Crítica | Suk Suk: Um Amor em Segredo – Retrato sensível e maduro de um relacionamento gay

Dois homens se encontram em um parque de Hong Kong e estabelecem um relacionamento. Eles estão em idade de aposentadoria, mas ambos vivem nos armários impostos pela sociedade e moram com a família – um com sua esposa, o outro com seu filho, nora e neta. Portanto, suas chances de intimidade física geralmente estão em lugares sigilosos, onde outros homens se encontram para viver algumas horas sendo eles em sua totalidade. Essa é a premissa de Suk Suk: Um Amor em Segredo, drama que está chegando ao Brasil pela Vitrine Filmes e que explora o amor na maturidade.

Entre o desejo de experimentar a liberdade e o medo da exposição pública – uma vez que a China é extremamente conservadora – os personagens vivem um doce e intenso “amor de verão”, enquanto o roteiro dilacera o coração do público.

A trama

Carregado de sentimentalismo, os personagens são extremamente reais e suas experiências são igualmente autênticas ao representar o mundo das minorias dentro das minorias, algo ainda pouco explorado no cinema. Vemos o amor acima dos 60 anos dentro da temática LGBTQIA+.

O enredo – simples e direto ao ponto – estabelece a atmosfera de solidão criada quando se esconde uma parte significativa de si mesmo por tantos anos, mas também proporciona momentos românticos puramente doces, captados com uma delicadeza surpreendente, afinal, a trama acompanha Pak (vivido por Tai Bo), um taxista que já passou da idade da aposentadoria e frequentador assíduo de um salão de chá local. O famoso “casado discreto” que não “dá pinta”.

Na outra vertente do romance temos o alegre Hoi (Ben Yuen), divorciado, pai solo e católico convertido. Depois de consumar seu conhecimento carnal, eles gradualmente desenvolvem sentimentos um pelo outro. Enquanto ambos sonham sobre um possível futuro vivendo juntos como um casal, esse salto gigante exige muito mais do que uma determinação e afeto mútuo, já que o conservadorismo ainda mantém presença forte no país e homens gays são considerados a desonra da família tradicional.

Dentro desse núcleo, o roteiro corajoso de Suk Suk: Um Amor em Segredo ainda encontra espaço para promover reflexões poderosas sobre o senso de comunidade e a divisão entre a experiência pessoal e a pública de ser gay, e, claro, alfineta a hipocrisia e a homofobia discada dos países asiáticos, onde homens gays são abandonados na velhice por suas famílias e vivem em completo exílio.

O elenco e a direção

Tanto a química da dupla quanto a performance dos protagonistas são absolutamente deliciosas. Tai Bo e Ben Yuen se entregam de cabeça aos personagens com gestos, olhares e atuações silenciosas que emocionam e passam veracidade. O trabalho de direção de Ray Yeung é tão majestoso e sofisticado, que extrai com vigor o carisma do elenco sem que haja qualquer lapso de constrangimento, especialmente nas cenas de sexo, que são feitas por um olhar sensível, respeitoso e, diga-se de passagem, satisfatoriamente sensual. Tudo isso tendo uma ótima e melancólica trilha sonora no fundo.

Aliás, o tom melancólico é a base dessa narrativa, por vezes lenta, por vezes apreciativa, que culmina em um desfecho triste, porém realista e necessário. Como um recorte destemido de um assunto com poucos holofotes, o cineasta toma a liberdade de afastar a ilusão do amor idealizado e prefere seguir pelo caminho mais denso, mais tortuoso e que se encerra de uma forma agridoce.

Certamente já estamos cansados de ver filmes LGBTQIA+ cujos finais são trágicos e a reflexão soa bem mais como um aviso do que como um “viva sua vida do seu jeito”, mas aqui a inquietação faz sentido, ainda que o drama ocupe mais tempo do que os divertidos e afetuosos momentos de romance. Ainda assim, há uma sensação de pressa em momentos silenciosos que emociona e envolve com facilidade, como se aqueles homens – que passaram anos vivendo uma vida de mentiras – só tivessem essa última chance de serem felizes por completo antes que, de fato, seja tarde demais.

Conclusão

Com isso, Suk Suk: Um Amor em Segredo é um drama belíssimo, honesto e uma representação sensível e realista de homens gays mais velhos sob o olhar de uma direção afetuosa. Com performances fantásticas do elenco, sem dúvida é um daqueles poucos filmes comoventes que partem e reconstroem seu coração durante uma jornada de amor, fragilidade e solidão que fica com a gente para sempre. Ainda que tenha uma narrativa lenta e seja um drama do cotidiano para se observar – algo que costuma afastar o público geral – está longe de ter uma trama maçante e deve emocionar até mesmo quem não está familiarizado com a comunidade LGBTQIA+. Uma obra notória, que prova que o armário é solitário para se viver e o amor tem pressa para acontecer.

Nota: 10/10

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