Crítica | A Família Addams 2: Pé na Estrada – Uma tortura das boas

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Para a nossa infelicidade e desprazer, a família que sempre se destacou nos cinemas por ser um ponto fora da curva, agora ganha seu filme mais comum possível. Em A Família Addams 2: Pé na Estrada (The Addams Family 2) – sequência direta da outra animação já não tão boa, lançada em 2019 – se apega à uma entediante aventura pelo Estados Unidos num road movie cuja fórmula parece ter sido diretamente copiada de inúmeras outras continuações que, para fazer algo maior e melhor que o filme anterior, se apega à premissa de “família de férias na estrada”.

O que falta de engenhosidade no roteiro sobra do senso de humor macabro – obviamente convencional da franquia – que, depois de um certo tempo, perde ânimo e acaba por ser um atrativo bobo apenas para o público infantil.

A trama e o elenco

Ao dar o centro do palco para a filha mais velha, Wandinha (dublada por Chloë Grace Moretz), a trama explora levianamente conflitos familiares, uma vez que a jovem pode não ser um membro original da família Addams, mas sim, ter sido adotada quando ainda era bebê.

Desse ponto, a trama mergulha numa viagem agitada por pontos turísticos dos EUA para proporcionar o bom e velho clichê da união familiar através da convivência forçada, porém, acaba mesmo é por transformar algo tão singular, estranho e por vezes sádico, na mesmice de uma típica e universal família americana.

Essa escolha de “colorir” o gótico vem desde o filme anterior, mas se solidificou ainda mais nesse segundo, já que, antes, pelo menos havia no ar uma energia similar à de obras como O Estranho Mundo de Jack, fora a evidente tentativa de replicar o estilo sombrio e inocente de diretores como Henry Selick. Agora, o máximo que podemos ter é uma versão de Família do Bagulho para crianças.

Há algumas poucas nuances de interação entre o grupo que explora um lado ainda inédito nos cinemas, especialmente da relação de Wandinha com sua mãe, Morticia (Charlize Theron) e como as raízes da família foram fundamentadas. Mas tudo é tão superficial e raso que, como sequência, o filme em si não faz nenhum serviço de “dar o próximo passo” na aventura, já que funciona isolado, uma vez que a cultura pop já nos estabeleceu previamente a personalidade de cada um e o longa dispensa maiores apresentações.

Gomez (dublado por Oscar Isaac), por outro lado, promete explorar os muitos segredos sombrios do país, mas eles mal exploram até mesmo os mais sonolentos dos lugares, ou seja, não há sustento na relação amorosa do grupo e nem mesmo na ambientação, ainda que a direção dê à narrativa um ritmo frenético. Fora tio Fester/Chico (Nick Kroll) roubar a cena como o alívio cômico principal e o mal humor (e a visão distorcida do mundo) icônico de Wandinha, as piadas são puramente esquecíveis.

A direção

Os diretores Greg Tiernan e Conrad Vernon pisam no acelerador e só freiam no desfecho. Ainda que essa agitação seja boa para manter as crianças entretidas, a trama em si se desenvolve muito apressadamente e os inúmeros personagens – assim como todo o potencial de brincar com o macabro da família – são mal aproveitados.

Há também uma falta de coerência no grupo, uma vez que a família deveria se opor apenas ao mundo externo e se manterem unidos por serem os “excluídos” da sociedade, os estranhos em um ambiente majoritariamente ordinário. Mas não, dessa vez há conflitos demais internamente e alguns bastante repetitivos, como a relação conturbada de Wandinha com seu irmão Feioso (Javon “Wanna” Walton), que segue no mesmo tom enfadonho de sempre.

Por outro lado, o aspecto visual do filme é no mínimo impressionante. Gomez nunca foi tão pouco atraente, o que se adequa melhor à intenção do personagem. O mundo e os cenários estão imbuídos de uma mistura de malevolência e espírito malicioso, ou seja, a animação 3D mostra uma significativa melhora ao comparada à de 2019.

A iluminação, as cores e a técnica estão ótimas, ainda que, mais uma vez, acabe por deixar um pouco a identidade dark da família de lado, algo como se Tim Burton dirigisse um filme de Madagascar, sabe? Mesmo assim, o visual e Bill Hader dando voz ao vilão são os pontos altos do filme.

Conclusão

Com isso, para nosso desprazer, ao tentar sair da zona de conforto e colocar os góticos mais famosos do cinema em um road movie enfadonho, A Família Addams 2: Pé na Estrada acaba por suprimir a essência e o humor macabro da franquia na busca por entregar uma sequência visualmente elegante, mas pouco engenhosa e que, por vezes, transforma a poltrona do cinema em uma cadeira elétrica de pura tortura – e não daquelas que deixaria Wandinha orgulhosa.

Ainda assim, são personagens queridos pelo público e o apelo é forte. Há momentos de comédia que devem agradar as crianças mais novas, mas é evidente que a tentativa de espremer até a última gota do sangue da franquia está precisando de uma transfusão imediatamente.

Nota: 6/10


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