Crítica | Glass Onion: Um Mistério Knives Out – As camadas ousadas e divertidas de um enigma

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Ora ora, ele conseguiu mais uma vez! A genialidade de Rian Johnson (Star Wars: Os Últimos Jedi) está de volta na segunda partida do jogo que tem dado um tempero a mais ao cinema de suspense. O retorno ao universo cinematográfico de Benoit Blanc dessa vez é maior, mais ousado, mais luxuoso e tão bom – senão melhor – do que o filme original. Glass Onion: Um Mistério Knives Out (apesar do título ser absolutamente horrível) refina o estilo da franquia e estabelece sua própria visão moderna e ácida sobre como criar um mistério nas telas, misturando alegorias, estética clássica com comentários atuais e humor autoconsciente e referencial.

E muito desse brilhantismo se deve à Daniel Craig que, por sua vez, deixou 007 para oferecer o que pode ser o melhor desempenho de sua carreira até agora, cavando cada vez mais fundo para fazer de Benoit Blanc um personagem complexo e atraente, a versão mais contemporânea e espirituosa de Sherlock Holmes. Da mesma forma, Glass Onion se sente digno de ser comparado às grandes obras do gênero, pois troca a jovialidade do original por uma sequência mais divertida, porém mais raivosa e complexa.

A trama e o elenco

Antes de mais nada, vale ressaltar que o filme realmente não serve de sequência para Entre Facas e Segredos, de 2019, afinal, praticamente nada desse filme é mencionado em Glass Onion senão apenas o retorno de Craig e o mesmo estilo narrativo. O que Rian Johnson faz é praticamente um “reboot espiritual” do filme anterior, agora com o selo e a liberdade da Netflix. O roteiro abraça ainda mais os clichês das obras de Agatha Christie (uma óbvia influência), mas subverte o datado por questões sociais contemporâneas e guerra de classes, enquanto explora os absurdos e estupidez das pessoas ricas.

Se o primeiro filme girava em torno de uma recheada herança e uma protagonista que caiu de paraquedas numa briga tensa de família, Glass Onion busca não se repetir e encontra seus arquétipos na candidata ao Senado (Kathryn Hahn), a modelo sem noção que não consegue parar de tuitar calúnias raciais (Kate Hudson), um ativista dos direitos dos homens e streamer do Twitch (Dave Bautista), um cientista que trabalha em uma empresa gigante de tecnologia (Leslie Odom Jr.) e o excêntrico bilionário (Edward Norton). Também temos Janelle Monáe como a ex-sócia do bilionário – uma mulher calma e orgulhosa, que sofreu uma grande injustiça na vida.

Filmado e ambientado durante a quarentena, o longa encontra maneiras inteligentes de apresentar a pandemia de COVID à história. O enredo – meramente inspirado no filme O Fim de Sheila – acompanha esse grupo de ricos fúteis quando são convidados para uma ilha remota para uma “festa de mistério de assassinato” falsa, que acaba caindo no caos quando realmente ocorre um assassinato real.

Felizmente, há outro convidado na festa, o icônico detetive de Craig, Benoit Blanc, que é o único capaz de resolver o caso antes que mais alguém morra. Um filme sobre ambição, cobiça e falsas amizades, Glass Onion se afasta de criar um mistério raiz para brincar com as possibilidades narrativas do cinema e utiliza flashbacks e inserções para montar o inteligente quebra-cabeça da história, que está ainda mais hilária. Desta vez, a comédia é um pouco mais ampla, e as piadas aparecem com mais frequência e impacto.

Johnson, com sua visão aguçada, aproveita o novo orçamento e a liberdade criativa fornecida pela Netflix para criar uma ambientação ainda mais exagerada e luxuosa, com as típicas cafonices dos ricos. Estamos falando de uma ponte de gelo projetada por Banksy que se ergue da água, mordomos robôs, uma “cebola de vidro” literalmente gigante e toda uma trama envolvendo a Mona Lisa. Já o elenco, por sua vez, assim como no primeiro, é fenomenal. Monáe rouba a cena, enquanto Hudson é um destaque de cada momento em que ela está com seu excelente timing cômico. Craig obviamente é a estrela e proporciona um protagonista abertamente gay, inteligente, capicioso e obsessivo com suas próprias ambições e convicções.

A direção

Rian Johnson sabe muito bem mexer com as estruturas narrativas de uma trama e parece se divertir nessa construção de suspense ao criar troques de mágica que instigam nossa mente e sentidos como poucos filmes atuais. O diretor segue mostrando suas proezas como escritor e realizador, elevando ainda mais seu senso criativo. É um trabalho apaixonado, minucioso e que apenas reflete seu comprometimento com a inteligência do público, sendo meio termo entre expositivo e complexo. Esteticamente falando, é um delírio belíssimo de fotografia e cenografia, mas peca nos efeitos especiais – alguns até desconectam da trama – especialmente no desfecho explosivo.

Veredito

Fica claro que este é apenas o começo de uma franquia que parece ganhar ainda mais força a cada filme, mas Glass Onion: Um Mistério Knives Out prova que o original não foi apenas um golpe de sorte. Definitivamente a Netflix conseguiu fazer uma sequência maior, mais ousada, mais cômica e raivosa, e que melhora quase todos os aspectos positivos de seu antecessor. Como já adianta a cebola do título, Rian Johnson cria camadas cristalinas de humor ácido, crítica social e mistérios envolventes ao capturar a magia de uma boa partida de Detetive.

NOTA: 9/10

Leia também: Glass Onion | Quem é o assassino? Entenda o final do filme da Netflix


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