Crítica | Os Fabelmans – Uma história de origem sem capas e com o superpoder do cinema

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“Um filme é um sonho que você nunca esquece”, diz uma das frases mais sábias de Os Fabelmans, que ressalta a importância do cinema como arte, entretenimento escapista e revolução da humanidade. O que vemos nas telas são imagens em movimento, mas o que sentimos pelo corpo ao assistir um filme transcende qualquer mero fotograma criado. E este é o fluxo de sonhos, loucura e persistência que Steven Spielberg utiliza para ser seu filme autobiográfico depois de se tornar uma lenda viva.

Ao descer do pedestal em que foi merecidamente colocado, o cineasta de inúmeros clássicos mergulha no conflito família vs. arte e apresenta seu projeto mais caloroso, amoroso e pessoal, um longa que recorda sua tumultuada infância através da magia de suas próprias lentes. Tanto afeto não poderia dar em outra: o resultado é uma obra terapêutica, crua, engraçada e cativante à família, aos artistas e ao poder do cinema.

A trama e o elenco

Depois de tantos ciclos e tendências, hoje é comum ver autobiografias de cineastas que decidem penetrar à fundo em suas origens. Vimos isso em Roma, Belfast, Armageddon Time entre outros. É realmente interessante ver esses diretores renomados reviver erros cometidos no passado e os caminhos sinuosos que os trouxeram ao patamar da fama. Alguns deles acabam sendo filmes lindos e fascinantes por si só – já outros, simplesmente um exercício de ego. Por sorte, Os Fabelmans acerta em se distanciar do seu criador e contar uma história de família carregada de consciência e honestidade.

É, em sua essência mais pura, um filme sobre Steven Allan Spielberg, mas feito para ser um filme sobre perseguir seus sonhos mais absurdos, custe o que custar. E isso todos nós conseguimos nos relacionar. O diretor reescreve sua própria mitologia em vida e reconstrói detalhes e momentos de sua juventude, praticamente uma terapia em forma de filme, mas que não deixa o senso de humor de lado, no melhor estilo coming of age possível.

Na trama, acompanhamos Sammy (Gabriel LaBelle) ao longo de sua juventude, começando com a época em que ele foi ver seu primeiro filme nos cinemas e ficou completamente traumatizado por uma grande sequência de ação de O Maior Espetáculo da Terra (1952), e como permaneceu obcecado em tentar recriar aquela cena explosiva do trem descarrilhando, com seus brinquedos no quarto. Até que sua mãe, Mitzi (Michelle Williams em uma performance avassaladora), sugere que ele filme a cena para poder assisti-la repetidamente. Nasce dai então sua paixão pela arte de gravar filmes e seu olhar atento ao trabalho da direção.

Para recriar esse mundo tão particular e pessoal, Spielberg dá à família excesso de exageros e qualidades amorosas, quase como um importante lembrete ao público de que se trata de uma história idealizada e fictícia de suas memórias imperfeitas e seus conflitos familiares mal resolvidos, quase como se fosse uma versão hollywoodiana fantástica de sua própria vida – ou quem sabe a vida que gostaria de ter vivido, diferente do caos mental e do grupo disfuncional que habita as camadas mais profundas da trama. Sua mãe, por exemplo, é tratada como uma mulher infeliz e perturbada, que deseja ser livre e viver seus sonhos. Michelle Williams brilha nesse exagero criado, ainda que tenha uma entrega um pouco over, certamente proposital.

Entre uma sequência emocional e outra, muito do que vemos no roteiro é mesmo uma tentativa do cineasta de tentar compreender seus pais ao invés de olhar apenas para si e seu sonho de fazer filmes, o que pode ter acontecido na vida real. É um filme sobre a relação entre um filho idealista e uma mãe incompleta, e como a arte penetra as nossas veias desde que nascemos – mas especialmente como isso custa caro. Gabriel LaBelle, por sua vez, faz maravilhas como o adolescente protagonista, trazendo leveza e boas risadas para o papel, ainda que seja perceptível suas limitações (e o uso de uma lente de contato azul que afasta o espectador de suas emoções mais genuínas).

Após uma hora de filme, o ritmo decai bastante. O drama assume uma energia mais baixa e tenta mostrar novos aspectos da família, suas relações amorosas e a vida das crianças no colegial, se distanciando completamente daquela fase de deslumbre pelo cinema em que somos inseridos inicialmente. Nos pegamos quase em um filme teen da Netflix em certos momentos, mas um filme teen através do olhar singular de Spielberg, claro. A direção de fotografia faz brilhar as cenas de Sammy produzindo filmes caseiros, girando a câmera enquanto o adolescente corta pedaços de filme em uma máquina de edição. Isso é auxiliado por uma trilha empolgante e profundamente íntima de John Williams, com um piano que serve como uma homenagem à mãe de Spielberg.

Veredito

Muito além de uma carta de amor ao cinema, com seu íntimo e emocional Os Fabelmans, Steven Spielberg desce do trono de ser um dos maiores (senão o maior!) realizadores vivos e escreve com imagens uma verdadeira bíblia de adoração à arte que o criou. É profundo, pessoal, um belíssimo e sincero brinde aos artistas e ao poder do cinema.

O roteiro inteligente e passional mostra uma família idealizada e cheia de defeitos de fábrica, mergulha na relação entre um filho sonhador e uma mãe incompleta, mas ainda sobra espaço para senso de humor, referências icônicas e uma história de amadurecimento universal que nos faz chorar com facilidade. Um filme sobre ser artista, feito por um artista e para o lado artista que habita dentro de todos nós. O pai dos blockbusters cria sua história de origem, mas sem capas ou roupas extravagantes, cujo superpoder está mesmo na capacidade de conduzir um filme.

NOTA: 9/10

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