Crítica | Supergirl – Uma heroína de aço presa em um roteiro de papel

É, amantes da DC, estava bom demais para ser verdade! Depois de um começo bastante promissor para a nova fase cinematográfica da DC com Superman, agora vivido por David Corenswet, um filme colorido, energético e disposto a recuperar o senso de aventura dos quadrinhos, chega Supergirl para dar a impressão de que o estúdio voltou vários passos para trás e despencou do penhasco novamente.

Não chega a ser um retorno completo aos excessos da desastrosa Era Snyder, mas há algo de familiar na desorganização narrativa e na dificuldade de transformar uma premissa simples em uma experiência satisfatória. Parte dessa sensação de morte certamente vem do desgaste colossal do gênero de super-heróis, que hoje parece disputar atenção em um terreno cada vez mais saturado. A outra parte, porém, é responsabilidade de um roteiro mequetrefe que raramente encontra algo interessante para fazer com sua própria protagonista forte.

O problema é que praticamente tudo em Supergirl soa excessivamente desagradável. O roteiro segue caminhos previsíveis, a aventura carece de personalidade e até os momentos que deveriam despertar encantamento passam num piscar de olhos. Para uma produção encarregada de apresentar uma das figuras centrais deste novo universo compartilhado, falta justamente aquilo que deveria ser seu maior diferencial: identidade.

Mas seria injusto dizer que nada se salva na chatice que é Supergirl, Milly Alcock (A Casa do Dragão) surge como uma exceção. Com sua presença carismática e uma energia quase anárquica (meio Thor, meio Carol Danvers), a atriz consegue dar vida a uma personagem que o roteiro insiste em boicotar. É ela quem mantém o filme em órbita quando todo o resto parece determinado a puxá-lo para a gravidade da mediocridade.

Os acertos e erros de Supergirl

Ok, o senso de humor continua presente, assim como a busca por uma carga emocional mais acessível, duas características que James Gunn vem tentando estabelecer como pilares desta nova fase da DC. E, convenhamos, há mérito nisso. A tão comentada “marvetização” do estúdio pode soar como um termo pejorativo para alguns, mas também representa uma compreensão importante: a de que esse universo funciona melhor quando não tem vergonha de abraçar o absurdo inerente aos quadrinhos. Durante anos, a DC pareceu empenhada em convencer o público de que seus heróis carregavam o peso existencial do mundo nas costas. Gunn, ao contrário, entende que às vezes um alienígena voador vestindo uma capa vermelha pode simplesmente ser… divertido, como deveria ser.

O problema é que Supergirl não encontra uma forma interessante de aplicar essa filosofia. A primeira aventura cinematográfica de Kara Danvers, já apresentada anteriormente em Superman, se desenrola por planetas distantes, espécies alienígenas e cenários cósmicos que deveriam expandir as possibilidades do DCU, mas acabam produzindo o efeito contrário. Tudo remete a algo já visto, seja em Star Wars, seja em Guardiões da Galáxia, sem jamais encontrar uma identidade.

A sensação é de assistir a uma coleção de ideias emprestadas, episódicas, reunidas por um roteiro excessivamente básico. Em meio a tantas naves, criaturas e galáxias, falta justamente aquilo que faria a personagem decolar: uma história capaz de enxergar nela algo além de mais uma heroína atravessando o espaço em piloto automático. Kara diz que ela, diferente de seu primo kryptoniano, enxerga a verdade nas pessoas e não apenas a bondade, ou seja, um conceito que abre precedentes para uma jornada interna muito mais densa, forte e melancólica, porém, o roteiro só força a barra com flashbacks sem nenhuma emoção genuína e uma motivação rasa demais: salvar Krypto, o caõzinho rebelde e descontrolado dela.

Agora, se o roteiro já apresenta dificuldades enormes para sustentar a jornada de Kara, os aspectos técnicos tornam a experiência ainda mais irritante. A fotografia aposta em uma estética excessivamente escura que frequentemente trabalha contra o próprio filme. Mesmo durante algumas das sequências ambientadas à luz do dia, há uma estranha falta de clareza visual. A ação está constantemente escondida atrás de filtros, fumaça ou decisões questionáveis de enquadramento. Soma-se a isso uma narrativa sem ritmo, incapaz de criar tensão ou sensação de progressão.

A condução de Craig Gillespie (Cruella) também encontra provações. As cenas de ação são agitadas, mas raramente empolgantes; movimentam-se tanto que, em certos momentos, parecem travar uma batalha particular contra a própria compreensão do público. Falta precisão, falta construção e, principalmente, falta impacto. A computação gráfica, por sua vez, cumpre sua função sem grandes deslumbres, servindo adequadamente à criação dos ambientes espaciais e das diferentes civilizações alienígenas. Mas é só isso.

Quem realmente consegue escapar ilesa desse acidente de carro em forma de filme, como já mencionado, é Milly Alcock. A atriz transmite carisma quase instantâneo, equilibrando o sarcasmo, o desinteresse juvenil e as cicatrizes emocionais da personagem com uma naturalidade bastante admirável. Quando finalmente assume o uniforme da heroína, fica evidente que o problema nunca foi a escolha da protagonista. Pelo contrário, Alcock veste a personagem com tanta convicção que chega a dar a impressão de estar atuando em um filme melhor do que aquele que a cerca.

E, claro, há a participação tosca de Jason Momoa (Aquaman) como o irritante e egocêntrico Lobo. O personagem pouco contribui para a narrativa e transmite a sensação de ter sido incluído no filme mais para marcar a volta do ator ao DCU do que por uma necessidade real da história. Momoa entrega exatamente o que se espera dele, mas sem qualquer novidade ou camada adicional que justifique sua presença. No fim das contas, Lobo entra, faz barulho e sai de cena sem deixar impacto, a trama chegaria ao mesmo destino mesmo sem sua participação rasa. E talvez até funcionasse mais se esse fosse o caso.

Veredito

Supergirl é o equivalente cinematográfico de uma heroína capaz de atravessar galáxias em segundos, mas que passa quase duas horas correndo em uma esteira. Existe movimento, existe barulho e existe uma evidente tentativa de expandir o novo DCU, mas raramente a produção encontra combustível suficiente para sair do lugar.

Milly Alcock faz tudo o que pode para manter a nave em funcionamento e entrega uma protagonista carismática, divertida e emocionalmente interessante. O humor continua funcionando em vários momentos, e a disposição de James Gunn em permitir que a DC abrace seu lado mais excêntrico segue sendo uma direção acertada para o estúdio.

O problema é que nem mesmo os poderes kryptonianos da personagem conseguem erguer um roteiro tão sem personalidade. Supergirl representa o suprassumo do blockbuster genérico. Uma obra construída a partir de peças já vistas inúmeras vezes, sem encontrar uma identidade ou uma razão convincente para existir além de preparar terreno para o futuro que ninguém se importa.

Em um gênero que há anos tenta provar que ainda tem algo novo a oferecer, o esse filme surge mais como um lembrete do desgaste da fórmula do que como sua salvação. No fim, Kara Danvers até consegue voar, mas o filme que a acompanha permanece preso ao solo e nem o sol amarelo brilhante de Alcock é capaz de fazê-lo alcançar as estrelas.

NOTA: 4

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