A simplicidade de Meu Pai (The Father), indicado ao Oscar 2021, é também seu maior triunfo. Com um roteiro perspicaz, o drama prende o espectador nos labirintos da mente do protagonista e proporciona uma jornada intensa e dolorosa por suas memórias mais intrínsecas. Em apenas um ambiente, e com nuances teatrais, a trama propositalmente nos envolve em um emaranhado de situações que se alternam drasticamente para que possamos vivenciar as mesmas confusões mentais que o personagem e, com isso, sentir sua solidão e angústia. Poucas obras alcançam um patamar tão íntimo e honesto como esta e tudo se deve, claro, à força espetacular de Anthony Hopkins e seu natural magnetismo.

A trama e o elenco

Na premissa, escrita e dirigida por Florian Zeller, acompanhamos a rotina de Anthony (Anthony Hopkins), um senhor que mora sozinho em um confortável apartamento de Londres e que se gaba por não depender de ninguém em sua velhice. No entanto, entre uma visita de sua filha e outra, percebe que sua realidade está sendo alterada e lapsos de memória estão por confundir sua cabeça. Estaria enlouquecendo ou tudo não passa de um plano da família para tirá-lo de casa? Com o passar dos dias, Anthony não sabe mais o que é real e o que não é e nós, espectadores, enxergamos a trama através de seus olhos e suas confusões, ou seja, acompanhamos um narrador não-confiável em uma aventura bastante desconfortante dentro das memórias do personagem.

A troca criativa de elenco coadjuvante uma cena sim e outra não transforma o lugar em um verdadeiro palco de teatro. Desde a iluminação pontual, até o entra e sai de atores, tudo colabora para que a narrativa tenha ares de peça filmada e essa genialidade definitivamente envolve e intriga. A casa, por si só, já é uma importante personagem, que serve de base para construção da atmosfera solitária e vazia do protagonista, quase como se o lugar claustrofóbico, sempre à meia-luz, fosse a mente de Anthony entrando em total colapso e nos levando junto com ela para o fundo escuro desse poço.

No entanto, para que o enredo possa funcionar, é necessário que a entrega seja igualmente intensa, algo que Hopkins faz com perfeição na performance mais comovente de sua carreira. O personagem é doce e cruel ao mesmo tempo e o ator sustenta nas costas o peso do drama como se fosse uma simples caixinha de fósforos. Claro que a inigualável Olivia Colman (The Crown) também não fica para trás e sua energia complementa a emoção da história. A química da dupla, que vive pai e filha, é tão absurdamente conectada, que chega hipnotizar.

A direção

Tanto o trabalho de montagem quanto o de direção são cruciais para que a trama se mantenha em alta e surpreenda a cada nova reviravolta. O real se mescla com o imaginário e a montagem não-linear dá um verdadeiro nó em nossas cabeças. Florian Zeller e seu olhar sensível mergulha nas possibilidades de contar uma história sobre esquecimento com todas as artimanhas que o cinema oferece, porém, ainda encontra espaço para desenvolver as personagens e seus temores de maneira emotiva e comprometida.

Ainda que seja uma obra enraizada no drama humano, o tom sombrio e realista de Meu Pai atinge o coração com a precisão de uma faca e, aos poucos, tortura nosso emocional até culminar em um desfecho belíssimo e tristemente comovente. No fim, somos lembrados que, como parte da natureza, deixaremos de existir em algum ponto e nossas experiências serão apenas folhas de outono despencando das árvores e voando rumo ao desconhecido.

Conclusão

Com isso, Meu Pai é uma visão assombrosa e devastadora da demência, feito de forma tão inteligente e crua, que você experimentará a sensação de estar perdendo sua memória. De quebra, ainda conta com a melhor performance de Anthony Hopkins desde O Silêncio dos Inocentes. Definitivamente, um filme que valoriza a simplicidade de seu roteiro, que dá liberdade para o elenco brilhar sem barreiras e que surpreende em tudo que se propõe fazer. A obra-prima do ano e que será difícil ser superada tão facilmente.

Nota: 10/10

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