É cansativo ver a mesma e datada representação do amor em comédias românticas de baixo orçamento, que buscam apenas replicar fórmulas já estabelecidas por clássicos, sem compreender os novos tempos e as mudanças que o sentimento e a forma como as pessoas se relacionam se modificou desde que filmes como ‘10 Coisas que Eu Odeio em Você’ fazia sucesso entre o público jovem. Claro que não é compromisso do roteirista (ou talvez devesse ser) estar de acordo com a atualidade, já que é compreensível que a comédia romântica se sustenta plenamente através de clichês, mas não é delicioso quando um filme sabe o ano que sua história está sendo situada e cria um ambiente condizente? Nesse quesito, ‘Te Quiero, Imbécil’, comédia espanhola que está fazendo sucesso na Netflix, tem um roteiro atual, mas incoerente. Se por um lado a trama é sobre a busca de um homem (heterossexual, o filme deixa isso bem claro!) para se tornar um homem moderno, por outro, esquece completamente essa tal “modernidade” ao espelhar o mundo apenas na visão de um único tipo de homem possível: o padrão.

De fato, algumas ideias que o roteiro defende são retrógradas e não vão de acordo com o contemporâneo que tanto aborda em suas piadas. Nesse universo em que Marcos (Quim Gutiérrez) vive, para um homem ser desejado pelas mulheres, ele precisa ser o macho alfa. Nesse caminho, o filme vai contra a típica e até mesmo bonita mensagem presente em comédias que tanto se espelha, de que mudar a si mesmo para agradar os outros só faz você se tornar vazio e esse vazio é reflexo de um roteiro que exclui possibilidades e que desperdiça a oportunidade de, no desfecho da história, fazê-lo voltar ao a ser quem ele é de fato ou se tornar um híbrido dos dois. Marcos muda drasticamente, se atualiza e começa a enxergar o século que está vivendo, o que é ótimo, mas só superficialmente e apenas para se encaixar.

Através dessa falta de tato, o roteiro reforça temas que não são mais bem-vindos, como masculinidade tóxica, piadas transfóbicas e ainda tem tempo para colocar a mulher em um patamar de inferioridade. Mas ok, deslizes cometidos, quem sabe, para agradar seu público alvo. Se afastarmos essas ideias ultrapassadas, há um humor realmente inteligente, ágil e divertido por trás, especialmente pelo fato de o protagonista quebrar a quarta parede e conversar diretamente com o espectador, como acontece em ‘Fleabag’, por exemplo. Essa aproximação faz com que possamos mergulhar em seu cotidiano e rir ao seu lado das presepadas que está vivendo enquanto busca transar, mas percebe que está se apaixonando por sua amiga da infância Raquel (Natalia Tena, a Ninfadora Tonks de ‘Harry Potter’). Esse artifício é extremamente bem utilizado e engrandece muito sua proposta.

Outro acerto, além da ótima trilha sonora e da ambientação urbana, é a condução enérgica de Laura Mañá e o seu trabalho de direção com o elenco, especialmente com a dupla de protagonistas. Tanto Quim Gutiérrez quanto Natalia Tena estão ótimos e claramente se divertem com seus papeis. Há até mesmo espaço para pequenos improvisos aqui e ali e a química entre eles em cena é cômica, melhor até do que boa parte das piadas clichês. Quando o roteiro foca na crise dos 30 anos que o protagonista está passando, a comédia engrena e segue em alta, por acompanhar o cotidiano de alguém que não sabe ao certo o que fazer da vida e que acaba vivendo como um adolescente em busca de sexo fácil. Essa imaturidade do personagem diverte até começar a irritar, mas, em sua grande maioria, é sua ingenuidade que se sobressai.

Como uma boa e velha comédia romântica, além dos aceitáveis clichês e de da previsibilidade do final, ‘Te Quiero, Imbécil’ satisfaz no humor extrovertido, mas reforça uma imagem ultrapassada do que seria um homem moderno. Na superfície agrada, faz rir e entreter, mas se o mergulho foi mais fundo, há alguns deslizes difíceis de engolir. No geral, o casal protagonista e a quebra da quarta parede fazem a comédia espanhola ao menos ser criativa dentro de sua proposta e, com tantas bombas explodindo na Netflix, isso já está sendo o bastante por agora.

Nota Geral
7

Resumo

Como uma boa e velha comédia romântica, além dos aceitáveis clichês e de da previsibilidade do final, ‘Te Quiero, Imbécil’ satisfaz no humor extrovertido, mas reforça uma imagem ultrapassada do que seria um homem moderno.

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