Da série: as maravilhas peculiares que somente o cinema pode proporcionar, o drama One Night in Miami… imagina como teria sido o encontro hipotético de quatro grandes nomes da cultura negra em um quarto de hotel na década de 1960, e como essa colisão de ideias poderia ter mudado, para sempre, suas histórias. Acontece que esse encontro nunca houve e o roteiro trabalha, com bastante sensibilidade e maestria, as inúmeras possibilidades de conversas e debates sobre os diferentes aspectos da vida, partindo de mentes geniais, afinal, se Malcolm X, Muhammad Ali, Jim Brown e Sam Cooke pudessem se reunir em um mesmo lugar, por uma noite, o que teria nascido disso e como esse encontro entre amigos afetaria as lacunas da vida de cada um deles? Essa é a premissa genial e poderosa, que presta uma impecável homenagem à comunidade negra e seus icônicos líderes.

A trama e o elenco

Ao partir dessa premissa simples, porém eficiente, a trama acompanha alguns momentos da vida desses grandes nomes, que estavam em alta nos anos 60, e segue para imaginar o tal encontro espetacular no quarto de hotel. Sem muitas firulas, a trama compreende que seu forte está mesmo no poderoso texto e na originalidade de seu roteiro (escrito por Kemp Powers, da animação da Pixar, Soul) e, como uma boa peça de teatro, foca suas energias tanto nos longos diálogos quanto nas performances do elenco. Cada frase, de cada um dos protagonistas, nos propõe reflexões fortes sobre religião, amizade, racismo e a hipocrisia dos brancos em consumir e se apropriar da cultura negra, seja na música ou nos esportes, mas não permitir que negros possam entrar em suas casas. Na época em que a segregação racial estava em seu auge, no centro dessa trama temos Malcolm X (vivido pelo excelente Kingsley Ben-Adir), que funciona como instigador de diálogos e move a trama pra frente com suas ideologias e revoltas sobre a forma como negros são tratados e como suas vozes são oprimidas. Assim como o recente The Boys in the Band está para a comunidade LGBTQ+, One Night In Miami… parte do mesmo princípio e expõe, de forma nua e crua, diálogos profundos entre homens que estão descobrindo seus propósitos na sociedade.

O elenco, por sua vez, acerta em dividir o protagonismo entre o quarteto e, mais que isso, utiliza corretamente os clichês e estereótipos para construir as personalidades dessas entidades e suas diferenças de pensamentos. Ainda que sejam quatro homens negros no mesmo contexto social, eles possuem diferentes pontos de vista sobre a vida e é exatamente isso que serve de massa, que dá liga à receita sem desandar. Leslie Odom Jr. (Hamilton), Eli Goree (The 100) e Aldis Hodge (O Homem Invisível) completam o time e possuem uma fantástica química juntos em cena. Essa dinâmica entre eles definitivamente está repleta de ápices dramáticos e envolve o espectador do começo ao fim. E, ainda que haja bastante drama, há espaço para o humor florescer e o roteiro e a direção, claro, semelhante ao realismo de filmes como Antes do Pôr do Sol, equilibram com vigor a atmosfera da obra. As vezes densa e desconfortante, as vezes divertida e prazerosa, mas nunca desanimada ou entediante.

A direção

Incrível como a atriz Regina King (Watchmen) consegue captar tão perfeitamente a essência de cada um dos personagens em sua estreia na direção de um longa-metragem. Seu olhar sensível, porém, rebuscado e incisivo, é a engrenagem que faz a obra se construir sem perder ritmo ou cair em suas próprias artimanhas. Quando a direção se foca nas atuações e na dinâmica entre o grupo em um quarto pequeno e ordinário de um hotel qualquer, e, ainda assim, a trama assume proporções colossais dentro de sua premissa básica, é aí que percebemos que King não apenas faz um trabalho passional, como também sabe exatamente onde deseja chegar e não se deixa levar pela cobiça de ser algo além disso. Sem medo de explorar esse ambiente e tocar em feridas, a direção e o roteiro trabalham juntos para entregar essa carta de amor aberta à cultura negra. Fora isso, a caracterização da década de 60 está impecável, tanto nas cores amareladas da fotografia quanto nos penteados e figurinos da época. A direção de arte é puro deslumbre visual.

No entanto, ainda que tudo funcione muito bem e que a mensagem final acerte o público no coração, o único problema com este filme, além, claro, de serem conversas hipotéticas, é que os personagens não estavam agindo como eles próprios em certos momentos. O que vemos é uma versão simplificada de Hollywood dessas celebridades complexas e, ainda que a direção saiba ofuscar essa falta de profundidade por conta talvez da duração do longa e/ou por haver muitos personagens, deixa a sensação de que em alguns pontos está superficial demais e desperdiça a chance de se aprofundar em outras camadas, assim como mostrar dualidades mais intensas.

Conclusão

Através disso, One Night in Miami… impressiona com a sensibilidade e frescor de um roteiro poderoso e criativo, que entrega uma verdadeira aula de história americana ao imaginar o encontro fictício de influentes líderes negros no auge da segregação racial. Uma noite de diálogos fortes, atuações impecáveis e uma direção estratégica de Regina King em sua estreia no cargo. Bonito e estilizado, informativo, embora não seja enfadonho. A celebração definitiva ao homem negro e sua importância histórica.

Nota: 9/10

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