Desde que estreou na Netflix, o suspense psicológico ‘Estou Pensando em Acabar com Tudo’, do diretor Charlie Kaufman (que escreveu ‘Quero Ser John Malkovich’ e ‘Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças’), baseado na obra do autor canadense Iain Reid, tem bugado a mente dos assinantes e, pensando nisso, decidimos vir aqui dar uma luz para entender os caminhos estranhos do filme e o significado de seu bizarro final. Se você ficou com a pergunta: “Que p*rra foi essa que eu acabei de assistir?”, esse texto é para você.

Mas antes, que tal ler nossa crítica completa do filme, onde analisamos cada detalhe do intuito do diretor na obra? Para isso, basta clicar aqui.

Então vamos lá! Como já citado, o filme é uma adaptação do livro ‘I’m Thinking of Ending Things’, do autor Iain Reid e, assim como o best-seller, há uma gama enorme de interpretações para seu final e para a trama como um todo, mas neste artigo iremos dar uma clareada nos significados ocultos, que podem servir para que você, que amou o filme mas não entendeu bulhufas, possa compreender alguns fatos.

A trama na superfície

Para começar, é preciso entender que o filme trata-se de um romance diferenciado, que desconstrói e brinca com os clichês do gênero. Ao invés de acompanharmos um casal que está se apaixonando, seguimos Lucy e Jake, um casal que está muito próximo de terminar (se é que já não terminaram!) e acabou caindo no comodismo da relação. Enquanto parte para uma viagem interminável para o interior, para conhecer os pais de Jake, Lucy está pensando em terminar seu namoro por não se sentir mais apaixonada por ele. Mas isso é a parte do roteiro que está pra fora do oceano, é o que vemos na trama, já que todos os significados e metáforas estão submersos nas profundezas da história e na forma como o diretor quebra as regras do cinema para narrar.

A descida é profunda e sombria

Durante as cenas longas de conversas entre o casal sobre filmes, teorias da vida, morte e etc, Lucy sempre parece bem distante (por estar desejando terminar o namoro, talvez), mas é importante notar que Jake parece, de alguma forma, ler seus pensamentos. Nesse meio tempo, vemos algumas cenas desconexas de um zelador de um colégio seguindo sua rotina. Já na casa dos pais, as coisas ficam cada vez mais estranhas e Jake fala sobre sua infância, porcos mortos, um porão que não pode ser aberto e um jantar absolutamente desconexo e constrangedor de ser assistido. Enquanto isso, o zelador assiste uma comédia romântica no seu horário de almoço e as cenas são intercaladas entre esses dois núcleos.

Vale notar que o cachorro desaparece (depois vemos as cinzas dele em um vaso) e Lucy vê uma foto sua na parede, de quando era criança, porém essa imagem se transforma em um menino, parecido com Jake. Até aí tudo estranhamente confuso, mas calma, vale prestar atenção como o diretor está constantemente mostrando uma ligação entre os dois protagonistas, como se eles fossem, de fato, a mesma pessoa. À partir desse ponto, o filme brinca com a passagem de tempo, tanto para o futuro (com os pais de Jake bem velhinhos) quanto para o passado (talvez por volta dos anos 60), algo que confunde ainda mais a cabeça do espectador. Quando Lucy finalmente entra no porão, ela descobre obras de arte muito parecidas com as que ela mesma faz, trancafiadas por lá (mais um sinal da ligação entre os dois!).

A trama avança e o casal se despede dos pais e vão para estrada novamente. Jake sente um forte desejo de tomar sorvete (sim, mesmo com todo o frio absurdo do lugar) e eles param em um estabelecimento bizarro, no meio do nada, para comprar. No lugar, Lucy conversa com uma moça tímida, com as mãos machucadas, que diz coisas confusas como “você não deveria estar aqui” e “você precisa avançar no tempo”. Já na escola, após uma parada para Jake jogar o sorvete fora e desaparecer, Lucy encontra um lixo repleto de copos de sorvete e, dentro do lugar, conversa com o zelador (finalmente!) e desabafa sobre ter começado a namorar Jake por não saber dizer não. Daí, começa uma cena SURREAL de dança por aproximadamente 6 minutos, que mostra um casal (com as mesmas roupas dos protagonistas) se casando e até mesmo morrendo pela mãos de um zelador malvado, enquanto o zelador que acompanhamos desdo o começo, o mais velho, está em seu carro, num momento que parece ser “no mundo real”, se recordando das brigas de seus pais, quando finalmente temos a resposta de que esse senhor é, na realidade, o próprio Jake. Na última cena temos um número musical maluco, com todos os personagens envelhecidos com uma maquiagem propositalmente falsa. Nesse ponto, Jake parece receber um prêmio e canta uma canção de seu musical favorito: ‘Oklahoma!’.

