialmente na maneira como o fantástico invade um ambiente cotidiano e transforma pessoas comuns em sobreviventes improvisados. Mas Hope troca parte da sátira e do drama familiar por uma energia de ação quase apocalíptica. Há momentos que parecem ter saído de Mad Max: Estrada da Fúria, com perseguições insanas e uma câmera que acompanha o caos.
Jung Ho-yeon, de Round 6, ainda ganha uma entrada heroica como a policial novata Sung-ae, lança-granadas em mãos, como se tivesse acabado de descobrir que nasceu para ser uma estrela de ação. E os alienígenas são um espetáculo à parte: cada criatura possui características próprias, e a misteriosa imperatriz (dublada por Alicia Vikander) é particularmente fascinante. Os monstros, meio Demogorgon, meio humanóides, são carismáticos, medonhos e até assustadores dependendo do ângulo.

É justamente quando o filme revela demais que algumas de suas fragilidades ficam mais evidentes. O suspense perde força quando os monstros deixam de ser uma ameaça desconhecida e passam a ocupar o centro da ação, e o CGI está longe do padrão das grandes produções hollywoodianas. Em determinados momentos, os efeitos parecem baratos demais para o tamanho da ambição do filme.
Ainda assim, Hope possui personalidade suficiente para transformar essa limitação em algo quase secundário. O problema maior está no excesso: são muitas ideias, personagens, núcleos e mudanças de tom para um filme que já dura mais de duas horas e meia. Algumas piadas também parecem inseridas apenas para aliviar a tensão e acabam tornando certas passagens mais convencionais do que precisariam ser.

Mas talvez esse excesso seja justamente parte do fascínio. O filme deixa a impressão de que Hong-jin não criou apenas uma história, mas um universo muito maior do que aquele que vemos na tela. Há personagens e acontecimentos que parecem deliberadamente preparados para futuros capítulos, e vários arcos permanecem abertos, deixando um gosto de franquia. E, sinceramente, seria muito bem-vindo.
Mesmo com seus excessos, seu CGI irregular e alguns momentos de cansaço, Hope entrega aquilo que promete com uma energia impressionante. Um blockbuster que entende que espetáculo também pode ter personalidade. É um filme de monstros, mas também de sobrevivência, humor, caos e uma quantidade quase irresponsável de adrenalina que vicia.
Veredito:
Hope: O Primeiro Impacto é uma experiência exagerada no melhor e no pior sentido da palavra. Nem todas as suas ideias funcionam, alguns efeitos visuais podem tirar o espectador da imersão e a duração cobra seu preço. Mas quando o filme acelera, ele simplesmente atropela tudo pela frente.
Na Hong-jin constrói um thriller alienígena eletrizante, sensorial e cheio de boas ideias, que encontra no cinema sul-coreano justamente a liberdade para ser estranho, violento e divertido ao mesmo tempo. Uma avalanche de monstros, tiros e perseguições que, na tela grande, faz cada centavo do ingresso valer a pena. Até aqui, facilmente o filme de ação mais empolgante do ano.