O cinema brasileiro, apesar de toda qualidade narrativa que possui, tem certo delay em relação ao cinema mundial e isso pode ser comprovado quando ‘Tudo Bem No Natal Que Vem’, nova produção da Netflix, é o primeiro filme (em live-action) com a temática natalina feito no país. Sim, mais de 100 anos de história do cinema e só agora o Brasil apostou no subgênero que marcou a vida de muitos espectadores e que, até hoje, tem forte apelo popular: os filmes de datas comemorativas. Sobre isso, felizmente, a comédia acerta ao explorar um Natal nacional bem típico e faz pensar em como ninguém apostou nessa premissa antes, já que a maneira como comemoramos a data por aqui é tão singular.

A trama e o roteiro

Apesar de disfarçar e não se sentir confortável em assumir algumas raízes, o enredo é bom, mas, inevitavelmente, se apropria de premissas já existentes e clássicos natalinos da década de 1990. O roteiro de ‘Tudo Bem No Natal Que Vem’ não inventa a roda e tão pouco se preocupa com isso, mas sua história navega entre a dramédia ‘A Felicidade Não Se Compra’ e a ficção científica de obras como ‘Feitiço do Tempo’, ‘Click’ eA Morte Te Dá Parabéns. Dessa salada de frutas com uva passa nasce uma trama sólida, que acompanha a empreitada em que Jorge (vivido por Leandro Hassum) se envolve após ser “amaldiçoado” por não dar valor ao espírito natalino. Fadado a lembrar apenas da véspera da data, ele viaja para 10 anos no futuro e precisa lidar com todas as mudanças de sua vida, enquanto percebe o real significado do feriado em família.

No clima quente e claustrofóbico dessa época do ano no Rio de Janeiro, o roteiro esbanja diversão ao mergulhar em todas as singularidades de um Natal fora do eixo estrangeiro, que estamos acostumados a consumir. Os mercados abarrotados, as brigas em família, o calor de uma cidade tropical, todos esses elementos funcionam perfeitamente para gerar atritos e desavenças que enriquecem as piadas sobre a banalização da data comemorativa e a robotização das pessoas em, todo ano, seguir as mesmas tradições. A clássica expressão “eu nem vi o ano passar” é o ingrediente que dá liga à trama, assim como o trabalho exagerado e carregado de improviso de Leandro Hassum, o nosso Adam Sandler brasileiro (ou seria Sandler o Hassum americano?). O ator segue ótimo, como de costume, mesmo que extrapole em alguns momentos. Seu humor funciona para a construção de um protagonista “paizão” e piadista tipicamente brasileiro. Destaque também para a presença divertida de Danielle Winits e para a química boa da dupla em cena.

A direção e o roteiro

O roteiro de Paulo Cursino (O Candidato Honesto) é feliz na atmosfera que constrói, carregada de referências natalinas, mas dentro de um contexto de fácil identificação do público. Há uma boa evolução de personagens e, conforme a trama de ‘Tudo Bem No Natal Que Vem’ avança, mais dramática se torna, ainda que soe artificial em alguns pontos, como por exemplo, na passagem de tempo, que deixa buracos inexplicáveis e desequilibra algumas relações. Quando Jorge decide acordar com a mentalidade de 2010 em 2020, o choque cultural é raso e poderia ter sido mais bem explorado. Sua reação com o futuro também teria rendido mais humor através da estranheza.

Fora isso, as piadas são boas em sua grande maioria. Outro detalhe é que faltou assumir as referencias sem medo de prestar homenagens, tanto à vibe dos clássicos dos anos 90, quanto ao fato de um filme como esse ainda não ter sido realizado no Brasil. A sensação é de que a história navega nessa maré, mas não quer fazer parte dela por, talvez, se levar à sério demais. Já a condução de Roberto Santucci (Até que a Sorte nos Separe) é enérgica, animada e condizente com o ritmo apressado da trama. Apesar do humor ocupar grande parte da projeção, o diretor sabe trabalhar o drama e mantê-lo presente nas mensagens de união, amor e perdão, típicas dessas obras natalinas.

Conclusão

Apesar da demora para o cinema brasileiro acreditar que filmes natalinos são puro entretenimento distrativo, a espera compensa com o bom humor de ‘Tudo Bem No Natal Que Vem’, que explora as peculiaridades dessa data fora da atmosfera de magia convencional e ainda sobra espaço para divertir, por conta de um Leandro Hassum espirituoso e que esbanja carisma. Apesar do roteiro ter sua estrutura básica baseada em tantos clássicos que marcaram época, a comédia da Netflix se sai bem no que propõe e abre inúmeras possibilidade para abordar o espírito natalino em um país tropical, caótico e despreocupado com vida como o nosso.

Nota: 7

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