Existem histórias que transcendem o tempo e servem de base para diversos caminhos que a sociedade decide tomar nos anos seguintes. Uma dessas histórias, sem dúvida, é o julgamento real de homens acusados de conspiração após tumultos em protestos ocorridos em Chicago, em 1968, que inspira o filme Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7), época em que a segregação racial e a violência policial estavam em seu auge (se é que um dia deixaram de estar) e as revoluções sociais tomavam conta do mundo, seja no cinema, na moda ou na liberdade feminina.

Dentro desse contexto riquíssimo em aprendizado, a produção da Netflix constrói, com bastante maestria, um cenário caótico, onde a justiça enxerga apenas o que lhe convém e, com isso, emociona, através dos absurdos de uma trama que ainda, tristemente, funciona muito bem nos dias atuais.

A trama e o elenco

Como um perfeito drama de tribunal, na vibe do clássico ‘12 Homens e uma Sentença’, com o humor ácido, que lembra as obras de Adam McKay (Vice), a trama explora os sete homens do título e mais alguns personagens fundamentais para o entendimento de como um movimento social pró-democracia foi desmantelado por um juiz completamente insano e conservador. De forma eficaz e criativa, o longa consegue estabelecer todo o contexto da história em pouco menos de 5 minutos e já prepara o espectador para uma trama repleta de conspirações, nuances e injustiças, mas feita de forma até mesmo cômica em sua grande maioria do tempo.

Na proposta, baseada em um terrível acontecimento real, um grupo de homens são presos e levados ao tribunal após organizar um importante protesto, que era para ser pacífico, no centro de Chicago. Acontece que o mega-evento deu errado e um confronto violento com a polícia deixou centenas de feridos. Os tais “agentes da revolução” se tornam, então, mártires para que o governo e polícia pudesse “dar uma lição” nos manifestantes, como forma de impor respeito e medo.

O elenco é composto por grandes nomes do cinema, mas destaque mesmo fica para o impecável Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen), o ótimo Eddie Redmayne (Animais Fantásticos) e o hilário Sacha Baron Cohen (Borat). No entanto, todos estão perfeitos em seus determinados papéis e, ao contrário de outro filme desse ano, o O Diabo de Cada Dia, aqui, todo mundo tem sua função narrativa e todos possuem tempo para brilhar.

Cada um dos personagens movem a trama para frente, feita com bastante criatividade e inteligência por Aaron Sorkin (de filmes como ‘A Grande Jogada’, ‘Steve Jobs’ e ‘A Rede Social’), um diretor que consegue contornar alguns problemas de excesso de elenco com uma montagem dinâmica e enérgica, feita para podar exageros e elementos que não contribuem com a história. Sobra então um enredo envolvente e engenhoso, que remonta um momento complexo, através de uma linguagem acessível, divertida e que sabe o momento de pesar no drama emotivo.

Roteiro

Além de atuações marcantes e uma direção poderosa, a parte técnica também se destaca através de uma caracterização e atmosfera perfeitas do final dos anos 60. A direção de arte e figurino são ricas em detalhes. Outro destaque, talvez o mais crucial até então, está na forma de como o roteiro, bem escrito, consegue dosar o humor com o drama e mergulhar, com bastante sensibilidade, em questões sérias como racismo, violência policial e discriminação, fator esse que faz o filme dialogar diretamente com os movimentos antirracistas desse ano e com a luta da população para que a democracia seja mantida e respeitada, especialmente nos Estados Unidos caótico de Trump e no Brasil surreal de Bolsonaro.

Conclusão

Com isso, ‘Os 7 de Chicago’ é uma ótima surpresa da Netflix em um ano sem grandes destaques. Um drama tribunal envolvente e impactante, que dialoga diretamente com os dilemas do mundo atual e que não nos deixa esquecer de como a justiça pode sim enxergar, mas, infelizmente, apenas aqueles que lhe convém defender. Esse filme vai fazer você rir, se emocionar e, certamente, querer levantar e ir revolucionar por aí.

Avaliação: 4.5 de 5.

Nota: 9

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