Crítica | Michael – Um moonwalk brilhante que escorrega na própria grandeza

Até que demorou para um filme sobre Michael Jackson sair do papel e, de certa forma, esse intervalo acabou favorecendo o projeto que agora chega aos cinemas pelas mãos, até certo ponto inesperadas, de Antoine Fuqua. Ainda assim, depois de uma carreira tão espetacular quanto controversa, e 17 anos após sua morte trágica, a sensação é de que adaptar a vida da maior estrela do pop de todos os tempos é quase como tentar condensar universos como Game of Thrones ou A Torre Negra: algo, por essência, extremamente difícil de domar.

A complexidade de Jackson, com suas múltiplas fases ao longo de décadas, torna evidente que Michael não se propõe a ser um retrato definitivo. Longe disso, o filme assume sua natureza de homenagem, com pinceladas de realidade cuidadosamente medidas por uma produção que evita, deliberadamente, revisitar ou aprofundar as controvérsias já amplamente conhecidas.

Isso pode soar decepcionante dentro da proposta de uma cinebiografia, mas também é uma decisão compreensível. Ao aceitar essa jornada controlada, mais interessada no espetáculo visual do que no confronto, o espectador encontra um filme menos provocativo, porém mais coeso em sua intenção: humanizar seu ídolo e dar sentido às suas singularidades. E, dentro desse recorte, pelo bem ou para o mal, faz isso com notável eficiência.

Os acertos e erros do filme

Mas, para mim, o maior problema de Michael não está em suavizar as polêmicas ou em reforçar a imagem mais doce do artista, algo que, convenhamos, sempre fez parte da figura de Michael Jackson. O que realmente pesa é a sensação de um filme previsível, apressado e, sobretudo, distante de qualquer intimidade real. O roteiro parece mais interessado em cumprir etapas do que em explorar nuances, organizando a trajetória do cantor de forma quase mecânica, sem espaço para respiração ou aprofundamento.

Há, claro, a tentativa de construir uma base para o que virá a seguir — com referências pontuais à sua condição de pele, à fixação pelo universo de Peter Pan e às questões de autoimagem que o acompanharam desde cedo. Esses elementos são importantes e até necessários, especialmente considerando que este é apenas o primeiro capítulo de uma história maior.

Ainda assim, a execução soa excessivamente protocolar: a homenagem, em diversos momentos, escancara sua intenção, enquanto o filme salta de hit em hit sem jamais mergulhar na complexidade de seu criador. O resultado é uma obra que luta para não transformar um dos artistas mais fascinantes da cultura pop em alguém surpreendentemente monótono e, em boa parte do tempo, perde essa batalha.

Claro que Michael Jackson dispensa apresentações, mas o filme parece não saber muito bem o que fazer com isso. Em vez de construir uma porta de entrada sólida para novos públicos, a narrativa se apoia quase exclusivamente em momentos que os fãs já conhecem de cor, como se estivesse cumprindo uma checklist de grandes sucessos, ou seja, é muito mais para o lado irritante e superficial de Bohemian Rhapsody do que para o lado corajoso de Better Man.

Ao final, até entendemos melhor algumas decisões, angústias e, principalmente, o peso da relação familiar, em especial com seu pai. Colman Domingo (Euphoria) entrega uma performance marcante como Joe Jackson, praticamente irreconhecível em cena, mas, ainda assim, falta ao filme a coragem de realmente nos levar para dentro da mente complexa de seu protagonista.

Por outro lado, é justo reconhecer que o longa não suaviza a figura de Joe Jackson, e isso é essencial. A relação abusiva e tóxica é retratada com clareza, evidenciando como esse ambiente moldou escolhas e feridas que acompanharam Michael ao longo da vida. Ainda assim, há um limite evidente no quanto o filme está disposto a ir.

Parte dessa abordagem mais “isentona” não parece ser apenas uma escolha criativa, mas também consequência de bastidores conturbados: mudanças de roteiro e refilmagens teriam sido necessárias após acordos legais impedirem que acusações de abuso infantil e os processos judiciais fossem abordados. Esse contexto ajuda a entender por que a obra, em muitos momentos, parece contida demais para dar conta de uma história que, por natureza, exige enfrentamento.

Pelas mãos de Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, O Protetor), um nome mais associado ao cinema de ação do que a uma cinebiografia musical, a condução visual de Michael raramente encontra o tom ideal. Há uma sensação constante de desencontro entre proposta e execução, como se as escolhas de câmera nunca acompanhassem plenamente a grandiosidade do personagem retratado. O filme se sustenta mais pela montagem ágil, que tenta imprimir ritmo e energia, do que por uma visão estética realmente coesa. Ainda assim, muitas dessas ideias visuais soam desalinhadas, enfraquecendo o impacto de momentos que pediam mais precisão e sensibilidade.

Em contrapartida, é impossível não destacar o trabalho impressionante de Jaafar Jackson, grande responsável por manter o filme de pé. Além da semelhança física, ele entrega algo que vai além de qualquer recurso técnico: uma presença de palco e uma capacidade de dança que evocam Michael com uma precisão quase inquietante. Sobrinho do cantor, Jaafar demonstra respeito, entrega e uma leitura afetiva do ídolo, o que transparece em cena.

Se no drama há pequenas limitações, nas performances musicais ele compensa com folga, incorporando gestos, energia e carisma de forma impressionante. É aquele tipo raro de escalação que parece inevitável e não por acaso, ele desponta como uma das grandes revelações do ano. Os problemas do filme passam longe de serem responsabilidade sua.

Em diversos momentos, o roteiro parece insistir demais na tentativa de humanizar seu herói, estendendo sequências pouco envolventes, como a passagem no hospital ou os conflitos repetitivos em torno das turnês dos Jackson 5, enquanto deixa escapar oportunidades preciosas de explorar, com mais força, seus momentos mais icônicos no palco. Mesmo quando chega lá, o resultado soa surpreendentemente protocolar: a recriação de “Billie Jean”, em 1983, e os bastidores da icônica “Thriller” até impressionam pela fidelidade, mas carecem de impacto, energia e emoção, tudo aquilo que definiu Michael como performer.

Veredito

O grande objetivo de Michael é bem claro: despertar empatia e reforçar a humanidade de Michael Jackson e, em certa medida, o filme consegue cumprir essa missão. Ainda assim, o resultado final escancara suas limitações. Ao optar por uma abordagem segura, quase engessada, a cinebiografia evidencia a dificuldade de dar conta de uma trajetória tão vasta e complexa dentro de um único longa. A vida de Michael parece exigir fôlego, tempo e, principalmente, coragem narrativa. Falta justamente isso: disposição para ir além da superfície e encarar, de frente, as contradições que definem o artista.

À medida que avança, o filme se perde ao construir uma versão cada vez mais simplificada, por vezes caricata, do seu protagonista, aproximando-se mais da imagem pública distorcida do que de qualquer tentativa real de compreender sua intimidade. Antoine Fuqua não consegue escapar desse caminho mais óbvio, e o encerramento precoce (justamente no auge da carreira) deixa evidente a aposta em uma continuação que terá um desafio ainda maior pela frente. O gancho está dado, mas o terreno é delicado.

O retrato apresentado se distancia do carisma genuíno que transformou Michael em um fenômeno global, dificultando uma conexão mais profunda com o público e deixando a sensação de uma obra que, apesar das boas intenções, nunca alcança a grandeza de seu personagem. No fim das contas, Michael tenta fazer o moonwalk na linha tênue entre homenagem e verdade, mas acaba escorregando no próprio brilho.

NOTA: 5/10

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