Quando o assunto é Cidadão Kane (1941), o qual talvez seja um dos filmes mais importantes para a história do cinema, logo se faz a conexão com um grande nome da sétima arte: Orson Welles. O artista foi responsável por produzir, dirigir e protagonizar o longa que eternizou a misteriosa palavra “Rosebud”. Entretanto, por mais que Welles receba a maior parte dos créditos por Cidadão Kane, a grande mente por trás do roteiro do filme foi um homem chamado Herman J. Mankiewicz, ou simplesmente Mank

É justamente sobre essa figura que se trata o novo filme de David Fincher, diretor de grandes sucessos como O Clube da Luta (1999) e A Rede Social (2010). Sua nova obra em parceria com a Netflix nos leva através de uma viagem pela Hollywood dos anos 30 e 40, passando pelos bastidores da produção de Cidadão Kane. Ao longo da trama, acompanhamos o processo de escrita do roteiro do filme que mudaria a história do cinema, assim como as inspirações de Mankiewicz (Gary Oldman) para o longa e sua luta pelos créditos do roteiro. 

Filmado em preto e branco, Mank tem uma estrutura narrativa muito similar a de Cidadão Kane, utilizando-se o tempo todo de flashbacks para contar a história de Mankiewicz. Entretanto, por mais que se apresente como um longa biográfico, o filme faz um recorte bem preciso na vida de Mank, focando nos episódios de sua vida que foram cruciais para o desenvolvimento do roteiro de Cidadão Kane. Sendo assim, a obra de Fincher acaba sendo mais um filme sobre “fazer filmes” do que uma biografia propriamente dita. 

Isso, porém, não significa que o protagonista é desprovido de profundidade ou seja desinteressante. As aflições, inspirações e falhas de Mank se fazem presentes e são muito bem transmitidas por mais uma performance louvável de Gary Oldman. Mankiewicz se mostra um personagem extremamente interessante e consegue se conectar com o espectador, funcionando como intermédio entre os acontecimentos na Hollywood da época e o roteiro de ‘Kane’. 

A força do roteiro de Mank, porém, está bastante atrelada ao legado deixado por Cidadão Kane. O tempo todo a conexão entre os dois longas é trazida à tona, conectando a vida de Mankiewicz com o filme de Welles. Nesse sentido, o filme acaba se tornando dependente do longa de 1941. Alguém que não esteja familiarizado com Cidadão Kane certamente não tirará o melhor proveito possível do longa de Fincher, mas desfrutará de um filme extremamente carismático que é conduzido em um ritmo muito instigante. 

Por mais que seja muito bem executada, a ideia de Fincher para o longa não é exatamente original ou revolucionária. Uma vez que o diretor opta por uma estrutura extremamente similar a do próprio Cidadão Kane, utilizando-se de flashbacks para justificar as escolhas de Mank para o roteiro do filme, a impressão que fica é a de que o que está sendo apresentado já foi visto anteriormente. 

Além disso, filmes menos pretensiosos já fizeram algo parecido com o longa de Fincher. Assistindo Mank lembrei muito de Walt nos Bastidores de Mary Poppins (2013), por exemplo. No longa, assim como em Mank, acompanhamos por meio de flashbacks os momentos decisivos na vida da escritora P. L. Travers, os quais foram fundamentais para a criação dos livros de Mary Poppins que seriam a base do musical de Walt Disney. Nesse sentido, Mank não é novidade, sendo mais favorecido por toda a técnica envolvida na produção do filme e também pelo ótimo trabalho do elenco.

Uma vez que estamos falando sobre um filme biográfico que também fala sobre Hollywood, temas muito valorizados pela Academia, pode-se dizer que Mank é uma das grandes apostas para a próxima temporada de premiações. No geral, David Fincher consegue trabalhar de forma muito satisfatória o roteiro escrito por ser pai, Jack Fincher, nos anos 90. O resultado disso é um estudo muito interessante sobre o processo de escrita de Cidadão Kane. Um filme que, apesar de não ser uma grande referência no quesito originalidade, se consagra por uma direção muito competente e pelo trabalho memorável de seu ator principal. 

Nota: 8,5/10

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