Ok, agora relembrando todos esses detalhes, vamos para interpretações.

Tudo está na mente

Uma das interpretações do livro (que também se aplica ao filme) é de como o tempo na história funciona de forma estranha, como se estivéssemos assistindo as lembranças de alguém ao longo de anos e anos de vida. E sim, esse é o caminho para entender que tudo que vemos, os personagens em diferentes anos, na realidade, é a memória do próprio Jake sobre detalhes que viveu, como o fato de ter namorado diferentes meninas (por isso ele chama a Lucy de diferentes nomes e diz que ela tem diferentes profissões ao longo do filme) e a velhice de seus pais, por exemplo. Sem contar as diferentes histórias de como eles se conheceram, algo que muda a cada nova citação, levando a crer que, na realidade, Lucy representa, em sua mente, diversos amores que já teve, ou seja, toda a história bizarra que acompanhamos é dessa forma estranha e esquisita exatamente por se passar dentro da memória de um personagem (quase que um sonho/pesadelo), algo que também justifica cortes bruscos e ausência de detalhes (como, de fato, é a nossa memória sobre o passado, repleta de lacunas).

Como sabemos, Jake é o zelador e as cenas com esse senhor são as únicas que se passam no “mundo real”, fora da mente de Jake, no caso. O zelador gosta de musicais (e até para pra assistir um na escola), ama comédias românticas e tem todas as nuances de personalidade que Jake demonstra ao longo da trama. Além disso, o zelador mora na mesma casa que vemos os pais de Jake. Há uma cena que sua garrafa térmica é vista nas “memórias”, em uma gaveta lotada de térmicas, e as roupas que Lucy encontra na máquina de lavar, no porão, são uniformes do zelador. Ou seja, Jake é o zelador sem sombra de dúvida e o filme trata-se dele revivendo suas lembranças.

Mas a Lucy é real?

Há também uma forma interessante de ver a trama do filme como se Lucy fosse o próprio Jake. Como havia dito anteriormente, o diretor cria uma ligação estranha entre os dois e faz parecer que eles sejam a mesma pessoa, no melhor estilo ‘Clube da Luta’. Dessa forma, Lucy não existiria, pois ela é apenas uma versão de Jake que está revivendo as lembranças do passado e guiando o espectador como se fosse um “avatar”, já que há indícios fortes de que Jake tem algum transtorno de personalidade, com múltiplas personalidades vivendo em sua cabeça (tipo ‘Fragmentado’). Lembra da menina tímida da sorveteria? Então, talvez ela também seja parte da mente de Jake, já que ambos tem a mesma alergia nas mãos.

Mas e a dança? O porco de animação? Tudo faz parte da mente de Jake brincando com ele mesmo. O porco diz que ele é “um porco”, certamente se referindo à forma machista de como ele tratou as mulheres em sua vida. A cena da dança, que mostra o zelador esfaqueando outro homem, pode representar como ele é um sujeito agressivo, violento e, por conta disso, está solitário em sua velhice, sem amigos ou família, exatamente por ter sido uma pessoa “ruim”. Sem contar que há também indícios de que ele tenha abusado sexualmente de alguém no passado. Já a última cena, no musical, Jake canta que só desejava ter uma mulher para chamar de sua e, dessa forma, aquele pode ser o seu momento de redenção e morte. As pessoas que já passaram em sua vida aplaudem com alegria pois ele, “finalmente”, se suicidou após anos de solidão e tristeza.

E aí, o que achou dessa explicação? Conte para nós nos comentários! ‘Estou Pensando em Acabar com Tudo’ já está disponível na Netflix.

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