De fato, o cinema tem se tornado algo cada vez mais seriado e planejamento tem sido a chave para o sucesso de grandes franquias. Filmes de universo compartilhado – a grande moda do momento – certamente empolgam o espectador, mas, ao mesmo tempo, possuem enorme responsabilidade, afinal, acompanhamos uma trama por anos, em diferentes contextos, e o mínimo que podemos esperar é seu crescimento, tanto em qualidade quanto em desenvolvimento. Não é mesmo? Algo que começou lá em 2014, com o ambicioso, porém pé no chão Godzilla, de Gareth Edwards, agora (finalmente!) chega no seu grande ápice com a colisão de criaturas mais aguardada dos últimos anos, Godzilla vs. Kong.

Mas a trajetória até aqui não foi nada fácil. Nesse meio caminho, o Monstroverso da Legendary Pictures passou por triunfos – no caso de Kong: Ilha da Caveira – e por pontos baixíssimos – com Godzilla 2: O Rei dos Monstros – porém, uma coisa é certa, a grandiosidade sempre esteve em crescimento constante e, para alegria de todos os fãs mais apaixonados, o confronto culmina na obra mais espetacular e fora da caixinha até então, ou seja, exatamente tudo aquilo que podemos esperar de um filme cujo título possui dois dos maiores ícones da história do cinema.

O clímax mais aguardado

A difícil tarefa de reunir personagens de todos os filmes da franquia é realmente um dos pontos mais baixos de Godzilla vs Kong. Além de trazer parte do elenco de Godzilla 2 de volta e, infelizmente, ignorar muitos dos filmes anteriores, o roteiro cisma em inserir novos personagens na trama, que até funcionam, mas que acabam deixando o núcleo humano cansativo e, inesperadamente, sem graça. Especialmente pela presença de alívios cômicos bobinhos e o desperdício de talento de nomes como Millie Bobby Brown (Stranger Things), que teve papel interessante no filme anterior mas que aqui sua presença não faz a menor diferença, afinal, o espectador quer mesmo é ver luta de gigantes e, sabendo disso, o roteiro pula, de forma perspicaz, algumas etapas de desenvolvimento de personagens para focar em três enormes e espetaculares rounds de briga entre os dois Titãs.

Sem perder tempo com relações humanas, de fato, o roteiro perde um pouco do seu valor, mas, sabendo que esse é o clímax de uma trama que começou cerca de 7 anos atrás, faz sentido partir mesmo para o confronto, mesmo que muita coisa (e põe muita nisso!) esteja acontecendo de forma simultânea na história. O enredo, dessa vez ainda mais futurista e sci-fi que antes, não foca tanto no suspense das criaturas mas sim na ação desenfreada e no show de efeitos especiais que destroem Hong Kong por completa. Aliás, a fotografia neon, que transforma a cidade em um palco lindamente iluminado, dá um charme excepcional à obra.

Agora, com muita alegria, conseguimos enxergar o quebra pau claramente, mesmo durante a noite, algo que foi um enorme problema em Godzilla 2 com seu excesso de neblina e fumaça que não dava para entender nada do que estava acontecendo em cena. Por outro lado, nessas lacunas das lutas espetaculares, acompanhamos algumas narrativas paralelas, como a da menina órfão que possui forte relação com Kong e, dessa forma, humaniza o gorilão e o coloca como ponto central e indispensável da história. Quem diria? O longa é muito mais sobre seu reinado do que sobre o mecanismo de defesa global que é Godzilla.

A direção dá um show

Há muita assertividade acontecendo em Godzilla vs Kong em relação aos erros cometidos pelos filmes anteriores. Tanto a trilha sonora épica quanto o desenho de som, estão impecáveis e realmente colocam o espectador dentro desse universo onde somos minúsculos. A ambientação extraordinária do núcleo da Terra e as belíssimas cores de todos os cenários dão ao longa um estilo surpreendentemente original, mas que mesclam – com muita maestria – a identidade visual dos filmes anteriores. O verde e o abafado clima de Ilha da Caveira encontram espaço no neon e caótico mundo de Godzilla. E essa mistura proporciona um dos espetáculos visuais mais elegantes dos últimos anos, sem contar, claro, a ação de cair o queixo.

Louvado seja a empolgação do diretor Adam Wingard e sua condução enérgica e estonteante das lutas colossais. Depois de ser o responsável pela porcaria que foi Death Note, da Netflix, a redenção chega com força e seu trabalho aqui é um deslumbre por completo. A câmera flutua, gira e dá cambalhotas entre os socos grandiosos. Ótimo aproveitamento dos quadros e que não teme, de forma alguma, destruir tudo que existe ao redor para que a dupla de gigantes possa ter uma luta intensa. Quando o terceiro round está em andamento, eis que surge o tão aguardado Mechagodzilla para colocar ainda mais lenha na fogueira e, felizmente, unir os inimigos mortais em prol de algo mais destrutivo. Mas Ok, convenhamos que há sim falhas na estrutura da trama e que o roteiro, precário em qualidade, aposta todas as fichas na técnica para surpreender e ofuscar seus deslizes. Se isso passa despercebido, bom, aí já é outra história.

Conclusão

Dessa forma, as monumentais cenas de ação salvam o enredo pouco inspirado de Godzilla vs Kong, que entrega um absurdo clímax de quase 2 horas de duração do mais puro suco extraído do melhor que o cinema blockbuster pode nos proporcionar. De fato, entrega o espetáculo que promete e ainda mergulha profundamente na mitologia dos monstros que tanto amamos, enquanto dá fôlego extra para a franquia ter vida longa. Apesar de renunciar a um núcleo humano mais inteligente e sensível, o roteiro aposta no confronto e é distrativo e imersivo de tal maneira, que os problemas podem ser perdoados dessa vez. O mundo necessita tanto de entretenimento nesse momento caótico e dolorido, que vale sentar e apreciar essa preciosa diversão de proporções épicas.

Nota: 8/10

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