Um dos pontos fortes do terror ‘O Segredo da Floresta’ (Behind the Trees), que está chegando às plataformas de streaming no Brasil essa semana, é a sua mudança de ambientação, que sai do convencional ocidente e parte para explorar rituais e crenças da Índia que, assim como o Brasil, possui um folclore rico em histórias de criaturas assustadoras. Essa mudança de ares traz também um elenco totalmente desconhecido, algo que é até bom para não desviar o foco do que realmente importa: a construção de medo criada através do inexplorado. Dessa premissa, a trama acerta em se beneficiar de outras histórias, como ‘Pânico na Floresta’, ‘A Vila’ e até mesmo o excelente ‘A Bruxa’, porém, é visível também a falta de cuidado do roteiro e impor uma visão extremamente estereotipada de uma cultura diferente da americana.

O começo engana e faz parecer que a trama será o padrão clássico de jovens que se perdem na floresta e são mortos um por um, no entanto, após alguns minutos, o roteiro subverte as expectativas e começa a acompanhar um casal de americanos que decide passar uma semana conhecendo a Índia e suas belezas naturais. Nessa viagem, acabam se deparando com uma sessão noturna de exorcismo, feito em uma menina, e se envolvem na tentativa de ajudar a criança. Obviamente, como se pode esperar, há segredos sombrios na floresta que eles não estavam esperando. Dentro dessa proposta, o diretor Vikram Jayakumar constrói uma interessante atmosfera obscura e, surpreendentemente, ainda que utilize clichês do gênero, consegue provocar medo, especialmente pelo visual realmente sinistro da tal mulher/criatura desconhecida que habita a floresta.

É exatamente nas sutilezas, na ausência de jump scares e nos inúmeros planos que mostram a floresta sombria e solitária, que o terror é bem sucedido. Especialmente por uma das regras ser “não olhe para trás”, ou seja, o diretor utiliza essa aflição para filmar os personagens sempre de costas quando estão caminhando, o que auxilia ainda mais o clima medonho. Até mesmo a forma silenciosa como a criatura, coberta de galhos secos, caminha pelas árvores, somada à trilha sonora intensa e os sons ambiente da natureza, tornam a obra uma montanha-russa de sensações. O tal monstro lembra a icônica criatura de ‘A Vila’ e isso, por si só, já dá um pavor enorme e mostra o empenho da direção em mergulhar nas lendas bizarras que existem pelo mundo, algo que nos faz pensar que, se essa premissa tivesse sido dirigida por nomes como Ari Aster (Midsommar, Herditário), o resultado teria sido avassalador.  

Porém, há deslizes, principalmente no desenvolvimento dos personagens e na rápida perda de interesse que temos por eles na história. Ainda que a dupla de protagonistas seja condizente com a proposta, o elenco não sustenta a intensidade. Vanessa Curry consegue se destacar mais do que os outros, mas ainda assim vive uma personagem completamente superficial e que, como em todo filme genérico de terror, toma decisões erradas apenas para estar em perigo e, com isso, faz a trama se movimentar. Curiosamente, quando o roteiro não foca no casal, mas sim nas histórias sinistras que a menina conta, é quando atinge seu maior potencial narrativo e se torna memorável. Fora isso, não passa de um emaranhado de clichês bobos que já foram feitos à exaustão em outras obras. Aliás, o ritmo também é ruim e há muito preparado para pouca entrega no clímax.

Dessa forma, ‘O Segredo da Floresta’ é feliz em fugir da convencional ambientação americana e mostrar crenças macabras de outro país. Surpreende por criar uma atmosfera sombria e sinistra, especialmente por trazer uma criatura bizarra como antagonista e por fazer pequenas homenagens à clássicos do terror, como ‘A Vila’ e ‘A Bruxa de Blair’. No entanto, como um produto final, não passa de um verdadeiro emaranhado de boas ideias mal executadas. Com isso, desperdiça sua construção de medo, criada através do desconhecido, para se manter na zona de conforto do terror genérico.

Nota Geral
6

Resumo

Surpreende por criar uma atmosfera sombria e sinistra, especialmente por trazer uma criatura bizarra como antagonista e por fazer pequenas homenagens à clássicos do terror, como ‘A Vila’ e ‘A Bruxa de Blair’.

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