Crítica | Nem um Passo em Falso – Inteligente e estiloso thriller policial da HBO Max




Steven Soderbergh (Contágio) é o tipo de cineasta que você ou achará inspirador ou irritante. De fato, o nível de presunção de suas obras recentes tem atingido picos cada vez mais altos, especialmente por sua decisão polêmica (e inovadora, é claro!) de gravar filmes para o cinema através de um iPhone. Mas é inegável que grande parte dessa sobras são boas – e com frequência são ótimas, como o caso de Nem um Passo em Falso (No Sudden Move), primeiro filme original da HBO Max a estrear simultaneamente nos EUA e na América Latina. O thriller marca o retorno do diretor à plataforma após dirigir a comedia Let Them All Talk, ano passado, estrelada por Meryl Streep. Porém, ao prestar homenagens ao cinema noir dos anos 50, entrega um de seus trabalhos mais estilosos.

A trama e o elenco

Apesar de mergulhar em uma trama intrigante desde os primeiros minutos, é necessário maior envolvimento e paciência do público até o enredo engrenar e saborear a estrutura de suspense que é formada, algo que torna Nem uma Passo em Falso não tão despojada e direta como os thrillers policiais costumam ser.

Ao se afastar do ritmo de clássicos como Cães de Aluguel eOs Infiltrados, o roteiro se aproxima dessas obras por se situar em pequenos espaços e criar um jogo de desconfianças nos personagens, que converge no público e a dificuldade de confiar nos protagonistas, afinal, os vilões podem ser os mocinhos e vice e versa. Tendo como pano de fundo a corrida automobilística de Detroit em meados dos anos 50, seguimos principalmente dois criminosos, Ronald (Benicio Del Toro) e Curt (Don Cheadle), que tentam realizar o famoso “último trabalho” de que ambos precisam para escapar de um ninho complicado de criminosos e executivos automotivos, incluindo o chefão da máfia Frank Capelli (Ray Liotta) e o velho gângster rival Watkins (Bill Duke).

Nesse trabalho antes da desejada aposentadoria do crime, Curt e Ronald precisam ser babás da esposa e filhos (Amy Seimetz como esposa, Noah Jupe e Lucy Holt como filhos) de Matt (David Harbor), um mero funcionário de um escritório que sabe informações demais sobre o cofre de seu chefe. No entanto, como podemos esperar, todo o plano dá errado e o longa se transforma em uma fuga desenfreada. O roteiro explora questões interessantes sobre moralidade e ganância, apesar de sobrepor tramas paralelas dentro da narrativa central, algo que pode dar uma bagunçada na cabeça do espectador, mesmo que o interesse por cada acontecimento, de cada um dos inúmeros personagens, se mantenha sólido em boa parte do tempo, fruto de excelentes atuações que são até difíceis destacar apenas uma, mas Brendan Fraser (A Múmia) e Jon Hamm (Madmen) estão excepcionais.

A direção

De forma sábia, Steven Soderbergh (Logan Lucky – Roubo em Família) utiliza as reviravoltas para manter o público investido em todos os núcleos. São traições, falsas promessas, um verdadeiro jogo de mentiras que mantém o suspense sempre em alta. O estilo sobressalente do diretor, somado à uma lente fisheye – que distorce a imagem e deixa os cenários arredondados, dando à obra um aspecto antigo e denso – transportam a atmosfera para um ambiente neo-noir envolvente, especialmente por conta da trilha sonora constante e da marcante direção de fotografia e suas cores escuras.

Conclusão

Com isso, roteiro inteligente, eficiente e ritmo que envolve o espectador na teia de intrigas da trama são apenas algumas das inúmeras qualidades de Nem um Passo em Falso, thriller policial neo-noir que, apesar de confuso e complexo pelo excesso de personagens, é uma joia preciosa no catálogo da HBO Max. Steven Soderbergh é, senão outra coisa, um diretor com propósito, e ele faz filmes com propósito. O drama policial é talvez seu gênero melhor sucedido. Ele retorna com maestria e óbvio entusiasmo nesse que – possivelmente – pode ser seu melhor e mais maduro trabalho até então.

Nota: 9/10




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